The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Sabor a Ciência

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Relendo o texto que escrevi na semana passada sobre a aplicação de modelos científicos à investigação nas artes, apercebi-me que ele poderia ser mal interpretado. A dado passo dizia que muitos papers pouco mais eram do que artigos de opinião convencidos do seu carácter de verdade científica inabalável simplesmente porque foram avaliados por um júri. Lendo isto pode-se ficar a pensar que eu defendo que a opinião deveria ser erradicada dos papers, substituída por métodos estritamente rigorosos, quando o que eu sublinho é a impossibilidade de erradicar a opinião da reflexão sobre áreas culturais.

Não é possível determinar o valor estético de um objecto apenas através de métodos quantitativos simplesmente porque a própria ideia de estética implica o gosto enquanto discussão pública. acreditar que o gosto pode ser determinado apenas através de métodos científicos importados das ciências exactas é, em si mesmo, uma opinião, que assenta unicamente na autoridade da ciência para se justificar. Por outras palavras, não se trata de criticar uma opinião apenas porque é uma opinião, mas porque acredita que é mais do que uma opinião apenas porque é legitimada num contexto científico.

Em ciência, a dúvida é sistemática e portanto não há certezas absolutas. Qualquer teoria, por mais inabalável que possa parecer, pode ser descartada se aparecer entretanto outra melhor. Talvez seja um paradoxo, mas tentar alcançar a verdade implica sempre uma dúvida sobre o nosso conhecimento actual. Precisamente por esta razão, um trabalho científico deve ser testado por mais do que uma equipa, alcançado maior validade através da repetição dos seus resultados. No caso da investigação em artes é costume ver-se precisamente o oposto, e um paper ser avaliado apenas pela originalidade do seu tema, por mais específico que seja, levando a que um investigador seja desencorajado a trabalhar sobre um determinado assunto apenas porque outra pessoa já o fez.

Na arte, como em larga medida acontece nas ciências humanas, o objectivo é produzir ferramentas argumentativas que sustentem uma discussão pública sobre um determinado assunto. Acreditar que uma afirmação é indiscutível pelo simples facto que foi aprovada por processos científicos é, em si mesmo anti-científico. Equivale a acreditar que para ser cientista basta vestir uma bata e pôr uma régua de cálculo no bolso.

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Filed under: Arte, Crítica, Cultura, Design, Ensino

2 Responses

  1. [...] claro que, se a economia não é uma ciência exacta, o que dizer das artes e do design? [...]

  2. [...] uma espécie de continuação aqui. Share this:FacebookTwitterGostar disto:GostoBe the first to like [...]

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