
Tanto o design, como o sexo, como a violência podem ser “gráficos”. Há poucas ocasiões em que os três usos se misturam e os livros de Alfred Bester são uma delas. A sua obra pertence a um género de ficção científica – que fica a dever muito pouco à ciência – chamado space-opera. Nestas histórias, as pessoas teletransportam-se, sofrem mutações sem grandes explicações e os enredos dão mais reviravoltas do que seria possível em escritores mais sérios. Mas aquilo que se perde em coerência é ganho a dobrar em energia, e cada um dos livros de Bester é uma viagem de montanha russa seguida de um murro no estômago.
Ao longo dos anos, a intensidade excêntrica e sexualmente sugestiva de Bester ganharia um estatuto de culto. Em 1974, por exemplo, Malcolm McLaren e Vivienne Westwood fizeram uma T-Shirt que resumia os ódios e os amores do movimento Punk. Tinha duas listas: uma era bastante extensa (adivinhem qual), a outra incluía o Tiger! Tiger! de Bester (apropriadamente considerado um percursor do cyber-punk). Mais tarde, na série Babylon 5, um dos personagens, um polícia telepata, chamar-se-ia Alfred Bester.
Em Tiger! Tiger! (1956), – também conhecido como The Stars My Destination – estamos num futuro em que toda a gente tem o poder do teletransporte, desde que consiga visualizar o local para onde quer “saltar”. As prisões são mantidas às escuras para evitar fugas e os milionários protegem-se atrás de labirintos defensivos; carros, aviões e locomotivas são coleccionados como objectos de luxo. O anti-herói desta história é Gully Foyle, um marinheiro do espaço analfabeto e amorfo, atraiçoado de tal maneira que se transforma num Conde de Monte Cristo futurista, obcecado e totalmente irracional.
No final do livro, Gully Foyle descobre quem o traiu no meio de uma sequência delirante onde começa a ouvir cores e a ver sons, e todas estas sensações sinestéticas são representadas através de arranjos tipográficos que se prolongam por oito páginas – alguém grita “Stop” e o conjunto dos gritos forma o hexágono dum sinal de trânsito; alguém desce umas escadas e vêem-se “Clatters” a ondear pela página.
Num livro anterior, Demolished Man (1951), Bester já tinha usado técnicas semelhantes para descrever uma sociedade policiada por telepatas, onde a publicidade é uma ciência exacta. Os pontos altos da história são uma festa onde a conversa telepática é representada por uma série de arranjos tipográficos (imagem acima) e um crime que é encoberto dos polícias telepatas através de um jingle publicitário viral.
Em geral, estas histórias são arrumadas como uma versão popular das vanguardas mas, durante a década de quarenta, Bester tinha ganho a vida a escrever histórias do Super-Homem para a DC Comics, tendo sido também o inventor da primeira versão do juramento do Lanterna Verde. É portanto mais provável que as onomatopeias da BD de super-heróis tenham tido mais influência nas suas histórias de ficção-científica do que a poesia concreta ou futurista.
A natureza gráfica dos livros de Bester aguenta muito mal a tradução, e as versões portuguesas são bons exemplos disso: Tigre! Tigre! aparece na colecção Argonauta da Livros do Brasil com uma paginação fanhosa e arranjos tipográficos diluídos. A versão da Europa América é a mesma coisa, com a diferença que se chama Estrelas o Meu Destino. Na mesma colecção também aparece Homem Demolido (não confundir com a adaptação do filme de Stallone com um título parecido). Na dúvida, prefiram as edições SF Classics da Viktor Gollancz (embora as capas sejam de fugir). Tive a sorte de encontrar a edição de 1954 cuja capa ilustra este artigo à venda por três euros e meio num alfarrabista do Porto.
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