Nas últimas duas páginas das revistas de super-heróis Marvel brasileiras do começo da década de oitenta vinha um dicionário coleccionável, uma pequena enciclopédia organizada por herói, vilão, grupo, associação ou espécie, com alguns planetas ou países ficcionais pelo meio. No rol vinha um vilão que assumia o nome bastante descritivo de Camaleão, um dos primeiros que o Homem Aranha enfrentou no começo da sua carreira, pouco antes do meio dos anos sessenta. Não tinha super-poderes, mas era um mestre do disfarce que simulava num instante qualquer identidade, podendo mesmo – segundo informa o dicionário; eu nunca li essa história – enganar ao mesmo tempo mais do que um observador, assumindo perante cada um uma identidade distinta.
O discurso da austeridade tem uma capacidade semelhante para significar coisas distintas a ouvintes distintos, sem mudar uma vírgula. É uma boa característica dentro da comunicação pública contemporânea, habitualmente limitada a intervenções curtas, sem grandes oportunidades para argumentação complexa, e que justifica muito provavelmente o seu êxito.
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