The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Culpar a vítima

Tenho muita pena de não ter ido ontem à manifestação de apoio à Sara Vasconcelos, ao que tudo indica agredida por um taxista porque beijou outra rapariga na boca. Há quem ache que não pode ter sido só por isso, que deve ter havido mais qualquer coisa, que a história está mal contada. A isso, só posso garantir que sim, há gente insultada e agredida regularmente por coisas destas.

E também posso garantir que das coisas que mais magoam quando se é agredido por um imbecil qualquer de repente ao acaso  sem qualquer razão ou provocação é ter que andar a ouvir gente a dizer que não pode ter sido só isso, que estávamos a pedi-las, etc. O que isso significa é que alguém decide dar-nos porrada e ainda temos que gramar com os que acham que deve haver sempre dois lados para a questão, que há sempre uma simetria qualquer entre agressor e agredido. No fundo estão a dizer que o imbecil não só nos agrediu como ainda nos fez descer e ficar ao seu nível aos olhos de todos. E isso é tão mau como ter sido agredido, garanto.

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O Cinema enquanto Mistério

Antes que passe muito tempo, que me esqueça, tenho que escrever sobre “Outros Amarão as Coisas que Eu Amei”, uma espécie de ensaio biográfico de Manuel Mozos sobre João Bénard da Costa. O que tenho para escrever é simples. Walter Benjamin, marxista, dizia que coisas como a colagem ou o cinema vinham destruir de vez o sagrado, o que ele chamava a “aura”. Isso seria bom porque libertava a arte e o espectador do domínio e da autoridade da tradição. Benjamin não diria isso se tivesse conhecido Bénard da Costa. O cinema para ele era uma religião, a sua exibição uma forma de liturgia, a cinemateca a sua basílica. Já se percebia isso indirectamente, através de um estilo que contaminava os espectadores mais assíduos da cinemateca, vendo o documentário de Mozos percebe-se no velho director a sua origem ou pelo menos expressão mais pura.

Não se trata apenas de ver na sessão de cinema um equivalente próximo do acto litúrgico mas de uma equivalência mais completa. Bénard da Costa via os filmes com os mesmos métodos críticos com que se via a pintura ou os textos religiosos, em termos de uma exegese,  da descoberta e celebração de um certo conjunto de temas morais. O filme é um Mistério que nunca chega a ser resolvido, apenas reencenado ritualmente, uma e outra vez. Percebe-se a mesma tendência em críticos como Pedro Mexia, embora talvez menos extática, já quase laica. Se Mexia já é um jesuíta, Bénard da Costa ainda é um místico de visões desvairadas.

Este misticismo visionário é perfeitamente demonstrável através dos catálogos da Cinemateca, autênticos Livros de Horas que acompanhavam o crente nos períodos em que não estava na missa. Não pretendiam substituir a experiência do sagrado, apenas evoca-la por outros meios.

Mesmo que não se partilhe da crença, o aparato fascina mas tem os seus problemas. Com o tempo a Cinemateca tornou-se numa espécie de lugar sagrado, desencorajando-se a circulação de filmes ao nível nacional, enquanto se assegurava a todo o custo a sua exibição diária apenas naquele lugar, enquanto no resto do país o cinema ia secando. Se o problema acabou por se resolver, foi apesar da Cinemateca.

 

 

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Conformalismo

Ando com uma sensação permanente de derrota. Sou um funcionário público, professor, designer de formação e crítico. O meu bairro é a cultura pública. A minha classe, amolgada e com a panela do cano de escape a arrastar pelo chão, ainda vai sendo a média. Chego a dois mil e quinze como quem sobreviveu à guerra das trincheiras e sinto-me derrotado. Sei que fui derrotado.

Há uns anos ainda se lutava, protestava, etc. Agora espera-se. Tem-se, não exactamente esperança, mas um cinismo esperançoso. Passos quase que está a sair. Costa vem aí. E, em vez de fazer o que quer que seja, espera-se. Não que se confie em Costa. Não porque entusiasme. Porque vai tirar de lá o idiota actual. Com a crise surgiu o Anti-Sebastianismo: já ninguém espera por um salvador mas apenas que o parvalhão actual se ponha a mexer. Se for preciso eleger outro parvalhão, é um mal menor.

Na arte contemporânea e no design, é a mesma coisa: já não se protesta, só se espera. Vão-se fazendo as coisinhas do costume, a pensar no mercado internacional, na exportação. É tudo muito genérico, caso contrário não vende. A medo mete-se alguma coisita política (mas nunca panfletária) porque o mercado internacional assim o espera, sobretudo de Portugal. Como pode um artista (ou designer) português ou palestiniano ou sírio não ser político? Venham cá e vejam, não é difícil. O estilo corrente é o Conformalismo.

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Já era tempo

Em relação ao Ano do Design, queria muito que a coisa desse certo mas, sem estar dentro do assunto, é-me difícil perceber o que se está a passar. Até a duração da coisa é peculiar: o logo diz 2014/2015 e o site anunciado com toda a gala está atrasado seis meses.¹ Seria talvez mais eficaz escolher um ano e não um período de doze meses que começa não sabe bem quando e acaba não se sabe quando.

Depois, diz-se na informação do site que se está a fazer “um levantamento e uma sistematização do design nacional, dos seus protagonistas e, a partir daí, proceder à partilha desses dados e à sua comunicação à escala nacional e global.” Um processo que “levará o seu tempo a estar terminado, e terá, dado o grande desenvolvimento da disciplina, de ser constantemente actualizado.” – faz parte da programação, mas mais uma vez não se percebem bem os limites. Quem vai administrar isto findo o evento?

Se calhar (e não falo apenas do caso do design) era melhor pensar mais em estruturas e instituições sólidas em vez de eventos periódicos e precários (bienais, trienais, encontros, festivais) que acabam por ter que funcionar sempre a meio caminho entre o efémero e o permanente, sem qualquer vantagem – bienais que têm uma programação permanente, apesar de nunca haver dinheiro, por exemplo.

No tal site, apresenta-se um conjunto de 40 nomes² (uma gota de água, assumidamente uma amostra). Mas a seguir verifica-se que a ideia é os restantes designers auto-inscreverem-se. É isto um levantamento? Quem escolheu? Como? Se a ideia era dar acesso, mais valia ter apresentado o site completamente vazio.

Mas confesso que o formato do directório me irrita um bocado. Desde que o design português apareceu há uma obsessão permanente por directórios e anuários, ninguém sabe quem é quem, é urgente comunicar, etc. E fazem-se, mas não fazem diferença nenhuma. É um formato tentador porque é fácil de pensar e ainda mais fácil de fazer (o conteúdo gera-se a si mesmo); já era altura de o esquecer. Há maneiras bastante mais interessantes embora trabalhosas de mapear o design nacional, há quem as esteja  a fazer realmente. Os exemplos não faltam e até aparecem nos nomes inventariados.

 

1- De acordo com o jornal Público: “Ainda assim, o site que colige também a programação do ADP nasce seis meses depois do previsto […]” Entretanto foi-me dito pelo José Bártolo que o cronograma foi comprido.

2 – Mais uma vez o número é o avançado pelo Público. Nesta primeira versão, de acordo com o José Bártolo (via facebook): “havia menos de metade; ao fim da manhã do primeiro dia o número de pedidos para inserção era de várias dezenas, tendo sido inseridos (por ordem de recepção) mais 20. Não tenho dúvidas que amanhã teremos mais de 50 e estou convencido que até ao final de dezembro (entre estúdios, instituições, publicações, exposições etc.) teremos ultrapassado as 200 entradas.”

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Duas Coisas

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Na semana que vem, vou fazer uma coisa e não vou poder fazer outra. A primeira será apresentar a minha tese de doutoramento na Sociedade Nacional de Belas Artes em Lisboa nesta 3ª Feira (16), no âmbito do Intervalo para o Conhecimento. Já me parece um objecto distante no afecto e no tempo. Na altura, entusiasmou-me embora me tenha sido muito penoso fazê-la (por tradição, é-se muito maltratado pelo sistema). Entretanto, já a prolonguei através das conferências que fiz na Culturgest, entre outras coisas.

A segunda (na qual não vou poder estar presente) será a apresentação da monografia sobre o designer José Brandão, para a qual escrevi um ensaio, no dia seguinte (17) na Gulbenkian, que edita o livro. No lançamento estarão, para além do próprio José Brandão, o Aurelindo Ceia que coordenou o projecto, o José Bártolo e o Frederico Duarte que nele colaboraram.

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Artistas à Peça

Olhando para a crítica que se escreve nos jornais, percebe-se que praticamente só existem duas identidades para o artista contemporâneo que neles queira aparecer: o artista individual ou (quando muito) a dupla ou o casal. É raríssima a exposição colectiva, que mesmo quando surge, é um sortido de nomes individuais, de duplas ou o casais. Mais raro ainda é o colectivo. É comum, pelo contrário, isolarem-se retrospectivamente artistas que fizeram boa parte da sua obra colectivamente.

Hoje no Ípsilon, Nuno Crespo atribui o problema à crise e à falta de vontade de arriscar. Não encontro link, portanto faço aqui uma citação alargada do excerto pertinente:

“E uma das expressões desta ausência de risco está na inexistência de exposições colectivas, de investigação, em que a atenção monográfica sobre os autores dá lugar à construção de um pensamento com e a partir de obras de arte singulares.

Há as excepções conhecidas em que outras geografias da arte e do mundo são trazidas a debate, mas na sua generalidade assiste-se a uma deslocação da atenção nas obras para a atenção no artista e a uma insistência na exposição antológica, na afirmação da autoridade de um autor, na confirmação de um percurso.

Não se trata de minorar autores individuais e o papel fundamental que alguns deles têm ao conseguirem, através das suas obras, iluminar todo um tempo e uma geração em conjunto com as suas aflições e transformações, mas trata-se de constatar o domínio de uma tipologia expositiva e daí retirar consequências. Esta é uma situação para a qual todos contribuem — os jornais e a sua ideia de informação, a crítica, as direcções dos museus e centros de arte e o predomínio das análises estatísticas, a sua obsessão pelo público como principal critério de gestão cultural e programação, etc. — e em que predomina o pre-conceito do sucesso: os espaços expositivos são hoje lugares dos casos de sucesso de onde estão ausentes a experimentação, a investigação, os projectos exploratórios e o risco a eles associados.”

Concordo na generalidade, mas acredito que há ainda outra razão.

Não se expõe identidades ou modos de organização colectivos porque neste momento o modo dominante de identidade dentro do mundo da arte é o comissariado. O comissariado é essencialmente uma estética de gestão e tende a lidar mal com modos alternativos de organização.  Porque é mais fácil organizar artistas e obras à peça isolando-os do seu contexto produtivo original. E porque é uma estética que se vê a si mesma como neutra e essencialmente administrativa, não tendo ainda muita consciência autocrítica.

Tal como já tinha acontecido com o design, o termo ultrapassou o seu uso original e tornou-se numa espécie de equivalente vago e quase mágico de comunicação. Tudo pode ser comissariado –  sobretudo a crítica que estranhamente quase desaparece no processo. Em vez disso, temos folhas de sala e textos de catálogo. Se isso é a nova crítica, percebe-se que ela perdeu quase por completo a sua autonomia sendo tragada para dentro da estrutura expositiva.

 

 

 

 

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Coisas do ano

Livro do ano: The Flamethrowers, da Rachel Kushner. Desde que me interesso mais por arte contemporânea que andava atrás de boa ficção sobre o assunto. Kushner já escreveu para a Art Forum e nota-se. Apanha como ninguém a sociabilidade tensa do mundo da arte. Apanha também as suas fronteiras. É uma check list das minhas obsessões: os Up Against the Wall Motherfucker, os Futuristas, as fronteiras entre a política e a arte, em particular entre o modernismo e os totalitarismos. Através dela cheguei aos Arditi, e deles voltei ao seu membro mais famoso, o poeta, proto-fascista e ultra-nacionalista D’Annunzio, que conquistou pelas armas a cidade de Fiume, perdida pela Itália nas negociações de paz, mantendo-a como um estado independente durante um ano. Acabaria em guerra com a própria Itália. A ligação a Portugal faz-se através de António Ferro que lhe dedicaria um livro embevecido.

Compra em segunda mão do ano: Aspen 5 + 6, de 1967, o número duplo minimalista da famosa revista/caixa, com discos, filmes de super 8 e várias intervenções de artistas. Contém a primeira edição da Morte do Autor de Roland Barthes. Habitualmente (e erradamente) o ensaio é datado do ano seguinte e associado ao Maio de 68, mas apareceu aqui pela primeira vez.

Banda desenhada do ano: Fatale, de Sean Phillips e Ed Brubaker, a meio caminho entre Lovecraft e Raymond Chandler com uma pitadinha de Nirvana.

Filme do ano: Cutter’s Way. É de 1981 mas é cinema loser no seu melhor. Tem um Jeff Bridges muito novinho.

Séries de televisão do ano: Brooklyn Nine Nine, a melhor comédia desde o Community. Person of Interest e Marvel Agents of S.H.I.E.L.D. – especialmente a primeira. O que gosto nelas? Quem as veja por cinco minutos vê personagens caricaturais, de traço grosso, clichés autênticos. O diálogo também é completamente folhetinesco. Mas de repente percebemos que um episódio de comédia quase burlesca, daqueles que costumam ser usados para ocupar o meio da temporada, é na verdade um drama e ficamos dias a cismar com aquilo – sem perder o tom. São séries ligeiras no pormenor mas diabólicas no plano de conjunto. Habitualmente é o oposto, com narrativas pesadas e super-psicológicas que no final nem um rato conseguem parir (True Detective, cof, cof).

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O Futuro

Escrevi há dois anos que “o futuro das artes estava no Porto”. Queria dizer com isso que o modo precário e desigual com que a cultura foi praticada e encorajada durante a austeridade municipal de Rui Rio passaria a ser o modo por defeito com que a cultura seria praticada em Portugal. Tinha razão.

Agora, com um ano de Rui Moreira, resta-me dizer o mesmo com uma pequenas actualização. Na verdade, uma especulação quanto ao futura assente no que se tem passado aqui no Porto. Não sei se na cultura se esperou alguma coisa deste novo Presidente da Câmara. Uma década de maus tratos deixam as pessoas desconfiadas. Entretanto, claro, anda tudo mais dinâmico  mais activo, mas fico na dúvida se melhoramos ou simplesmente já não andamos a piorar tanto.

Um ano depois, ainda se está meio desconfiado mas não se tem grande vontade de reflectir sobre o passado. Prefere-se esquecer. No campo da arte contemporânea, é evidente. A pouca política que se vai vendo, deriva mais do que se tem feito internacionalmente do que da vontade de intervir ou reivindicar o que quer que seja por aqui. É o “político mas não panfletário” que se concentra em assuntos da moda como o pós-colonial, sobretudo visto já não de um modo directo mas de experiências de família, nem sequer encenado nos próprios locais subalternos mas dentro da circulação de topo das bienais e dos grandes museus, com grandes meios, muito dinheiro, etc.

Por aqui, até isso é visto como risqué, e prefere-se dizer que assegurar uma esfera autónoma da arte a sobreviver no meio da crise é uma vitória. E até é, mas uma coisa é chatear porque se existe, porque se sobrevive, outra coisa é dar realmente luta. A cultura deveria representar algo para além dela mesma, por vezes nem sequer coisas que já existem, mas saídas, soluções. Pouco ou nada o demonstra.

Calculo que, se Passos sair, talvez com Costa seja a mesma coisa. Não piorar vai parecer quase quase bom.

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Xô-Basta-ianismo

Um traço português que desapareceu de vez com a crise foi o Sebastianismo. Já ninguém no seu perfeito juízo espera que um D. Sebastião saia da noite de nevoeiro para nos salvar, mas apenas que o parvalhão actual (seja ele quem for) se vá embora em quatro anos ou menos.

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Não há simetria

Tive mais uma vez a experiência perplexa de não gostar de um objecto de arte, ler a sua crítica negativa num jornal e não concordar, ler no facebook reacções negativas a essa crítica e não concordar ainda mais.

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Walk in silence

“Don’t walk away, in silence.
See the danger,
Always danger,

Endless talking,
Life rebuilding,
Don’t walk away.”

É comum ouvir artistas e designers a sublinharem a importância e a falta de feedback. O que fazem pretende ser público, não apenas por ter gente presente, a assistir, mas que fale, escreva e pense sobre aquilo.

Na arte em particular, há muito discurso interno entre os protagonistas, quem convida, quem comissaria, quem produz, quem ajuda, quem apresenta ao vivo, na folha de sala, no catálogo. Mas só raramente vem de fora.

Há dois jornais impressos que apresentam semanalmente uma ou duas colunas dee crítica. Na melhor das hipóteses, 208 recensões. Este ano alguém me dizia que este ano, só dentro das Belas Artes do Porto, tinham havido pelo menos 240 eventos. Fica quase tudo de fora.

E o comissariado não é, evidentemente, a nova crítica. Nem de perto, nem de longe. A velha crítica nos seus melhores momentos representava não a voz da academia ou dos artistas mas a do público.

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O que é o Provincianismo?

Há definições mais divertidas que a minha, mas para mim o provincianismo é a incapacidade de abstrair algo de universal de uma dada situação. Olha-se para uma salganhada qualquer (um caso político, uma decisão económica ou estética) e tanto não se consegue ver nisso uma tendência geral como se cai no oposto, fulanizando sistematicamente a situação. É fácil encontrar exemplos: bem se pode dizer que as causas da crise são internacionais que alguém nos responde logo, “O Sócrates!” Nesta visão do mundo tudo se acaba por reduzir a relações pessoais. E fica a ideia que saber a relação de fulano A com fulano B explica tudo quando na prática é o conhecimento mais básico e óbvio. O difícil é abstrair qualquer coisa disso.

A crise acaba por ser o melhor exemplo. Apresenta-se a ideia de um país como uma casa ou uma família e argumenta-se que só poderá ultrapassar a crise fazendo o que uma família faria. Ora um país não é uma família. É uma falácia de escala. O que se comporta de certa maneira numa escala pequena tem resultados completamente distintos numa escala maior, onde interessam as interações de todas as famílias e não apenas de uma. Se todas poupam, compram menos a outras famílias, que por isso têm menos fontes de rendimento, acabando por comprar menos à primeira família. E quem diz “comprar” diz “empregar”.

Mas o provincianismo é geral. Na arte contemporânea pode-se ler o que se quiser sobre feminismo, estudos culturais, crítica institucional mas, na Hora H, acabam por só interessar as relações pessoais, que são usadas para explicar tudo. Daí que a nossa teoria crítica acabe por ser obsessivamente centrada na ideia do artista como um agente individual e idealmente autónomo. Só se consegue conciliar esta premissa base com análises marxistas, por exemplo, usando a teoria como uma espécie de decoração. Invoca-se o marxismo quando se sabe que o artista é político; o feminismo quando é uma mulher; os estudos pós-coloniais quando é africano. O resultado é a adaptação do método crítico ao sujeito a quem é aplicado, o que é um preconceito estúpido para além de uma parvoíce metodológica: em todas estas teorias, a identidade é uma coisa construída ou criticada deliberadamente.

No fundo, o objectivo seria fulanizar o menos possível mas nós gostamos sempre mais do toque pessoal de até conseguir fulanizar a desfulanização.

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A Nostalgia

Os formatos por defeito com que a arte contemporânea portuguesa reagiu à crise foram a retrospectiva e a inventariação temática. Dito de um modo mais simples: andou-se atrás de exemplos e precedentes de acção política. Desenterrou-se de tudo um pouco, o 25 de Abril, o SAAL, a cantiga de intervenção, os Situacionistas, os Anarquistas, etc. Mas pergunto: exemplos e precedentes para quê? Como estratégia aquece o coraçãozinho mas não serviu de nada, e ainda tem como efeito secundário uma desautorização constante de tudo o que se faz ou possa fazer no presente. Foi bonita a festa, pá e etc.

É verdade que, numa época em que se desmantela sistematicamente um modelo de sociedade, é importante preservar mas não se pode confundir folclore com estratégia. Muito do que se fez acabou por se resumir à manifestação política enquanto feira medieval. Seria importante ser um pouco mais crítico e táctico do que isso.

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Revolução, Gentrificação, Whatevs

Deixo-me enganar pelo pacote e fico a pensar que toda esta algazarra sobre o SAAL é essencialmente política quando se encaixa perfeitamente dentro do esquema como as artes têm lidado com a crise por estas bandas. Lá por fora pensa-se, Portugal é um dos países no epicentro da crise, logo as artes lá do sítio devem ser políticas. Por cá percebe-se isso. É uma questão de oferta/procura. E assim faz-se um esforço por tentar vender a mesma coisa do costume, as Joana Vasconcelos da praxe, mas deixando-as marinar desde a véspera numa vinha d’alhos política. Na arquitectura é o mesmo, agarra-se nos Pritzkers, nos Starchitects, e vai-se buscar aquela parte da vida deles quando ainda não tinham juízo. Não admira portanto que quase tudo o que vou vendo e ouvindo sobre o assunto soe a memória descritiva de condomínio, porque o SAAL neste momento e para a maioria das pessoas será como viver dentro de uma T-Shirt do Che Guevara.

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Preguiça Fantasma

A Preguiça Fantasma é como a Dor Fantasma, uma sensação de indolência que se tem por vezes quando um feriado foi amputado. Na véspera, ainda não se sabe bem se é preciso ir trabalhar. Vai-se ao google escrever “Amanhã é feriado?” No próprio dia, pondera-se uma greve de zelo, até se perceber que não somos Passos/Portas/Soares dos Santos/Jonets/etc. e portanto estamos sempre numa greve de zelo. Ou pelo menos essa gente acha que estamos todos numa greve de zelo. Portanto mais vale estar.

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A Discussão do Costume

Daqui a menos de uma semana vou fazer uma conferência sobre aquilo que ainda vou chamando a Cena do Porto, no âmbito do evento Sub 40. Contínua a ser um assunto estimulante talvez por ser também bastante irritante. É inevitável discutir-se o assunto sem grande atenção ao que se passou realmente e que se poderia facilmente comprovar com o mínimo de esforço. Já na altura era assim. Agora é pior, porque já passaram quase dez anos desde essas discussões e continua-se a cair nas mesmas armadilhas.

Um bom exemplo é a crítica à exposição que Celso Martins publicou ontem no Expresso, onde se assumem as coisas do costume:

· Assume-se que a Cena Alternativa era um todo coeso quando nunca o foi. Houve bastantes discussões que levaram a cisões.

· Assume-se que a cena ainda é actuante quando acabou nos termos e condições em que era praticada há dez anos. As mesmas pessoas continuam a ser artistas e a fazer arte mas individualmente ou em pequenos colectivos mas não é, assumidamente, a mesma coisa. Prova disso é o carácter retrospectivo com que essas práticas têm sido recuperadas em várias exposições. De resto, no próprio artigo se enumeram artistas que ganharam visibilidade acentuada quando descolam da “lógica ‘portuense'”.

· Na realidade, esse objectivo, de descolar da lógica “portuense”, era a posição dominante nas discussões da altura e a que acabou por vingar e quem a defendia safou-se muito melhor. Na época, tal como agora (e como Celso Martins lembra), os processos de afirmação já eram “transregionais e supranacionais”.

· A posição oposta (que já na altura era caricaturada como sendo uma defesa dos artista locais apenas por serem locais – a tal lógica portuense) foi a facção que perdeu. O que se defendia era uma política coerente e consequente para a arte no Porto. Nunca se tratou dos artistas portuenses “terem sido esquecidos pelo Museu de Serralves”. Tal nunca aconteceu. Sempre houve muito apoio, diálogo e eventos relacionando o Museu com a cena alternativa. O problema é que era quase tudo mantido a um nível fragmentado, pessoal e informal sem se condensar verdadeiramente numa política coerente, consequente e transparente. Sem isso, os artistas locais acabavam por ser convocados apenas por estarem ali, ou seja por serem locais. O objectivo era outro: questionar as políticas de representação das instituições da arte – o que nem sequer é nada de novo; aconteceu um pouco por todo lado na mesma altura. Tanto quanto sei, só a propósito do Porto é que a coisa é recordada como uma birra provinciana, quando é uma tendência internacional.

· Como já disse aqui várias vezes, quase todos os artistas que atingiram a tal visibilidade acentuada produzem obras centradas no local, na documentação e encenação da precariedade, do património negligenciado, etc. – o que não é surpreendente porque internacionalmente se espera precisamente de um artista vindo de Portugal, um dos epicentros da crise. Arte local, em suma.

· O que se discutia na altura era precisamente a “natureza da mediação política no campo cultural”, um debate inquinado pela ideia, na verdade preconceito, que o artista deve manter uma distância de segurança em relação ao poder político, sob pena “de ficarem identificados com um poder político específico, mas transitório, e de passarem à história como a sua entourage artística oficial.” Ora, não é muito difícil contornar este problema: em vez do poder político comissionar directamente os artistas, pode fazê-lo através da mediação de um comissário. E em relação ao apoio financeiro pode-se fazer algo semelhante, deixando que mecenas privados o façam por ele. Naturalmente, ninguém vê nenhum problema das artes ficarem inteiramente dependentes destes mediadores e destes mecenas. O resultado é uma arte celebrando o dirigismo privado enquanto se queixa do dirigismo público.

 

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A Cultura da Espera

Ouvi na última quinta feira no auditório das Belas Artes a Martha Rosler a falar de política, a propósito da sua obra, e das relações entre a sua encenação e o poder político local, e em geral, de Bush, de Krugman, de Piketty. Abriu a conversa com um cartoon, parte de uma obra apresentada salvo erro em Berlim, satirizando o domínio da Merkel e Sarkozy sobre os Piigs.

Por cá também há arte política embora a “preferível” seja sempre aquela que é elogiada pela crítica como problematizando ou enfrentando “temas políticos sem contudo ser panfletária” – no fundo uma maneira de traduzir o status quo para uma actualidade onde se espera que a arte seja política. Ora, esse status quo tem sido desde há décadas o mais apolítico possível. A arte contemporânea portuguesa não estava nem está minimamente preparada para a crise.

Infelizmente para a maioria deles, a identidade do artista português ocupa agora a mesma zona que os palestinianos, iranianos, sírios, africanos: mesmo que façam macramé ou composições geométricas, assume-se sempre que isso será de alguma forma político, nem que seja uma forma de resistência, de reencenar os problemas internos da arte num território adverso – o que não é a mesma coisa que contribuir para mudar alguma coisa, nem que seja as simples condições da sua prática.

Dito de outro modo, e recuperando uma metáfora de Rosler, a arte contemporânea de topo tende a funcionar como uma máquina de produzir arte, independentemente do seu contexto. Quando muito, pinta-se a engenhoca com um camuflado ou umas cores mais “políticas” se o evento ou o comissário assim o exigirem.

Na prática, é uma arte perfeita para os tempos que vivemos, onde a intervenção política por parte dos cidadãos é residual e derrotada, limitando-se a uma espera tensa pelas próximas eleições. É uma arte que espera que as coisas melhorem, sem fazer nada de substancial por isso.

 

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Demo tapes da crise

Não fui à exposição sobre o SAAL em Serralves. É provável que não vá. Ando desde há muito tempo num boicote suave ao museu. Vou quando é trabalho ou me interessa muito. A mera curiosidade ou o “tens que ir ver” não me comovem. Pelo contrário fui ver a exposição sobre “O Lado B da Escola do Porto” que me pôs a pensar e a discutir e sobre a qual não consigo deixar de pensar. É comum nas discussões que tive o SAAL e o tal lado B serem postos em contraponto. Não sei se é apenas a necessidade de haver sempre uma simetria ou uma dialética onde na realidade há apenas uma sopa.

Em todo o caso, numa dessas conversas falou-se de um conjunto de arquitectos que nos anos 70 não se alinhavam com o discurso dominante das escolas que era maoísta. Essas pessoas eram conservadoras, monárquicas ou até e simplesmente apolíticas e apropriavam-se do discurso politizado, utópico, da época de um modo delirante e subversivo,usando para isso estratégias desenvolvidas pelos situacionistas, alguns dos quais chegaram mesmo a conhecer, tendo vindo ao Porto, etc. É mais um exemplo de como as ideias mudam subtilmente como viajam e acabam por não ter dono nem origem: as mesmas estratégias que servem de rastilho ao Maio de 68 são usadas como uma espécie de contra-revolução em Portugal.

E não surpreende. Desse situacionismo monárquico e conservador pode ver-se como descendente muito directo Miguel Esteves Cardoso. É desta zona que nos chega Portas e parte do poder que nos governa.

Outra parte chega-nos curiosamente do lado do maoísmo que (para mim que não sei muito sobre essas coisas) acaba por ser a gosma primordial  de onde rastejaram o Durão Barroso, o José Manuel Fernandes e a China actual, que nada ironicamente é vista como um modelo de competitividade-barra-capitalismo-orgulhosamente-totalitário por quem nos governa.

Assim, estas exposições acabam por nos trazer ao território onde começaram as nossas aflições actuais e é interessante.

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Reencenar

Uma coisa (entre muitas) que gostei na intervenção de Martha Rosler ontem na Fbaup: a ideia de reutilizar as estratégias antigas mas sempre com atenção ao contexto onde são reencenadas. Talvez seja essa a dimensão de que falta sempre falar a propósito do site specific; também deve ser time specific. As coisas mudam e portanto repetir um objecto ou uma estratégia é sempre distinto e exige sempre um pensamento. Por oposição, ela falava de Ed Ruscha ou Lawrence Weiner que tinham uma espécie de máquina de produzir arte, mais atenta ao seu próprio processo que ao contexto em que é encenado.

Os exemplos que deu foram as suas Garage Sales, gigantescas vendas de objectos em segunda mão organizadas em instituições de arte ao longo de décadas e ilustrando por isso mesmo as mudanças da arte enquanto instituição, de uma cena alternativa, marginal, a um negócio cosmopolita. Falava também das colagens que fez sobre a guerra, em primeiro lugar do Vietnam, agora sobre o Iraque, que ilustravam como o contexto não tinha mudado assim tanto, tirando a própria maneira como as imagens da guerra tinham começado a circular.

Tenho sempre uma admiração por estratégias que põem em curto-circuito a originalidade, a ideia que a qualidade de certas coisas, objectos e estratégias, reside em serem irrepetíveis. Para mim isso só as torna inúteis. Não me interessa a experiência estética como liturgia nostálgica, que no fundo reduz a crítica a sentenciar o modo “correcto” de referenciar.

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Dois anos

A julgar pela timeline do facebook, deve fazer uns dois anos que fui à minha última manif. Nem me lembro exactamente quando foi. Ia para demonstrar a minha discordância com este governo e as suas políticas e como é evidente não serviu de nada. Nem um nem outras mudaram o que quer que fosse – pelo menos para melhor.

Aqui é importante descriminar essa perda de qualidade em duas. Pioraram na medida em que degradaram a vida da grande maioria das pessoas deste país, tirando uma meia dúzia que ganham com a degradação. Pioraram também na própria qualidade com que a desqualificação é feita. Até para a destruição pura e simples seria precisa alguma competência.

Estou como tantos outros: já só saio à rua de braço no ar quando a coisa é comigo e com os meus. E às vezes nem isso. Porque já se percebeu que ninguém se demite deste governo. Alguns até põem o cargo à disposição mas o Primeiro Ministro não deixa. Só mesmo os mais próximos, os amigalhaços, como Macedo ou Relvas conseguem meter uma cunha e sair.

As manifestações eram o “quebrar em caso de emergência” da democracia. E poucas vezes houve tantas e com tanta escala como as que terminaram há dois anos. Não deram em nada e o problema não foi do formato ou da intensidade ou do não haver alternativas mas simplesmente de uma descarada quebra de contrato. É suposto um governo ligar ao que se passa cá fora. Se calhar nem vêem isso como uma quebra. Nunca lhes passou pela cabeça. Só os eleitores ainda assumem que há um contracto. No dia em que partiram o vidro, não havia martelo, machado e o extintor estava seco, vazio.

Fora isso, o que fazer senão esperar? Concentrar as energias em desalojar Seguro parecia mais fácil, já que o Governo está de pedra e cal. Daí a confiança desesperada, crispada, tensa que se tem em Costa. Não acho, por exemplo, que Passos deva contar com a prisão de Sócrates como uma espécie de vitória na corrida eleitoral. Boa parte do centro-esquerda moderado só se irrita ou preocupa com o ex-Primeiro Ministro porque pode estragar a eleição de Costa. Para outros eleitores, nem isso: Sócrates só estorva a possibilidade de desalojar de uma vez por todas Passos e Portas.

 

Filed under: Crítica

Mário Moura

Esta é a minha biografia.

Se a estão a ler para tentarem perceber se "eu sou alguém", se acreditam que só depois de lerem o meu cv é que podem levar-me a sério, concordar ou não comigo, nem vale a pena continuarem a ler. Se vieram aqui por isso, leiam os meus textos: todos os argumentos importantes estão lá.

Dito isto: escrevo sobre design, cultura, política há uns nove anos. Faço-o regularmente aqui. Menos regularmente em jornais (Público, i), revistas e livros. Alguns dos meus textos foram reunidos no livro Design em Tempos de Crise, editado pela Braço de Ferro (está esgotado).

Dou também conferências regularmente. Nas Belas Artes do Porto, nas Belas Artes de Lisboa, na Esad das Caldas da Rainha, na Esad de Matosinhos, na Experimenta Design, no ciclo Ag – Prata, por exemplo. Dei um ciclo de 6 conferências sobre Livros na Culturgest de Lisboa entre 2011 e 2012.

Tenho uma tese de mestrado sobre a estética da programação (já soube fluentemente dezasseis linguagens de programação – Java, C++, Basic, Javascript, ActionScript, Lingo, Starlogo, PostScript, Proce55ing (quando ainda se escrevia assim), etc. Mas é preciso praticá-las, e eu não tenho feito isso; suponho que acabei por enjoar, mas de vez em quando sinto o chamamento; faço o que posso por ignorá-lo).

Fiz uma tese de doutoramento sobre autoria no design.

Já ensinei perto de vinte cadeiras distintas, distribuídas pelas Belas Artes do Porto e Lisboa, e pela Faculdade de Engenharia do Porto: gostei de uma que dei sobre Autoria; gosto de ensinar edição e bookdesign; também gosto de história e crítica. Tipografia e criação de tipos, dou quando tem que ser (não desgosto).

Se alguém quiser uma bio mais resumida, respeitável e copy/pastável:

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.


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