The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Grandes Esperanças

Nos tempos que correm, com a crise dos mercados financeiros, multiplicam-se as interrogações. Num artigo no The Guardian, Sarah Thornton pergunta quais serão os efeitos disto tudo sobre as artes, mas nem ela, nem os artistas que entrevista têm respostas, embora todos reconheçam o protagonismo do dinheiro na arte contemporânea – um deles, Gavin Turk, ironiza até: “Se for grátis, será que ainda é arte?”

Cada sociedade tem as suas maneiras de celebrar o poder, de o monumentalizar. Na nossa, o poder tem sido o Mercado, colocado acima do Estado, da Politica, da própria Sociedade. O mundo da arte foi-se reinventando à sua imagem, tornando-se num duplicado triunfalista do Mercado neo-liberal, da sua ideologia, da sua ética, da sua expansão permanente.

Agora, o Mercado vacila e o mundo da arte antecipa o choque. Mas as suas dúvidas não são só económicas. Os críticos interrogam-se sobre que arte surgirá da crise: haverá agora um novo Punk? Um novo Steinbeck? Uma nova Dorothea Lange? A coisa tem toda uma trepidação nostálgica pelos tempos em que a arte ainda não tinha uma etiqueta de preço tão nítida. Talvez o dilúvio a restitua à sua pureza original, mas é pouco provável.

No design, as inquietações são semelhantes, ainda que a situação seja mais turva. Embora o design seja uma actividade assumidamente comercial, nos últimos tempos a politica tem andado na ordem do dia, o que pode dar a entender que está mais preparado para a crise do que a arte.

Mais uma vez, isso é pouco provável: muitas das intenções políticas do design não passam de instâncias de filantro-capitalismo, a aplicação da lógica de mercado à resolução de problemas sociais, políticos e humanitários. Assim, é bastante possível que o dinheiro (público e privado) que sustentava os projectos políticos do design desapareça – o que até pode ser uma boa notícia porque, num momento em que se espera que o Estado assuma um papel maior na economia e na sociedade, o design, com todas as suas conotações empresariais, será visto na melhor das hipóteses como uma futilidade, na pior como um símbolo do mercado.

No entanto, já houve alturas em que o design foi usado como um símbolo do papel do Estado na luta contra crises económicas. Depois da Grande Depressão de 1929, foi criado nos Estados Unidos, o WPA (Works Progress admnistration) como parte do New Deal do presidente Roosevelt. O WPA empregou milhares de trabalhadores vítimas da depressão em grandes projectos públicos, estradas, tribunais, barragens, mas também espectáculos de teatro, exposições, cartazes e campanhas de sensibilização. Embora tenha salvo muita gente da miséria, ainda hoje é visto nos Estados Unidos como um programa quase comunista de intervenção estatal.

Curiosamente, a campanha presidencial de Barack Obama apoia-se sobre uma série de referências visuais que a aproximam muito ao design da época da Grande Depressão e, em particular, dos trabalhos da WPA. Não são referências directas, apenas detalhes, como os retratos “heróicos” de queixo levantado e olhos no horizonte, feitos em tons planos e cores suaves, ou a fonte Gotham, associada à WPA pelo seu próprio designer, Tobias Frere-Jones.

O design tem os seus próprios ciclos formais que acompanham em parte os ciclos políticos. Depois do optimismo electrónico e bitmap da era Clinton (John Maeda, por exemplo), veio o tradicionalismo conservador da era Bush, durante o qual até as coisas mais experimentais se tornaram nostálgicas (como a McSweeney’s ou a Believer). Agora, num bom efeito de transição, a campanha de Obama lembra-nos uma altura em que se venceu uma outra crise, também através do design.

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