Fevereiro 29, 2008 • 3:19 am

Os compradores, os vendedores, as administrações, as ruas, as pontes e os edifícios estão sempre a mudar, de tal modo que a coerência das cidades se sobrepõe, de alguma forma, a um fluxo perpétuo de pessoas e estruturas. Tal como a onda estacionária em frente de uma rocha num rio com uma corrente rápida, uma cidade é um padrão no tempo.
John H. Holland, A Ordem Oculta
A minha parte favorita do Sim City é a chegada das pessoas. Depois de escolhido o terreno, traçadas as ruas, instaladas água e luz, só precisamos de ligar uma estrada à cidade mais próxima e as pessoas aparecem, quase demasiado pequenas para serem vistas, quase do tamanho de pixeis, meros pontos coloridos – só então as casas e fábricas se começam a erguer e os carros a passar. Projectamos, assim, uma cidade e ficamos à espera que a vida desça sobre ela vinda de outro lugar, como uma criança que pendura um ninho numa árvore.
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Fevereiro 22, 2008 • 4:28 am

No vocabulário do design português, não há uma tradução exacta para “pitch”, o que não é grave, apenas irónico, tendo em conta que também não há uma tradução exacta para a palavra “design”.
O “pitch” é aquele momento em que o designer apresenta a sua proposta ao cliente. Pode querer dizer “apresentação” ou “proposta”, mas também conota “lance” ou “jogada”; uma tradução – mais honesta do que aproximada – poderia ser “atirar o barro à parede”.
É um dos momentos mais ritualizados e mitificados na vida de um designer; é o momento do tudo ou nada – a negociação dramática onde se concentram todas as capacidades de argumentar um projecto, uma solução. Se a vida dos designers fosse uma série de advogados, o “pitch” seriam as alegações finais; se fosse uma série policial, seria aquele momento em que o detective consegue finalmente resolver o caso; se fosse um Western, seria um duelo ao meio-dia.
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Fevereiro 17, 2008 • 7:46 pm

Segundo um artigo recente no site da AIGA, há boas razões para serem sempre os mesmos designers a aparecer nas revistas, livros ou sites: não se trata apenas da qualidade do seu trabalho ou da contratação de um relações públicas, mas de ter sempre o trabalho preparado para a publicação e de não ter demasiado pudor a promovê-lo.
O artigo dá em seguida uma lista de conselhos pragmáticos, desde como elaborar e manter material de arquivo, memórias descritivas, biografias ou imagens, até como manter boas relações com a imprensa – essencialmente, um manual de boas maneiras, com títulos como “seja um bom contribuidor”, “você não é o art director”, “você também não é o escritor”, “de resto, também não é a sua revista”.
O efeito é irónico: dantes, havia aqueles conselhos que se davam sobre como mandar um trabalho para a gráfica – imagens com boa definição, atenção às cores, etc. Depois, havia aquelas anedotas sobre como lidar com os clientes mais metediços ou ignorantes. Agora, pelos vistos, os designers também precisam de aprender a lidar com a crítica.
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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Ensino, Publicações
Fevereiro 7, 2008 • 8:22 pm

No fim de Abril de 2007, num debate no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, sobre “O que significa ser artista em Portugal?”, a artista Isabel Carvalho acusou o Museu de Serralves de ignorar os artistas do Porto. À primeira vista, a acusação parecia paradoxal, talvez até injusta – afinal, era o próprio Museu que disponibilizava o espaço para aquele debate –, mas, na discussão que se seguiu (e que continuou nos blogues e, mais tarde nos jornais), tornou-se evidente que o que estava em jogo não era a falta de interesse do Museu na cena alternativa, mas o próprio papel do Museu em relação à cidade. Se Serralves não dedicava ao Porto mais do que uma atenção circunstancial, como podia esperar assumir algum protagonismo ali?
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Fevereiro 3, 2008 • 10:08 pm

Thus, and thus only, the whole place had properly to be regarded; it had to be considered not so much as a workshop for artists, but as a frail but finished work of art.
G.K. Chesterton, The Man Who Was Thursday – A Nightmare
No começo do livro “O Homem que Era Quinta-Feira”, G.K. Chesterton descreve uma colónia de artistas londrina do começo do século XX como uma obra de arte acabada e frágil, que nunca produz realmente arte. Mas as aparências enganam, e a comunidade pacata mascara assuntos sérios, neste caso a guerra secreta entre uma conspiração governamental e uma conspiração de anarquistas, que acaba por se revelar finalmente como apenas um jogo de espelhos, sem verdadeiros antagonismos. Da mesma forma, aquilo a que se chama a cena independente do Porto é também uma frágil e acabada obra de arte que esconde alterações profundas no modo de ser dos artistas, quer a nível económico como social.
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Fevereiro 1, 2008 • 1:08 am

Há uns tempos, na secção de design da Fnac, apareceu um livro sobre sinais de trânsito. Tratava-se de Signs: Lettering in the Environment, de Phil Baines e Catherine Dixon, uma edição da Lawrence King com fotografias a cores de sinais de toda a Europa.
Pelo meio apareciam alguns exemplos portugueses e confesso que senti um certo orgulho pátrio ao folheá-lo: havia uma daquelas paragens em cimento pintado de branco com um autocarro preto em baixo-relevo, uma velha placa metálica dos STCP e um magote de setas algarvias indicando ambiguamente ruas, hotéis, monumentos e restaurantes. O preço proibitivo do livro (44 € e trocos) talvez surpreenda um não-designer mas ajudou-me a resistir-lhe — mais tarde, uma das minhas alunas de design sugeriu que seria mais barato comprar um livro de código.
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