The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Letras como Nuvens Carregadas

Como seria de esperar, Fringe, a nova série de J.J. Abrams, o criador de Lost, é uma mistura de policial, ficção científica, teoria de conspiração, com agentes do FBI, um desastre de avião, braços cibernéticos e drogas psicadélicas à mistura, tudo num raio de acção que vai desde Harvard até Bagdad. Mas, mesmo no universo bastante previsível das séries de acção americanas, a avalanche de bizarrias até poderia parecer banal, se Fringe não tivesse também as legendas mais estranhas que vi nos últimos tempos.

Se o genérico é o logótipo de uma série, as legendas são a sua sinalética – dizem-nos a data e o sítio, quem são as pessoas que vemos e, às vezes, mais raramente, comentam a acção. Graças a elas, um baldio qualquer passa a ser uma localização exótica, por vezes bem longe do planeta Terra. Em geral, as legendas são discretas, com design que chegue para dar o tom, mas, mesmo assim, conseguem ser essenciais à identidade gráfica de uma série – o que seria de Without a Trace sem a legenda a lembrar há quanto tempo desapareceu a vítima; de 24 sem o relógio digital a marcar os segundos do dia; de X-Files sem a sua tipografia matraqueada de máquina de escrever?

À primeira vista, também não se repara nas legendas de Fringe. A acção muda para um exterior e, lentamente, reparamos que, no meio dos ramos de uma floresta, paira uma fieira de letras; a câmara avança pelos corredores de um edifício entrando pelo olho de um “O”; uma esquadrilha de helicópteros sobrevoa uma cidade do médio oriente e, ao longe, pousadas sobre as casas, letras do tamanho de fortalezas dizem-nos que estamos em “Baghdad, Iraq”. A câmara muda de ângulo, filmando os helicópteros a partir do chão, com soldados em primeiro plano. Mais atrás, recortado contra o céu, um pedaço quase abstracto do “Q”.

O efeito é paradoxal e levemente perturbador: pela maneira como assumem as cores, formas e texturas do que as rodeia – enfim, por se integrarem tão bem –, as legendas ficam ainda mais estranhas. É preciso olhar duas vezes para elas para perceber o que se está a passar, e a montagem reforça a ambiguidade, tratando a tipografia como se fosse um objecto concreto, que faz parte do cenário.

O efeito lembra alguns quadros de Magritte, e é semelhante ao do genérico de Panic Room, da Imaginary Forces, onde letras pairavam pesadamente por entre os prédios de uma grande cidade, mas em Fringe, como as frases aparecem a cada mudança de cena, e não apenas no começo do filme, acabam por ir compondo, por acumulação, uma atmosfera conspiratória.

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Tipografia, , ,

3 Responses

  1. Wilfrid Sá diz:

    Estava a espera deste post…Uma tal delícia visual em séries de grande orçamento não poderia passar despercebida muito tempo aos olhos da crítica. Este foi um episódio piloto, esperamos que a série (só em Setembro) continua com boas surpresas deste género.

  2. [...] na imagem de maneira a parecer que fazem parte da cena. É um efeito semelhante ao usado na série Fringe, embora em Quantum of Solace, o lettering seja mais variado, adaptando-se ao lugar onde a acção [...]

  3. francisco diz:

    como ou qual programa , eu poderia utilizar , para conseguir inserir este tipo de texto ( efeito) em meus videos caseiros ?

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