The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Casa da Música e o seu Design

Outro dia, alguém me dizia que só se lembrava do trabalho mais pessoal de Stefan Sagmeister – uma mistura fina de raminhos, salsichas, fluidos corporais e aforismos –, mas não se recordava dos seus logótipos, papéis de cartas, relatórios de contas ou mesmo clientes. Para esse meu amigo, como para muita gente, parecia estranho que o trabalho mais conhecido de um designer internacionalmente famoso acabasse por ser auto-promocional – como podia Sagmeister ser um bom designer se o seu melhor cliente acabava por ser ele mesmo?

Chamei-lhe a atenção para a Casa da Música, um trabalho clássico de identidade gráfica, com aplicações e tudo o mais. A nível internacional já tinha sido considerado um dos exemplos do ano. “Ah! Pois…”, respondeu, “Não me tinha lembrado disso.”

Mesmo para alguém do Porto como esse meu amigo, o lapso era, até certo ponto, compreensível. Para muita gente, a nova imagem da Casa da Música tinha sido uma desilusão. As razões para tal eram muitas. Por um lado, não se parecia com o trabalho habitual de Sagmeister; era demasiado limpa e digital para isso. Por outro, tinha sido a primeira vez que a concepção de uma identidade gráfica tinha sido tão mediatizada em Portugal; depois de ter sido promovida durante vários meses, o potencial para a desilusão era grande.

Havia também problemas de outra ordem. A Casa da Música tinha sido desde o seu começo alvo de polémicas administrativas e jogadas politicas. Toda a controvérsia se tinha reflectido na gestão da sua imagem gráfica e, antes de Sagmeister, já tinha havido pelo menos três logótipos diferentes e, em certas alturas, a produção gráfica esteve dispersa por vários ateliers de design ao mesmo tempo, sem nenhuma coordenação aparente – um fazia os cartazes, outro fazia as folhas de sala, ainda outro, os programas, e por aí adiante. Houve ocasiões em que dava a sensação que qualquer pessoa que entrasse na Casa da Música com um Macintosh debaixo do braço tinha boas probabilidades de conseguir tomar conta da sua identidade gráfica.

Sagmeister veio, até certo ponto, resolver alguns destes problemas. A contratação de um designer de renome internacional fez tábua rasa de toda a confusão, mas também gerou alguma má vontade por parte dos ateliers nacionais que tinham sido excluídos do processo e isso, por sua vez, também gerou muita da má língua em torno da nova imagem. Por outro lado, a imagem concebida por Sagmeister parecia relativamente pouco versátil, em particular a fonte mono-espaçada, concebida pelo atelier Norm, mas isso não seria, à partida, um problema. Serralves também tem uma imagem relativamente elementar, que não permite grandes voos mas que, por isso mesmo, é praticamente invulnerável à inépcia. Foi concebida para resistir à burocracia, indefinição e conservadorismo naturais de uma instituição cultural de grandes dimensões. Só muito raramente é usada de forma brilhante ou mesmo tipograficamente correcta, mas mesmo assim mantém sempre um mínimo de dignidade.

No fim de contas, o sucesso da nova imagem iria depender da sua aplicação. Essa tarefa coube aos designers André Cruz e Sara Westermann, que conceberam boa parte da produção gráfica da Casa da Música no último ano e meio. Os resultados têm sido de maneira geral competentes, uns mais que outros, em especial as soluções mais tipográficas, mas dá quase sempre a sensação que falta qualquer coisa. Poder-se-ia atribuir essa ausência às atribulações que qualquer trabalho de design sofre numa grande instituição e que acabam quase sempre por o diluir, mas parece-me que a dificuldade não é apenas essa. Também não me parece que o problema sejam os designers.

André Cruz, por exemplo, já trabalhou com João faria e na Experimenta Design e é um designer de pleno direito, com trabalho bastante interessante. O seu estilo é bastante próximo do de Faria – poderíamos falar de um estilo do Porto, ou pelo menos de Matosinhos – e parece-me que é aí que está a questão. A identidade definida por Sagmeister é, essencialmente, um sistema neo-suíço: uma grelha implícita muito forte acentuada por uma fonte mono-espaçada. A Escola do Porto, a que Faria e Cruz pertencem, é muito mais táctil, expressiva e directa: tanto a tipografia como a imagem são tratadas como um único objecto físico que se desfaz no centro da composição. Sintetizar as duas abordagens é uma tarefa quase impossível – uma, a do Porto, ganha a sua expressividade destruindo a outra.

Uma das lições que se pode tirar da Casa da Música é inesperada: existe pelo menos um estilo de design em Portugal e isso não se torna visível pelas vantagens que traz, mas por aquilo que não deixa fazer.

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Filed under: Cartaz, Crítica, Cultura, Design, Logos, , , , , ,

19 Responses

  1. Kordump diz:

    Concordo até certo ponto.

    “Concordo” porque realmente a montanha pariu um rato no que toca à linha gráfica criada pelo intocável e “até certo ponto” porque não conheço quem tomou as rédeas da comunicação da maison e estou mais à vontade para dizer que a aplicação corriqueira da dita está demasiadas vezes muito longe de passar a barreira do estritamente “competente”. Já vi demasiados exemplos daquilo que identifiquei como falta de jogo de cintura na aplicação da linha, reflectido – por exemplo – na linearidade pouco imaginativa do uso do edifício.

    Nunca tinha é reparado que a fonte é monoespaçada…

  2. João Martino diz:

    Desculpa Mário,
    Mas acho que nas tuas conclusões podias considerar o seguinte:
    Tens duas das maiores instituições culturais do Porto em “confronto de identidade”: uma que seguiu a “escola do Porto” e outra que seguiu o tal “sistema neo-suíço”.

    A imagem que o Faria tem vindo a criar para o S. João, prova ser tão ou mais visível que a da casa da música, bastante mais flexível, incrivelmente mais imaginativa e com uma longevidade incomparável – se isso não são vantagens…

    abraço
    JM

  3. Não me parece que a questão seja apenas dizer que um é melhor que o outro. O estilo do Porto, por exemplo, é bastante expressivo, mas não “exporta” bem – um designer que tenha sido treinado para o usar terá dificuldade em produzir um manual de identidade para ser aplicado por terceiros, mantendo ao mesmo tempo as características do seu estilo, que dependem mais de improvisição do que da obediência a um sistema.

    Curiosamente, isto também pode explicar a estranheza da identidade da Casa da Música dentro da obra de Sagmeister. Sagmeister é um designer conhecido pela sua expressividade, estilo orgânico, imporovisação, etc., – características próximas da escola do Porto – mas quando produz uma identidade para ser usada por outros designers, precisa de um sistema robusto e, nesse aspecto, o Estilo Suíço e os seus derivados funcionam muito bem.

    A Casa da Música parece-me um caso interessante porque ilustra bastante bem um embate entre dois estilos antagónicos de design.

    Abraço,

    Mário Moura

  4. João Lima diz:

    Mas o André Cruz e a Sara Westermann ainda trabalham para a Casa da Música? É que desde à algum tempo que tenho visto que os flyers da programação da Casa da Música são assinados pelo atelier RMAC…

    http://www.meiosepublicidade.pt/2007/10/08/rmac-comunica-programacao-da-casa-da-musica/

    Abraço

  5. Penso que ainda trabalham, mas entretanto também apareceram trabalhos pontuais feitos por outros ateliers.

    É comum uma instituição cultural ter uma firma de design em avença ou um conjunto de designers trabalhando internamente que faz o “expediente”, cartazes, convites, folhas de sala, contratando pontualmente outras firmas para fazer trabalhos mais específicos como catálogos, por exemplo.

    Ao contrário do que é habitual, a Casa da Música nos seus primeiros anos teve a sua imagem dividida por um conjunto de designers distintos. Actualmente, a imagem de Sagmeister dá alguma unidade aos diferentes projectos mas de facto, quando vi o primeiro programa feito pela RMAC, lembro-me de ter pensado que a Casa da Música podia estar a regressar ao seu velho hábito de “subempreitar” trabalho que tinha gerado tanta confusão gráfica na era pré-Sagmeister.

  6. André Cruz diz:

    Penso que há uma questão de fundo à volta da imagem da Casa da Música que tem a ver com a aceitação/adaptação que existe (existiu) ao sistema criado pelo Sagmeister dentro da própria instutuição. Considero extremamente inteligente a abordagem feita pelo austríaco. E também percebo as más línguas geradas à volta da sua contratação e consequente apresentação do resultado. Lembro-me de, na altura, ficar maravilhado com os rumores que existiam sobre os valores astronómicos que supostamente o Sagmeister tinha recebido (talvez o Stefan fique de boca aberta se conhecer alguns valores cobrados por muitas agências/designers portugueses sobre trabalhos idênticos principalmente no sul do país).

    O Mário Moura tem razão quando fala num “embate entre dois estilos antagónicos”. E a prova disso talvez seja quando indica como melhores resultados, “as soluções mais tipográficas”. Curiosamente, talvez sejam estas soluções as que mais fogem ao sistema criado pelo Sagmeister. Mas penso que a questão do sucesso/insucesso da imagem da Casa da Música tem também a ver com os actuais modelos de gestão das entidades culturais. No caso concreto da CdM, o design é importante, mas não é o mesmo design de que estamos todos para aqui a falar, não é o design do Sagmeister e não é o design que eu gostaria que fosse.

    Concordo com o último parágrafo do texto do Mário, mas penso que se estivéssemos em Espanha ou na Finlândia, tínhamos o mesmo problema, e não me parece que seja problema… Ok, talvez para mim seja.

  7. ana rainha diz:

    Mesmo como mero exercício intelectual parece-me que continuar a pensar em dualidades, opostos e relações binárias, se tornou há muito bastante improdutivo.
    Aprecio, e julgo fazer sentido, a “relação” que se tem desenvolvido entre o Porto e Nova Iorque – ou Matosinhos e a Áustria –, em detrimento da substância, a situação em detrimento da essência.
    A aplicação deste tactear pode por vezes evidenciar isso mesmo, que se trata de um diálogo que, parece-me, mesmo tratando-se de uma instituição, não tem que fundar, alicerçar um estilo.
    Na imagem da Casa da Música não percebo um diferendo de estilos, nem uma qualquer demissão da figura do designer ou do(s) designer(s), muito menos uma falácia da absolutização do espectador. Encontro quase sempre a criação de “espaço de influência” que, mesmo frágil, julgo tem afectado e alargado o imagináro da cidade.
    Quanto ao facto de o design em Portugal poder ser entendido como uma potência do não, não deixa de ser muito apreciável.

    Cumprimentos.

  8. Numa área como o design, que tem a tendência a enunciar toda a sua identidade em termos de dualidades, opostos e relações binárias – como forma e função, forma e conteúdo ou designer e cliente, entre muitas outras possíveis –, em geral compensa, como ponto de partida para o exercício crítico, partir do princípio que a maioria dos discursos em torno dele se organizam dessa maneira, nem que seja para deconstruir essas oposições.

    A imagem da Casa da Música tem sido bastante polémica e seria difícil compreender isso sem pressupor algum tipo de oposição ou antagonismo, mais do que um equílibrio ou diálogo. Tal como disse no post, essa controvérsia acontece a um conjunto de níveis – político, institucional, local, internacional – que incluem e influenciam as estratégias formais do próprio design gráfico.

    Cumprimentos

  9. [...] O futuro da animação de personagens digitais. Ainda há alguma polémica em volta dos métodos de captura de movimentos e de animação de movimentos para a animação, mas a verdade é que (mesmo em quelidade YouTube) esta personagem tem das melhores animações faciais que já vi! Quem me dera que tivéssem utiizado esta técnica no Final Fantasy…Visto nas Coisas Avulsas do Ressabiator; [...]

  10. É impressão minha, ou o Pemado faz aqui publicidade ao seu site, tentando-se aproveitar da maior popularidade do ressabiator?
    Isto não me parece muito bem, mas que ele tenta tudo para ter alguma exposição, lá isso tenta.

  11. Não se trata de publicidade, nem foi enviado pelo Pedro Amado. Trata-se de um pingback que o wordpress faz automaticamente sempre que um post aparece referenciado em outro blogue do wordpress.

  12. pedro diz:

    Não acho o trabalho/”ideia” de sagmeister para a casa da música desinteressante pelo menos conseguiu criar essa homogeneidade gráfica que é necessária para se manter uma identidade minimamente sólida. Existem problemas em termos de aplicações, que ao longo do tempo acabaram por estagnar, uma evolução que nada traz de novo, apenas dizemos “mais um cartaz da CdM”. Não sei se será ainda o “fantasma” do Sagmeister a pairar sobre a cabeça dos designers da CdM que não os deixa fugir muito da ideia principal, ou se será dos demasiados “tachos” que reflectem a evolução de todo esse trabalho.

  13. [...] por mais de uma vez referi a história conturbada do design da Casa da Música. Porém, nos últimos tempos [...]

  14. nome diz:

    é porque está na moda!

  15. R diz:

    Presunção e água benta cada qual toma a que quer.

    Em primeiro lugar não reconheço, nem existe unanimidade, em se atribuir o título “escola do Porto” no que concerne ao design (gráfico) do João Faria, e é presunçosa a adaptação do título honorífico comparando-o a Siza Vieira e ao seu estilo arquitectónico. O trabalho do João Faria, do André Cruz e da R2, por exemplo, é geralmente muito bom e do mesmo modo discutível, mas a qualidade do mesmo não implica a aplicação de um estilo próprio até porque encontramos diversos exemplos prévios do estilo por todo o Mundo. Estará esse “estilo do Porto” tão enraízado nas entranhas da história da cidade, como o neo-suiço para a Suíça?

    Em segundo lugar, Sagmeister é uma referência indiscutível mundialmente, e por isso mesmo é natural que o seu fantasma iniba até certo ponto o trabalho dos designers da casa. Como eles sabem o que importa não será tanto o estilo criado por Sagmeister para a CdM, mas sim o conceito gerador da marca. É compreensível e necessário tempo para que o equilíbrio entre as duas (ou mais) linguagens, e o design das entidades gestoras da Casa da Música se dê. Quando esse equilíbrio se der, seja ele bom ou mau, certamente estará consagrado pelo Tempo. E a geração futura de designers de renome (ou não) que vierem renovar o então estilo gráfico da Casa da Música será certamente mais criticada que o trabalho embrionário que anda a ser feito.

    • Presunção ou água benta também para si, meu caro.

      Não tenho por hábito responder a comentários em posts tão antigos como este, mas, tendo em conta que me escreve de uma maneira tão simpática, vou abrir uma excepção.

      Em primeiro lugar, “Escola do Porto” é uma designação tão arbitrária como outra qualquer, não o chamei assim por referência ao Siza. Poderia chamar-lhe “Estilo do Porto”, “Estilo Faria”, “neo-deconstrutivismo não-punk independente” ou outra coisa qualquer, e tenho a certeza que se continuaria a tirar disso conclusões despropositadas. Já agora, uma das designações do Estilo Suíço original era Estilo Internacional Tipográfico, uma referência ao Estilo Internacional, vindo da arquitectura.

      Você diz que “a qualidade [não] implica a aplicação de um estilo próprio até porque encontramos diversos exemplos prévios do estilo por todo o Mundo.” A originalidade não é tão importante para definir um estilo como a coerência e o contexto. Muitos estilos são versões e apropriações de outros. A expressão neo-suíço é uma boa pista.

      Quanto a este estilo estar tão “enraizado nas entranhas da história da cidade, como o neo-suiço para a Suíça”, se ler o texto com atenção, em particular a última frase, verá que a minha resposta já era não na altura em que o escrevi.

      Quanto ao seu segundo ponto, que diz essencialmente que se este trabalho agora é fraco, no futuro pode (ou não) melhorar, é uma afirmação óbvia, com a qual seria difícil discordar, mas que não põe em causa nada do que escrevi.

      Já agora, talvez fosse interessante ler este texto (link).

  16. R diz:

    Perdoe-me Mário se ofendi, a ideia não é por em causa o que escreve, até porque não me iria dar a esse trabalho, mas sim acrescentar algum ponto de vista assim que necessário ou pertinente.

    Contudo não me parece de todo semelhante a designação “Estilo Faria” ou “Estilo do Porto”, como refere, e tenho a certeza que sabe e concorda com isso. Adiante.

    Não vou discutir ponto a ponto, mas acho que percebeu mal a conclusão:
    Não arbitro sobre a qualidade do trabalho, mas sim sobre o tempo necessário até se estabelecer um estilo próprio (o que é sempre bem mais complexo em equipa), e refiro também a consagração que o tempo atribui a qualquer trabalho (independentemente da qualidade do mesmo). O ponto mais importante será, talvez, quando refiro que de futuro qualquer alteração a esse estilo (seja ele bom ou mau) vai ser duramente criticada – mais do que o trabalho da Casa está a ser no momento. Reflecte a resistência à mudança por parte do público.

    Vou aceitar a sugestão e vou ler esse texto.

    Até já.

    • Se não deseja ofender, sugiro que comece os seus comentários de uma maneira menos ofensiva. A ver por este último, verifico que não tem esse hábito.

      “tenho a certeza que sabe e concorda com isso”: o facto de ter escrito no meu comentário anterior que o nome do estilo que proponho é arbitrário, deveria ser um forte indício de que discordo.

      Também deveria ser evidente que o critério que estabeleci neste texto para a existência de um estilo não é a qualidade do trabalho, tendo em conta que dou como exemplo um trabalho que falha precisamente por causa do estilo.

      O ponto importante que propõe mais uma vez não acrescenta grande coisa.

  17. [...] entanto, após a implementação da imagem, e como muito bem refere Mario Moura no seu Ressabiator: “para muita gente, a nova imagem da Casa da Música tinha sido uma desilusão. As razões para [...]

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