The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Austeridade e Demagogia

Nas últimas duas páginas das revistas de super-heróis Marvel brasileiras do começo da década de oitenta vinha um dicionário coleccionável, uma pequena enciclopédia organizada por herói, vilão, grupo, associação ou espécie, com alguns planetas ou países ficcionais pelo meio. No rol vinha um vilão que assumia o nome bastante descritivo de Camaleão, um dos primeiros que o Homem Aranha enfrentou no começo da sua carreira, pouco antes do meio dos anos sessenta. Não tinha super-poderes, mas era um mestre do disfarce que simulava num instante qualquer identidade, podendo mesmo – segundo informa o dicionário; eu nunca li essa história – enganar ao mesmo tempo mais do que um observador, assumindo perante cada um uma identidade distinta.

O discurso da austeridade tem uma capacidade semelhante para significar coisas distintas a ouvintes distintos, sem mudar uma vírgula. É uma boa característica dentro da comunicação pública contemporânea, habitualmente limitada a intervenções curtas, sem grandes oportunidades para argumentação complexa, e que justifica muito provavelmente o seu êxito.

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Em Viagem, Navio Vazio

Daqui a nada vou para o comboio para ver se consigo chegar ao Porto a tempo de ir à inauguração no Navio Vazio. Não vou ter muito acesso à net durante o resto do dia, portanto não sei se haverá muitos mais posts hoje.

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Coisas que insistem em não mudar

Um desabafo de John Maynard Keynes a propósito da popularidade da teoria económica clássica, apanhado na página 58 da Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda (Relógio D’Água):

O carácter absoluto da [sua vitória] tem algo de curioso e de misterioso. Só se pode explicar por um complexo de afinidades entre a doutrina e o meio em que foi lançada. Suponho que o facto de ter chegado a conclusões bastante diferentes das que esperaria uma pessoa comum não instruída contribuiu para o seu prestígio intelectual. O facto dos seus preceitos, aplicados à prática, serem austeros e por vezes intragáveis. deu-lhe uma aura de virtude. O poder sustentar uma superestrutura lógica conferiu-lhe beleza. O poder explicar muitas injustiças sociais e crueldades aparentes como incidentes inevitáveis da marcha do progresso, e o poder mostrar que, em geral, as tentativas de modificar esse estado de coisas provavelmente causaria mais danos do que benefícios emprestou-lhe autoridade. O ter proporcionado alguma justificação para a liberdade de acção do capitalismo individual atraiu-lhe o apoio das forças sociais dominantes atrás da autoridade.

 

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A Culpa Rotativa

Já houve tempos em que Pedro Passos Coelho se dedicou a prometer com elegância sem dúvida irrealista que, eleito, não andaria a apontar culpas ao anterior Primeiro Ministro. Bons tempos.

Agora, se não é o próprio Passos a fazê-lo, às claras ou por subentendidos, alguém o faz por ele – um colega, um cronista, alguém na rua, etc. E até há quem defenda que quase seis meses ainda não são suficientes para Passos e o seu Governo já terem culpa do que quer que seja – portanto, a culpa só pode ser dos governos anteriores, sobretudo do último.

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À Rasca Generation

Já faz três anos que foi cancelada, ao fim de apenas doze episódios, mas ainda sinto falta da série de televisão The MiddleMan, sobre uma ex-aluna de Belas Artes que, farta de uma ladainha de contratos de trabalho temporários como secretária substituta, se tornaria assistente de um super-herói – o tal MiddleMan –, resolvendo casos como o da raça de extraterrestres que estabeleceu colónias em bairros de Tias porque se pareciam naturalmente com pessoas muito bronzeadas que tinham tido plásticas a mais, ou do trio de tiranos cósmicos exilados no nosso planeta que tinham decidido formar uma Boys Band para arranjarem fundos para fugir, tudo isto com seitas de wrestlers mexicanos e universos malignos à mistura. Entretanto, Wendy Watsom – era esse o seu nome – ainda mantinha o seu loft, subalugado clandestinamente com uma colega eco-activista, onde ainda fazia pequenos eventos open-house de instalação e artes performativas.

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Uma Ordem Profissional Há Muito Sonhada

O surrealismo tem destas coisas: quando se fala de novo da Ordem dos Designers, apanhei por mero acidente um texto de Alexandre O’Neill, recolhido no livro de 1980, Uma Coisa em Forma de Assim, onde o poeta enfrentava num pesadelo – é esse o nome da peça – alguns arquitectos, seguidos de um decorador de interiores, e onde a questão das ordens está claramente presente. Aqui ficam uns excertos só para dar uma ideia:

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A Garrafa de Pedra

(foto: Susana Gaudêncio)

Reparei na garrafa de pedra há quase vinte anos, quando o meu primeiro emprego – ou mais exactamente “estágio” – me obrigava a atravessar todos os dias a ponte D.Luís numa daquelas carreiras privadas mal-cheirosas que faziam os autocarros dos STCP da época parecerem vaivéns espaciais. Do lado de Gaia, quase invisível a meio da ladeira do lado esquerdo da ponte, um pouco abaixo do tabuleiro superior, via-se a custo da janela da carreira um edifício em ruínas coroado por uma garrafa de vinho do Porto, provavelmente moldada em cimento.

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Minimalismo roxo

Uma bela edição do Comunidade de Luiz Pacheco, um panfleto agrafado de catorze folhas de papel grosso dobradas ao meio. A capa parece quase iluminista, de composição centrada com o título numa Bodoni bem espaçada, mas o interior choca um pouco, ao aparecer numa não-serifada, impressa tal como a capa numa tinta violeta mas notando-se mais talvez por a fonte ser mais grossa, ou simplesmente porque há mais texto. É um arranjo ao mesmo tempo austero, minimal, de margens vazias, quase pobres, mas que o detalhe da cor torna inesperadamente excêntrico – uma boa ilustração do próprio conto que poderia ser descrito do mesmo modo.

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A nova função da função pública

A diferença entre Passos e Sócrates é que enquanto o segundo, sendo socialista, acreditava que a treta devia ser distribuída universalmente, o primeiro acredita que, não poupando o resto da população, a Função Pública deve apanhar com o impacto frontal da coisa, para que o resto dos Portugueses, dependendo da sua orientação, possa dizer que “até mereciam”, “antes eles do que nós” e por aí adiante – tudo em nome da coesão social (se entendermos a sociedade como algo que não inclui os funcionários públicos, claro).

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Portugal em Frankfurt

Através da Sofia Gonçalves (que tirou as fotos), uma das publicações da Braço de Ferro apanhada na Feira do Livro de Frankfurt (acima), acompanhada de outra da D. Quixote sobre Luiz Pacheco (com design dos Silva! Designers). Duas gerações de edição alternativa portuguesa, a Contraponto e a Braço de Ferro, reunidas na mesma prateleira em plena Alemanha.

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O Caos e a Ordem

O jornal i publicou uma notícia sobre a eventual criação de uma Ordem dos Designers em 2012. Não posso dizer que concorde com a medida pela simples razão que não vai fazer nada do que se espera que ela faça.* O grande argumento que a sustenta é que o design português só não é respeitado porque esse respeito não está inscrito na lei – o que na melhor das hipóteses será apenas “respeitinho”, aquele medo de arranjar chatices devido a uma autoridade mais ou menos arbitrária cujas intenções não se percebe bem, do que respeito propriamente dito – tradicionalmente, em Portugal é quanto basta.

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A classe média a sério

Dentro da chavonística nacional, uma das ideia mais curiosas é que (exceptuando o funcionário público) nunca tivemos uma classe média a sério. O “argumento” segue, gabando as virtudes dos países onde há realmente uma classe média e que isso demonstra a agilidade da economia, a mobilidade social, a participação cívica, etc. Seria portanto necessário criar aqui essa tal classe média a sério. Mas, infelizmente, a classe média actual, mantida artificialmente pelo Estado, estaria a ocupar o lugar da verdadeira classe média, assim deve-se eliminá-la para que a nova apareça. Não interessa muito que a nível global a classe média esteja a desaparecer, e que esse desaparecimento esteja ligado à erosão sistemática do Estado, e que como consequência da degradação dessa tal classe média a desigualdade social esteja a crescer (a desigualdade é, por definição, a eliminação de escalões intermédios de rendimento). Portanto, a estratégia acaba por ser eliminar a pouca igualdade que vamos tendo em nome de uma que talvez venha.

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Ideologia? Mas qual ideologia?

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Já quando Vítor Gaspar justificou o corte de cerca de 14% dos vencimentos de boa parte dos funcionários públicos se tinha saído com um argumento curioso: que fazia sentido porque tinham um emprego mais seguro, com salários mais elevados que a média, mas que, de qualquer modo, era isso ou o despedimento em massa – o que revela bem o pouco que vale a tal segurança.

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Miudezas

Passei a manhã toda a avaliar livros paginados por alunos do último ano. Alguns bons resultados, dado o pouco tempo, mas nada que não pudesse ser melhorado. Ainda assim, menos deprimente que uma ida à secção nacional da Fnac, tradicionalmente muito fraca.

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Pequenas e boas

Não tem data, mas é do tempo em que consumir sardinha em lata era apoiar a indústria nacional e gerava emprego, um belo panfleto cheio de ideias para as cozinhar – grelhadas, em crepes, com presunto, sanduíches – e ainda secções dedicadas ao atum e às anchovas. Tudo muito sério, interpelando directamente a dona de casa: “V. Ex. que tão bem sabe o que representa em trabalho, imaginação e… dinheiro, a apresentação diária, às horas das refeições, de pratos originais e atraentes, não deixará decerto de nos ficar reconhecida e quando, esta tarde, o seu marido voltar das suas ocupações, ficará encantada por lhe ser servida uma iguaria tão diferente da vulgaridade”. Uma lindíssima capa mostrando um padrão quase abstracto de sardinhas, sobre um fundo patriótico e ilustrações a duas cores a meio caminho entre o cubo-futurismo e a caligrafia decorativa.

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Concerto para boca e botija, acompanhadas pelo violino mais pequeno do mundo

“Por decisão pessoal minha, amanhã mesmo, vou formalizar a renúncia a este direito que a lei me dá”, foi o que disse Miguel Macedo, justificando-o porque não quer “perder um minuto com uma polémica deste género.” O artigo de jornal só refere este argumento que por sinal é péssimo, demonstrando uma mentalidade que se preocupa mais com as formalidades da vida pública, com a letra da lei do que com a ética: tudo indica que o fez para acalmar uma polémica e não porque ache que é uma decisão honrada, inevitável mesmo.

Mesmo esquecendo por um momento que ainda há uma semana se forçou cerca de um milhão de pessoas a abdicarem de uma boa fracção dos seus vencimentos, a que têm direito por lei e por constituição, impondo flexibilidade, austeridade e espírito de sacrifício com a ameaça não muito velada que a alternativa seria o despedimento em massa. Mesmo esquecendo isso tudo, e o mau exemplo que é ter um ar impaciente quando apesar de ter a lei do seu lado, se abdica desse direito “por questões pessoais” e não devido às tais flexibilidade, austeridade e espírito de sacrifício. Mesmo se não houvesse crise nenhuma e Portugal fosse tão rico que a gasolina era gratuita, ainda assim seria difícil vislumbrar a ética de aceitar um subsídio de alojamento por não ter “residência permanente na cidade de Lisboa ou numa área circundante de 100 km”, quando se tem uma casa em Lisboa.

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Também há designers na Rua dos Douradores

(via)

Sim, é literalmente verdade: conheço uns tantos que lá vivem ou têm lá os seus estúdios, mesmo ao lado dos restaurantes onde Fernando Pessoa almoçava, que hoje alternam com comida indiana e postos de aluguer de Segways, mas – para quem não conheça – o sentido do título será mais óbvio lendo o seguinte texto, um dos mais famosos do Livro do Desassossego e que poderia ser uma espécie de Teoria Geral da Cultura Pobre:

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Cesuras e Censuras, Recortes e Rasuras

Há livros que nos obrigam a reavaliar tudo o que já lemos de um autor e o veredicto acaba por não ser positivo. Tree of Codes, que Jonathan Safran Foer produziu para a Visual Editions, é uma dessas obras que nos fazem, de um momento para o outro, mudar de ideias.

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Absolutamente essencial

Artigo de Maria João Pires no Público de hoje sobre o empobrecimento dos trabalhadores e as suas consequências sociais (via Facebook apenas).

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A ética democrática em Thoreau

De acordo com a data e o preço em escudos nos bilhetes de autocarro guardados lá dentro já não lia o Civil Disobedience de Henry David Thoreau pelo menos desde 1998. Confesso que quando o recomecei a ler, as primeiras frases me desiludiram, ao argumentarem que o melhor Governo é aquele que não governa de todo.

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Mário Moura

Esta é a minha biografia.

Se a estão a ler para tentarem perceber se "eu sou alguém", se acreditam que só depois de lerem o meu cv é que podem levar-me a sério, concordar ou não comigo, nem vale a pena continuarem a ler. Se vieram aqui por isso, leiam os meus textos: todos os argumentos importantes estão lá.

Dito isto: escrevo sobre design, cultura, política há uns nove anos. Faço-o regularmente aqui. Menos regularmente em jornais (Público, i), revistas e livros. Alguns dos meus textos foram reunidos no livro Design em Tempos de Crise, editado pela Braço de Ferro (está esgotado).

Dou também conferências regularmente. Nas Belas Artes do Porto, nas Belas Artes de Lisboa, na Esad das Caldas da Rainha, na Esad de Matosinhos, na Experimenta Design, no ciclo Ag – Prata, por exemplo. Dei um ciclo de 6 conferências sobre Livros na Culturgest de Lisboa entre 2011 e 2012.

Tenho uma tese de mestrado sobre a estética da programação (já soube fluentemente dezasseis linguagens de programação – Java, C++, Basic, Javascript, ActionScript, Lingo, Starlogo, PostScript, Proce55ing (quando ainda se escrevia assim), etc. Mas é preciso praticá-las, e eu não tenho feito isso; suponho que acabei por enjoar, mas de vez em quando sinto o chamamento; faço o que posso por ignorá-lo).

Fiz uma tese de doutoramento sobre autoria no design.

Já ensinei perto de vinte cadeiras distintas, distribuídas pelas Belas Artes do Porto e Lisboa, e pela Faculdade de Engenharia do Porto: gostei de uma que dei sobre Autoria; gosto de ensinar edição e bookdesign; também gosto de história e crítica. Tipografia e criação de tipos, dou quando tem que ser (não desgosto).

Se alguém quiser uma bio mais resumida, respeitável e copy/pastável:

Mário Moura, blogger, conferencista, crítico. Escreve no blogue ressabiator.wordpress.com. Parte dos seus textos foram recolhidos no livro Design em Tempos de Crise (Braço de Ferro, 2009). A sua tese de doutoramento trata da autoria no design.

Dá aulas na FBAUP (História e Crítica do Design Tipografia, Edição) e pertence ao Centro de Investigação i2ads.


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