
O que faz de alguém um designer gráfico? Muita gente acredita que um curso universitário é o requisito mínimo; outros acham que basta saber os básicos, aprendendo, por iniciativa própria ou por necessidade, aquilo que um curso ensina.
Mas o que são exactamente esses básicos? Tipografia? Ilustração? Ou talvez tecnologias específicas, como o Photoshop, o InDesign ou o Illustrator? Há quem acrescente a História à lista; outros acrescentariam a economia ou a contabilidade.
De qualquer das formas, os básicos, como o nome indica, não correspondem a tudo o que um designer pode saber, mas ao mínimo que precisa de saber.
Mas o mínimo que precisa saber para quê? Calculo que a maioria das pessoas dirá: para ter um emprego. No entanto, ao ler um anúncio típico, dirigido a recém-licenciados em design, percebe-se facilmente que para ter um emprego não é preciso saber grande coisa, antes pelo contrário; só é preciso a estar disposto a trabalhar durante muito tempo sem a expectativa de um salário, e isso é o que qualquer aluno já faz.
Há uns tempos, escrevi que o grande problema das universidades era levarem demasiado a sério as necessidades do mercado de trabalho, e que a sua função não deveria ser formar estagiários. No entanto, a tendência actual do ensino é fazer, o mais cegamente possível, as vontades do mercado de trabalho – é comum até ouvir-se dizer que há cursos a mais, e que se deveria reduzir o número de cursos às necessidades reais do mercado.
No caso do design, uma afirmação destas pode dar a entender que há demasiado design em Portugal. Mas mesmo alguém cuja profissão é demonstrar publicamente uma indiferença estratégica ao próprio tecido da realidade – como é o caso de um ministro – terá de reconhecer que, se Portugal sofre de um monte de coisas, não será certamente de excesso de design. Estamos portanto numa situação peculiar em que há milhares de designers, mas muito pouco design.
Porém, o problema não é tanto o excesso de designers mas a crença de que o papel das universidades é formar o estagiário perfeito. Há, assim, um excesso de estagiários que, ao longo da sua carreira, mantêm a mentalidade de estagiários, formando, sempre que possível, mais estagiários.
A alternativa seria, como é evidente, formar designers mais bem formados, uma ideia que surge bem explícita num artigo-entrevista de Frederico Duarte a Aurelindo Ceia:
o ensino (superior), em vez de preparar apenas artífices técnicos para um “mercado”, deve antes de tudo formar cidadãos exemplares. “A universidade é uma crítica, uma inquietação e uma experimentação permanentes e daí sairá, quando sair, o que for bom, útil e necessário para a sociedade. O mercado de trabalho que vá lá procurar.”
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http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&client=firefox-a&rls=org.mozilla%3Aen-US%3Aofficial&hs=IS8&q=free+design+courses&btnG=Pesquisar&meta=
E por falar em ministros e em milhares de designers e pouco design, ou antes pelo contrário, vale a pena ver este muito interessante filme japonês com que acabei agora mesmo de me deparar — http://www.youtube.com/watch?v=ok3ykR2GHCc
Isto para dizer que, em parte, a responsabilidade também cabe aos ministros e ministérios, pois deviam saber identificar/escolher/ponderar/confiar bons profissionais para realizarem bons trabalhos. De cima era suposto virem bons exemplos {em teoria}. Mas ainda há pouco, na TSF, ouvi um anúncio do IAPMEI {ou coisa que o valha} com a Kim Carnes a cantar “Bette Davis Eyes” em pano de fundo… Assim não vamos lá.
E também me parece óbvio que, como diz Aurelindo Ceia, acima de tudo formar cidadãos exemplares. Para mim, um tipo até pode ser um designer do caraças, todo pintarolas, ou não, ipod, iaudi e icigarrilhas, mas se é um tipo que não paga impostos, passa sinais vermelhos e trata a mulher abaixo de cão… bom que se lixe o design.
Mais um grande assunto para dissertar. Boa Mário.
Sendo eu licenciado, ou algo parecido com um bacharelato mascarado de licenciatura de Bolonha, sou uma prova viva do que é actualmente um curso de design.
Reparem no meu programa curricular no 1ºano:
Matemática(trigonometria), Computadores e Periféricos(fazer estudos e “redações” sobre impressoras), Introdução à Informática(onde se aprendia o modo como uma máquina de café pública funcionava=algoritmos).
É de loucos. No secundário eu valia zero a matemática e na faculdade tive 15. Estão a ver o nível!!
O mal de tudo isto é que apenas no terceiro ano é que tive Tipografia. Sem dúvida a melhor disciplina que tive no conjunto do curso.
Agora pergunto, como pode uma escola ou o ministério formar um designer culto, capaz, visionário e com grande poder de argumentação? É muito dificil. As contradições são enormes e fazem com que 90% da minha turma esteja a esta hora a ver TV ou então a passar o dia nos sites de oferta de emprego.
Sim, muitos estão a pagar pelas férias que andaram a passar durante três anos, mas há sempre quem mereça algo mais.
Recorrendo ao tema lançado pelo Mário, “O negócio perfeito”, entende-se de certo modo as imensas reticências que os ateliers têm em colocar pessoal. Jamais defenderei a exploração de quem quer que seja, mas percebe-se que no meio disto tudo quem se lixa, grande tradição portuguesa, é sempre o mexilhão/estudantada.
A escola trata os estudantes como mercadoria. No fim do curso uns são postos á venda e entram na casa dos consumidores, outros são mandados para o porão…
Grande tema Mário. Keep Going!
Matemática?! Beeeem, isso ainda é pior que 2 anos de Geometria na FBAUL (só no 4º ano acabei a primeira geometria LOL).
Para mim pessoalmente aquilo que mais valeu a pena nos meus 5 anos de formação foi História da Arte, com a específica de Portuguesa no 4º ano, Estéticas, Forma Visual mas foram todas cadeiras mais direccionadas para a arte.
O que no entanto não me preparou nada mal e apesar de não saber tantos nomes do design moderno como gostaria, tenho um grande background do pré-design e da evolução da disciplina. Acho que um dos principais problemas do design moderno é raramente olhar para trás e aprender com o passado, principalmente em Portugal. Não consigo meter na minha cabeça que vou ter de ir refundir arquivos da Gulbenkian para estudar a obra do Sebastião Rodrigues, principalmente as investigações que ele fez da arte popular nacional…
Desculpem, não ter lido os comentários anteriores, vou deixar isso para a próxima visita, a mim só me ocorre dizer que trabalho numa empresa que tem seis designers e hoje 3 foram dispensados, acho que isto quer dizer alguma coisa, qual foi a minha salvação, TENHO UMA FILHA!!!! os dispensados não têm filhos, por isso menos responsabilidades, por isso façam filhos deixam de ser estagiários de um dia para o outro.
Abraço