Nos encontros de design a que fui assistindo este ano, começou-me a incomodar o uso constante da expressão “massa crítica”. Aparentemente, significa que já existem suficientes designers em Portugal para qualquer coisa – o que quer que seja – finalmente acontecer. Mas, ao mesmo tempo que se afirma que os números fazem a diferença, dá-se também a entender que só fazem diferença por isso mesmo, por serem números. Confunde-se mera quantidade com opinião e agência.
Dentro da “massa crítica”, não interessa se os designers gostam de ser designers, se são de equipamento, de moda, ou de produto, se preferiam fazer outra coisa qualquer, se são administradores de uma empresa, se ganham cento e cinquenta euros ao mês, se andam de Porsche, se são de esquerda, se são de direita, se são DJs, se são professores, etc. No fundo, quer dizer que ninguém sabe nada sobre os designers portugueses, excepto que são cada vez mais, e que isso talvez faça diferença.
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Julho 17, 2007 • 11:49 am

No começo da década de noventa, quando era aluno dos primeiros anos do curso de design nas Belas Artes do Porto, nunca tinha muito dinheiro, mas preferia saltar uma ou duas refeições em vez de deixar escapar um livro mais tentador. Costumava percorrer as livrarias do Porto à procura de livros usados, sobretudo de banda desenhada e, às vezes, depois das aulas, ia à livraria Diário de Notícias, ao fundo da rua 31 de Janeiro, ver o expositor de fanzines. Pelos padrões actuais, eram objectos toscos, fotocopiados a preto e branco, escritos à mão ou à máquina – em geral, apenas um maço de folhas com dois ou três agrafes de lado. Os mais experimentais eram fotocopiados com tinta azul ou vermelha, sobre papel colorido ou reciclado.
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No centro do palco, iluminado por um foco, Scott Mcloud segura uma placa dizendo “Imagens estáticas justapostas em sequência deliberada”. Anteriormente, já tinha proposto outras definições de Bd, que a audiência tinha considerado inadequadas. Esta era apenas a última versão:
— Que tal está agora?
— Então e as palavras? — pergunta alguém na plateia.
— Oh, não tem que conter palavras para ser uma Bd.
— Não, não. Com essa definição também se pode descrever palavras, não é??
— Hã?
— As letras são imagens estáticas, certo? Quando são compostas numa sequência deliberada, umas a seguir às outras, chamamos-lhes “palavras”.
Scott McLoud, Understanding Comics.
Durante muito tempo considerou-se a Bd como uma literatura para iletrados, um cinema dos pobres, e isto não era apenas a versão popular dos acontecimentos, mas igualmente a posição académica que analisava uma banda-desenhada em termos de escalas de planos como se fosse o storyboard de um filme. No seu livro Understanding Comics, Scott McLoud formalizou uma noção que todos os verdadeiros criadores e apreciadores de Bd já conheciam de forma instintiva: a Bd não é uma mera cópia ou adaptação estática e infantilizada de outra coisa qualquer; ela é interessante precisamente por ser uma sucessão de desenhos e de palavras acompanhados por um leque específico de símbolos gráficos (balões, quadradinhos, legendas, etc).
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