The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Primeiro Milho é dos Pardais

Não tenho nada contra pesquisas feitas na net, mas tenho cada vez menos paciência para pesquisas superficiais, mal digeridas, na net ou onde quer que seja. Para quem dá aulas, são a praga. Passa-se metade do tempo a reler entradas da wikipedia aquecidas no micro-ondas. São raros os semestres onde não há plágio puro e simples, onde um aluno não passou as duas horas de um teste de consulta simplesmente a fazer copy/paste. Nem sequer estou a falar de remisturas complexas, simplesmente de seleccionar a página de alto a baixo e despejá-la na resposta.

Este ano vou começar a filtrar trabalhos e exames através de software de detecção de plágio antes de os ler. Não sei se funciona bem ou não. Até agora não me sentia bem com esta automatização do acto de avaliar, de criticar, mas dada a quantidade, de cadeiras, de alunos e de textos de má qualidade, prefiro fazer esta triagem.

Habituámo-nos aos motores de busca, que são fantasticamente inteligentes, sim, que fazem muito trabalho por nós, mas também nos tornam todos um bocadinho iguais. Saber pesquisar compensa. Há uns anos lembro-me de um professor de design que se irritava porque o nome das fontes tipográficas escolhidas pelos seus alunos começava sempre por A, B e mais raramente C ou D, o resultado de ir fazendo scroll por um menu organizado alfabeticamente. Saber como chegar para além da primeira página de resultados do google é uma arte.

Gosto de comprar livros antigos na net, e já apanhei livros impossíveis ao preço da chuva enterrados bem fundo nas páginas de resultados. Habituei-me a procurar títulos e nomes de autor com gralha, erros de data e de classificação, etc. Em várias ocasiões já ajudei amigos a encontrarem livros impossíveis, esgotados, quase fora das bases de dados.

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Start Up

Idealmente, durmo pelo menos uma sesta ao longo do dia, que não dura mais que um quarto de hora, vinte minutos. Nos dias de sol, faço-o na relva da faculdade. Quando chove é mais difícil. Tenho que me equilibrar em cadeiras. Assentar a cabeça na mochila. Seria a favor de uma hora da sesta. Ou de pelo menos um local onde se pudesse dormir. Ler quantidades industriais de teses e de testes só é possível ou produtivo parando de vez em quando.

Contudo só é possível fazê-lo às escondidas. Estranhamente dá melhor aspecto chegar atrasado e ensonado a uma reunião de um almoço prolongado onde se comeu (e bebeu) como um Abade do que dormir uma simples sesta. E é mais aceitável fazer uma pausa para fumar do que para dormir.

Ando com a ideia de uma start up que projecte falsos cigarros electrónicos para gente que só quer relaxar.

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Micro-Crítica

Ainda não fui ver a exposição Exercícios de Estilo da dupla Sara & André, portanto isto não é uma recensão, quando muito uma micro-crítica ou uma micro-observação dirigida a um aspecto mínimo do objecto, que ainda não vi ser referido em mais nenhum lado. Para quem não sabe, a dupla encenou uma retrospectiva ao estilo de Julião Sarmento, criando pastiches de obras das diversas fases da sua carreira.

As apropriações e citações não são incomuns na arte contemporânea, antes pelo contrário. Se aparece algum raro objecto que se pretende situar em nenhuma tradição, rapidamente o é. Mesmo que a intenção de artistas e comissários seja a novidade ou a ruptura, o modo por defeito de recepção da arte contemporânea é a procura de referências, a interpretação em termos de precedentes, etc. Não há portanto nada de novo na citação ou na sua versão mais violenta, a apropriação.

O que me parece mais curioso nesta apropriação em particular é ser total e dirigida a um artista próximo, português e vivo. Penso que não é comum isso acontecer em Portugal. Habitualmente, apropria-se coisas mais distantes, o que esconde o carácter sempre violento, de roubo e desvio de identidade. Saul Bass, a propósito de uma apropriação que lhe fizeram, dizia que homenagem é roubar os mortos, e ele não estava morto.

Apropriar um artista próximo é fazer um curto circuito aos circuitos habituais de influência, que exigem que mesmo as ligações entre artistas próximos se processem através de centros e tradições distantes.

Daí que me pareça significativo que, para além da obra propriamente dita, haja uma apropriação de um dos formatos mais óbvios e frequentes da arte contemporânea em Portugal, a retrospectiva, que muitas vezes é a apropriação e recontextualização de uma obra, individualizando membros de colectivos, traduzindo para uma biografia obras de autores onde isso não interessa nada, etc.

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Intelligent Design

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A mostrar a minha rua a uma amiga sueca ela espanta-se com as casitas de metal com sacos de plástico para cagadelas de cão. “São gratuitos?” Eu respondo que são, mas pouca gente os usa. A rua está habitualmente coberta de cagalhotos de todos os feitios e tamanhos, e em vários estados de desenvolvimento, desde o luzidio acabado de fazer ao baço coberto de uma película branca de bolor. Hoje, estranhamente, está quase limpa. Só uns pequenitos aqui e ali. Digo-lhe que tenho uma teoria, pensada uma vez enquanto vinha para casa, que os caracóis e as lesmas se adaptaram evolutivamente para se parecerem com cagadelas de cão, de modo a repelir os predadores e desencorajar as pisadelas.

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E, já agora:

A propósito dos dois últimos textos: é cansativo repetir, mas quando eu falo do comissariado como uma elevação da gestão do trabalho a uma estética não estou a denunciar que o comissário A é muito mau ou que o B é um Tio Patinhas. Por favor não me moam a cabeça com a lenga lenga do também há comissários bons, etc. Estou a falar de tendências. É a mesma coisa que falar-se da mudança de paradigma dos Descobrimentos inaugurarem uma séria de relações de poder entre populações que alterou completamente os modos de vida e aparecer alguém a dizer que não se pode andar a dizer coisas dessas porque conheceram o Diogo Cão e era boa pessoa, de Vila Real, e oferecia bolinhos por onde passava.

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Não era bem essa a ideia

Depois de ter escrito o último texto, vieram-me logo comentar que também devia ter falado sobre o comissário A ou a residência B ou o museu C que também pagam a toda a gente, etc. Desculpem, mas não é a minha função andar a fazer de ASAE ou Ganhem Vergonha do mundo da arte.

Se fosse, também não pararia na questão de toda a gente ser paga. Porque a definição do que é “gente” muda bastante de caso para caso. Já apanhei exposições onde se “paga a toda a gente” mas se usa trabalho de estagiários. E porque a questão do “quanto” também é importante. Quando se fala recorrentemente de pagamentos simbólicos devia ser evidente que pagar algo só para se dizer que se pagou não é bem a mesma coisa que pagar decentemente. E que a relação entre os salários do topo e os salários do fundo também deve ser decente. Etc

Mas não, não é minha função andar a fazer listinhas de quem é decente ou não no mundo de arte. Se acaso vos envergonha o colega ou a instituição que não pagam, têm duas hipóteses: a) continuem a rilhar biscoitinhos nas inaugurações com ele como se nada fosse b) Organizem-se e denunciem essas situações. Envergonhem-nas.

Update: Informem-se. Façam de conta que o vosso trabalho é tão exigente como escolher um iogurte. Quantas calorias. Se tem carcinógenos. Se tem ingredientes geneticamente modificados. Se foi feito por trabalho escravo. Leiam a etiqueta e vão à net antes de consumir e compactuar.

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Pagar

Ontem, uma amiga minha, a Inês Moreira, veio relembrar-me que nem todos os comissários e residências são como os que eu que descrevo, onde é comum uns serem pagos e outros nem por isso. Ela disse que fazia questão, nas coisas que organiza, de toda a gente receber. Acho muito bem, e comprometi-me a informar disso mesmo aqui.

Não tenho grandes números sobre trabalho não remunerado na cultura. Penso que ninguém terá. Mas sei que é praticado constantemente. Estou sempre a ouvir relatos de casos. Outra amiga, também a propósito de arquitectura disse-me ontem que andava a tentar que os arquitectos estabelecessem um tecto mínimo, um preço abaixo do qual ninguém trabalharia. Eu acho bem, e achava bem que se fizesse isso nas artes em geral. No caso do design, idem.

Só pedia, já agora, que se desse prioridade aos salários e não aos orçamentos. Cobrar um mínimo por trabalho a um cliente não é a mesma coisa que pagar um mínimo às pessoas que estão a fazer trabalho. No primeiro caso, está-se a dar protecção às empresas e a confiar que elas façam o mesmo aos seus funcionários. No segundo caso, está-se a protegê-los directamente.

Mas neste momento parece que as artes se dissolveram. A arquitectura está em pantanas. A engenharia volta a disputar com ela territórios já demarcados. É a falta de dinheiro que obriga a procurar novas possibilidades. Mesmo os arquitectos já o fazem há algum tempo. É comum encontrá-los pela nova hotelaria e pelo novo turismo, por exemplo, não necessariamente a fazer projecto. Design e arte, idem. Daí que me pareça mais realista proteger-se um salário do que uma identidade profissional.

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Nota de Rodapé

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Em relação ao FCT, etc., ainda falta dizer uma coisa. Pessoalmente, acho que as artes deviam saltar fora. Não ganham nada por ficar. A pouca credibilidade que ganham é burocrática, de tentarem parecer o que não são ao ponto de se esquecerem o que foram, e o que só elas podem ser. A falta de vontade financiar as artes tem a sua origem na política e não na “ciência”, não é através da camuflagem que se resolve o problema. Assumir um compromisso com um interlocutor que o recusa excepto nos seus próprios termos é estúpido. Quando muito alcança-se uma espécie de marginalização instituída e tolerada até que toda a gente que trabalhe no ensino das artes se reforme e as instituições fechem.

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Inaugura hoje

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Na Biblioteca Almeida Garrett. No âmbito deste evento, farei uma conferência sobre a “Cena do Porto” para apresentar um ensaio sobre o assunto, uma tentativa de sintetizar uma série de reflexões sobre arte, design e política no Porto.

 

 

 

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Crítica

Gosto cada vez mais de escrever sobre arte. Tal como acontece com o design, tento não o fazer do ponto de vista dos artistas ou comissários, mas do público. Não acho que a crítica deva falar sobre a obra mas ensaiar um discurso público sobre ela. Para mim, o crítico ideal é sempre uma tentativa de representar a figura do público. Agora que nas grandes instituições se reduz essa figura a um número, uma espécie de átomo sem nada que o qualifique, que diga se gostou ou não, e como, um mero visitante, parece-me inevitável que a crítica se torne residual.

Também me parece importante que a crítica recuse as fronteiras da obra, que ponha em causa mesmo aquelas que são apresentadas pelos velhos autores – os artistas – e os novos – os comissários. Escolher o enquadramento, isolar as obras da tradição e perguntar qual o sentido dela aqui e agora. Ou então o oposto: denunciar a inovação não porque já tenha sido feita mas porque não se parece com nada.

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Ainda outra nota

Continuando a reflexão sobre a Cena do Porto, não é difícil demonstrar o carácter mitológico de uma suposta resistência das artes a Rui Rio. Foram muito raras as ocasiões em que as artes plásticas tomaram uma posição pública em relação ao assunto. Enquanto cidadãos, talvez. Enquanto artistas ou comissários, nem por isso. Inclusivamente, não foram raras as instâncias de colaboração entre as artes plásticas e a câmara, muitas vezes mediadas através de Serralves.

Veja-se, já no final do mandato, todo o caso da bandeira do Paulo Mendes no edifício Axa, talvez a única ocasião onde quase quase houve um confronto directo entre a Câmara, artistas e comissários. Longe de haver uma resposta unívoca  por parte das artes, a resposta acabou por ser diluída, ambígua e mais condicionada pelas relações pessoais e fidelidades internas do mundo da arte do que pela vontade de fazer um statement público.

Percebe-se bem a diferença entre uma resistência activa e um inconsequente queixume olhando paras acções desenvolvidas em torno da Escola da Fontinha ou da Biblioteca do Marquês, que foram realmente espinhos na imagem pública do autarca, e que foram reprimidas com violência desproporcional.

Ou seja, a política municipal para as artes durante os mandatos de Rui Rio foi ofensiva para as artes, sim, mas não tão determinante como as dinâmicas internas do mundo da arte, e em particular o papel directo e indirecto que Serralves teve na cena local. Para o averiguar, basta mapear todas as circulações e cumplicidades entre a instituição, comissários, críticos, artistas e até designers, e perceber que as maiores fracturas públicas ocorreram tendo Serralves como charneira ou até catalisador.

 

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Adenda

Relendo o meu último texto, percebi que faltava acrescentar uma coisa. Acredito que não devem ser as artes a irem ter a meio caminho com o FCT, porque é isso que tem sido feito com bastantes custos – financeiros, pessoais, de credibilidade – mas o FCT a vir ter com as artes. Podia começar pelo próprio nome. Se ouço mais alguém a argumentar que as artes “podem” ser ciência ou também “são” tecnologia, já não respondo por mim. Tudo pode ser tudo. Ou então não. É cansativo e contra-producente andar constantemente a mapear uma área disciplinar em termos de outra. Ai, que as artes também têm investigação, técnica, cientistas que foram artistas ou vice-versa. A discussão deveria ser outra: será que as artes podem ser outra coisa qualquer que não ciência?

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A Nova Ciência Explicada às Criancinhas

Não há qualquer género de vantagem no modelo actual de integração das artes no ensino superior, que as obriga a fazerem de conta que são uma ciência, com a sua jigajoga permanente de papers, conferências, peer review, etc. É tão degradante como pôr um urso a dançar num circo em troca de comida ou de menos pancada. Nem sequer é uma analogia completa; para isso o urso teria que comprar o seu próprio tutu de bailarina e pagar do seu próprio bolso as deslocações.

Ai, mas dirão, os ursos mais bem sucedidos são recompensados. Nem por isso, só os que têm mais jeito para fazer de conta que são bailarinas. E esqueceram-se de dizer que os ursos têm que concorrer nos apoios contra bailarinas a sério daquelas que treinam desde os cinco. Ai, mas já vês, até as bailarinas têm tido cortes, também não é fácil para elas. Estás a dizer, que por ser um sistema de bailarinas onde mesmo as bailarinas não se safam, até há alguma hipótese para os ursos? Nisso, reconheço, és capaz de ter razão; só depende do sentido da palavra “urso”.

Quando entrei para o ensino, achava que havia pouca reflexão sobre design. Escrevia-se pouco. Agora é uma roda viva. Papers. Mestrados. Doutoramentos. Qual o efeito disso na discussão pública? Mínimo. Nas artes plásticas é o mesmo: escreve-se muito mas desapareceram praticamente todas as revistas especializadas. Mesmo na imprensa generalista a crítica reduziu-se a quatro ou cinco colunas distribuídas entre o Público e o Expresso na melhor semana. Pelo contrário, a verborreia de circunstância, a prosa de folha de sala, o discurso de inauguração tornam-se cada vez mais “científicos”, até já se diz que são a nova crítica.

Se digo isto tudo é porque o meu Centro de Investigação foi dos que ficou de fora, não vai ter financiamento do FCT, que de resto nunca teve. Na avaliação, dava-se a entender que nos preocupávamos mais com arte do que com investigação aplicada. Mas não faz mal, em 2020 podemos tentar de novo. Até lá temos que nos financiar por outros meios ou do nosso próprio bolso. Ou seja, vamos andar a ocupar o nosso tempo e a cortar no nosso próprio salário pela possibilidade de, daqui a meia década, nos cortarem um pouco menos nos nossos financiamentos e salários – porque ter uma boa avaliação só garante que não nos batem tanto. E, claro, enquanto não somos aceites pelo sistema, a “investigação” paga pelo próprio bolso conta para engrossar os resultados do sistema que não nos aceita.

É de loucos. A prova disso? Alguém escreveu um paper a apontar os erros amplamente documentados do sistema. Em vez de uma refutação no mesmo fórum, o sistema prefere processar legalmente quem o põe em causa. Se tudo isto fosse verdadeiramente científico, estaria sujeito a escrutínio. Mas na verdade como é apenas um sistema de administração burocrático, só interessa escrutinar os outros.

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Mais uma notinha em relação à Cena do Porto

Diz-se muito e com razão que a vida pública portuguesa se faz de casos. Discutem-se pessoas e bitaites mais do que políticas. É verdade, embora não me pareça que seja diferente em qualquer outro lado. Não é difícil discutir a vida de alguém, gafes, aparência, eloquência, etc. O problema é conseguir esquecer isso tudo e perceber por detrás e para além desse ruído de fundo tendências, táticas, estratégias e ideologias.

Até há meia dúzia de anos, por exemplo, o neoliberalismo era uma tendência sem nome, evidente no discurso recorrente sobre a tanga, a obsessão pelo déficit, a necessidade de desbastar o Estado, enaltecer os criadores de emprego, etc. Faltava um conceito que revelasse o padrão, mas a coisa estava lá, à espera de um nome.

E, ainda hoje, quem defende essa doutrina resiste a esse nome, porque descrever criticamente algo já está a meio caminho de o desnaturalizar, de lhe tirar o estatuto de senso comum, de lhe descobrir alternativas, de lhe descobrir paralelos, de fazer a ponte entre o que acontece aqui e o que já aconteceu em outro lado.

Mas há sempre a resistência de dizer que aqui é diferente, ou seja que há algo de identitário que de algum modo nos isola dessas tendências gerais, um excepcionalismo que pode nem ser triunfalista (“Somos os melhores”) mas basta ser miserabilista (“Somos os piores”).

O mesmo se pode dizer das artes, nem sequer por analogia mas simplesmente porque são algo necessariamente integrado na vida pública, política e económica de um lugar. Se tudo isto se integra num esquema maior, as artes também o farão.

Assim, dizer que os movimentos dos artistas do Porto se podem resumir a uma resistência a Rui Rio é reduzir uma série de desenvolvimentos complexos a um caso, que disfarça outras movimentações mais significativas. Por exemplo, parece-me que os embates mais interessantes foram em relação a Serralves e não em relação à Câmara.

Se a questão geral em relação a Rui Rio era de representação, de reivindicar a presença e a própria legitimidade da cultura dentro da cidade, em Serralves a discussão foi semelhante mas mais difícil, porque era interna ao próprio mundo da cultura. Foi uma discussão entre artistas, críticos, curadores, directores, onde havia posições muito distintas quanto ao papel do artista, da arte, da instituição, etc.

A marca da sua dificuldade reside no facto de ter deixado pouquíssimos vestígios documentais. Foi sobretudo oral e quase privada. Agora, quase uma década depois pouco ficou para além das memórias vagas e contraditórias dos participantes. Do diz-que-disse.

Mas foi uma discussão que ecoou outras, que se enquadrou num esquema geral de interrogar as funções de artista, público e instituição; de como a instituição deve representar uma série de identidades, incluindo a sua própria.

O resultado disto, quase dez anos depois, é no que me diz respeito frustrante. A missão de Serralves continua a ser a circulação de nomes mais ou menos estabelecidos internacionalmente, entremeados com a fixação retrospectiva de nomes da arte portuguesa de há uns quarenta anos. Tem uma muito vaga política ad hoc de intervenção no panorama das artes actuais do Porto. É significativo que uma das primeiras exposições da nova directora tenha sido a dos 12 (ou 10, nem me lembro) Contemporâneos, uma maneira expedita de picar o ponto à necessidade de representar os “locais” antes de iniciar um périplo pelo Médio Oriente.

Foi essa obrigação de “picar o ponto” que sobrou de toda a discussão do lado das instituições. Do lado dos artistas, em muitos casos os mesmos que achavam que não se devia representar os artistas locais só por serem locais – era preciso salvaguardar a internacionalização, etc. e tal –, o resultado é uma representação pungente mas alegrezinha da pobreza, da precariedade, do local.

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Mitos Urbanos

Se calhar devia também fazer uma t-shirt ou uma tatuagem sobre o assunto: reviro sempre os olhos quando me falam da arte no Porto da era Rui Rio, dos corajosos artistas que foram sobrevivendo num meio adverso, contra tudo e todos, etc. É lindo, é romântico, mas infelizmente não foi nada disso. É mitologia, o que até podia ser bom, curava as feridas, explicava o inexplicável, mas nem sequer isso.

Como já tinha dito:

“[...]chateia-me que não se vá para além dos lugares comuns mais confortáveis: a cena alternativa lutando contra o vazio provocado por Rui Rio, etc. É uma história conveniente porque iliba lisonjeiramente os próprios agentes culturais (artistas, comissários, críticas) de responsabilidades.

Durante os últimos quinze anos, o Porto foi um ecossistema complexo de cumplicidades institucionais e pessoais, de circulações, artistas que guiavam visitantes em instituições que trabalhavam em galerias, que tinham ao mesmo tempo carreiras internacionais, etc. Houve discussões. Avanços e recuos. Purgas. Avanços de carreira disfarçados de desistência  e vice-versa. Só aqui no blog se cobriram uns tantos abalos da cena: as discussões em torno da cena alternativa do Porto há mais de meia dúzia de anos, o caso Axa, a turistificação do Porto e a sua relação com a cena alternativa, etc.

Não é um vácuo, é uma atmosfera densa mas tóxica – o que nem interessa muito porque a sua fauna é anaeróbica, vive melhor quem não respira demasiado.”

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O Provincianismo Crítico

Um dos tiques que mais me enervam na crítica de arte portuguesa: apanhar um artiguelho sobre uma exposição, espaço ou evento, perfeitamente identificados logo no cabeçalho, a acontecerem num sítio qualquer a uma dada hora, com fotografia diligente ao lado a confirmar que a coisa existe, e o crítico gasta metade do artigo a introduzir a coisa falando interminavelmente de Deleuze, de Adorno ou de Duchamp ou do diabo a quatro. Às vezes, nem perde tempo a dizer porque é que nos leva à Áustria ou à Irlanda para falar de uma exposição num vão de escada comissariado em Xabregas ou no Canidelo, e perdemos nós meio texto neste desvio. Lá para o fim descreve apressada e vagamente a coisa, conta as palavras para ver se já passou o limite e pronto.

Já dizia Foucault que o poder nunca é distante, precisa de ser encenado no próprio sítio onde é preciso exercê-lo. Não há poder longínquo ou central, por oposição a uma periferia onde é difuso e ténue. Por outras palavras, para exercer a forma de poder que é o provincianismo são precisas estas encenações simples de nunca ser possível falar do que temos à frente do nariz em Xabregas ou no Canidelo sem passarmos primeiro pela Áustria ou pela Irlanda.

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O Novo Kitsch

É evidente que o que eu dizia, há uns textos atrás, sobre haver trabalho em abundância mas não emprego também pode ser aplicado às artes. Temos um governo filisteu numa sociedade não apenas anti-intelectual como anti-cultural mas a ambição é fazer disto um país turístico, e portanto é útil conseguir dar a ideia de “requintado”, “histórico”, “típico”, “tradicional”. Assim, há uma procura extrema não exactamente de cultura mas de sucedâneos. Quando se diz que não há dinheiro para a cultura, isso é apenas para certo tipo de cultura, feita de certa maneira. Há dinheiro para uma torrente de kitsch rápido, fervilhaste e inconsequente assegurado por uma fonte interminável de trabalho barato, gente que faz disto um segundo ou terceiro emprego ou estagiários não-remunerados ou profissionais (pagos pelo Estado). Não admira que o comissariado, que é como quem diz a gestão de recursos humanos (a pastorícia de gente menos ou nada remunerada) como estética, se torne no género artístico dominante.

 

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Hiper Inflacionado

É comovente como o Primeiro Ministro acabou por dar razão a todos os que diziam que a solução do BES ia acabar por custar aos contribuintes. Outra solução seria trocarmos o Euro por uma moeda de valor indexado não ao Ouro ou ao Dólar mas à palavra do Primeiro Ministro. Podia-se chamar o Coelhinho. Ia valer tão pouco que as nossas exportações iam disparar sem dúvida para níveis astronómicos.

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Não se safam com essa

Nem um dia depois de ter escrito sobre isso, a última crónica de João Miguel Tavares é uma óptima confirmação  de como a incompetência de Passos, Crato, etc. é estrategicamente favorável à agenda neoliberal, austeritária, a médio e até a curto prazo. Repare-se no cuidado como JMT separa competência de ideologia, reiterando que não vê alternativa à austeridade, apenas que o executivo de Passos será incapaz de a pôr em prática.

Esta tentativa de distanciar as trapalhadas deste governo da sua ideologia de base têm, como é evidente, o objectivo de manter o neoliberalismo como um dogma impoluto – o seu Reino não é (como é hábito nestas coisas) deste Mundo, mas (não faz mal) mate-se, esfole-se e moa-se a cabeça de toda a gente em seu nome. Em termos práticos, preparam a ronda seguinte de austeritários, se não nestas legislativas, nas próximas.

Ou seja, desde há algum tempo que já não é só a esquerda a apontar as contradições. Entre elas aquilo de este ser um governo liberal, que não quer interferir na vida dos cidadãos, deixando-os ser livres, etc. mas no entanto é só impostos, regulamentação de tudo e mais alguma coisa. Dá a sensação que se pode tossir sem antes pedir autorização, pagar uma taxa e ser avaliado pelo desempenho.

Mas, lá está, não há contradição nenhuma, tudo isto se dedica a reprimir modos de estar em sociedade que não sejam liberais. Não cabe na canela desta gente que alguém faça qualquer coisa sem que o objectivo seja competir, empreender ou inovar. Assim, se uns tantos milhões de pessoas querem ter um serviço mais barato e acessível, pagando todos os anos uma quota para isso, quer estejam doentes quer não, isso não pode ser porque vicia os preços, tira o incentivo aos privados, pressiona as pessoas para se juntarem. E assim lá vai o Sistema Nacional de Saúde, o Ensino Público, a Cultura, etc. O mesmo quando as pessoas se reinem para formar um grupo de pressão que proteja quem trabalha no mesmo ramo, organizando-se de modos que ninguém trabalhe abaixo de um certo salário, etc. E lá se vão os sindicatos.

Porém, desmantelando tudo isto, fica-se com uma série de serviços atomizados, de tarefas feitas por gente que até pode ser experiente mas é contratada temporariamente, treinada para competir, para arriscar, e depois não se admirem que o arranque do ano escolar acabe por engasgar, ou que a transformação da justiça numa espécie de killer-app dê erro de sistema.

Ou seja, a causa de cada um destes casos não é apenas um incompetente pontual mas a própria filosofia que os organiza.

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Há trabalho, não há é emprego

Pela escola, tornou-se habitual ouvir gente a dizer que tem muito que fazer, logo precisava de um (ou mais um) estagiário. Ou seja, já mal existe aquela ligação causal de reservar uma parte do orçamento à mão-de-obra. Prevê-se os materiais, os custos com espaços, mas o trabalho assume-se que é gratuito e inesgotável – na verdade, quando é feito por estagiários curriculares, está a ser pago por eles mesmos sob a forma de propinas. E o trabalho a custo zero leva bem depressa a delírios. Se há cada vez mais eventos, isso acontece em parte porque muito pouca gente é paga.

Até se pode argumentar que um estágio pode ser uma boa experiência (lá está: tudo pode ser uma boa experiência) mas se o objectivo é dar experiência de trabalho como uma mais-valia, essa experiência de pouco vale porque no processo o próprio trabalho é desvalorizado ao ponto de valer menos que uma recarga de agrafos ou uma resma de papel.

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Mário Moura

Esta é a minha biografia.

Se a estão a ler para tentarem perceber se "eu sou alguém", se acreditam que só depois de lerem o meu cv é que podem levar-me a sério, concordar ou não comigo, nem vale a pena continuarem a ler. Se vieram aqui por isso, leiam os meus textos: todos os argumentos importantes estão lá.

Dito isto: escrevo sobre design, cultura, política há uns nove anos. Faço-o regularmente aqui. Menos regularmente em jornais (Público, i), revistas e livros. Alguns dos meus textos foram reunidos no livro Design em Tempos de Crise, editado pela Braço de Ferro (está esgotado).

Dou também conferências regularmente. Nas Belas Artes do Porto, nas Belas Artes de Lisboa, na Esad das Caldas da Rainha, na Esad de Matosinhos, na Experimenta Design, no ciclo Ag – Prata, por exemplo. Dei um ciclo de 6 conferências sobre Livros na Culturgest de Lisboa entre 2011 e 2012.

Tenho uma tese de mestrado sobre a estética da programação (já soube fluentemente dezasseis linguagens de programação – Java, C++, Basic, Javascript, ActionScript, Lingo, Starlogo, PostScript, Proce55ing (quando ainda se escrevia assim), etc. Mas é preciso praticá-las, e eu não tenho feito isso; suponho que acabei por enjoar, mas de vez em quando sinto o chamamento; faço o que posso por ignorá-lo).

Fiz uma tese de doutoramento sobre autoria no design.

Já ensinei perto de vinte cadeiras distintas, distribuídas pelas Belas Artes do Porto e Lisboa, e pela Faculdade de Engenharia do Porto: gostei de uma que dei sobre Autoria; gosto de ensinar edição e bookdesign; também gosto de história e crítica. Tipografia e criação de tipos, dou quando tem que ser (não desgosto).

Se alguém quiser uma bio mais resumida, respeitável e copy/pastável:

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.


História Universal do: Estágio

O "Estágio"
O Negócio Perfeito
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Design & Desilusão
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Juventude em Marcha
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