Desde que entrei na vida adulta, tendo-me especializado numa daquelas áreas que ainda agora se costuma associar ao trabalho intelectual – o ensino e investigação universitários das artes –, que me fui habituando à presença de certo tipo de figurinha que sobe imperceptivelmente nas hierarquias como um bolor que se entranha. Habitualmente, esquiva-se à discussão: se uma votação os contradiz, acabam por fazer aquilo que lhes interessa por vias travessas, almoçando com algum amigo que trabalha na reitoria. A democracia para eles, é uma formalidade e um empecilho.
Muito naturalmente, gostariam de reduzir a teoria ou a crítica a modelos “académicos”, ou seja a teses de trezentas páginas, com muita entrelinha, impressas só de um lado e dedicadas a contar quantas fontes tem um autocolante do 25 de Abril ou coisa do género. A crítica dos jornais ou revistas para eles não existe, porque lhe falta o rigor académico, porque não obedece às regras do FCT – porque, na verdade, os ignora por completo. Merecidamente.
Não há maior defensor da honra de uma instituição que esta gente. Só falta andarem sempre com uma T-Shirt a dizer “Vestir a camisola”. É mais fácil encontrá-los numa inauguração do que um canapé ou um bolinho de côco. E é claro que se alguém lhes lembra que há regulamentos, eles respondem que os cumpriram à risca (em geral, não é verdade); se alguém lhes lembra que antes dos regulamentos há aquela coisa da ética, eles barafustam que descobrir-lhes assim o barrete é atacar traiçoeiramente a própria instituição. Não vêem com bons olhos a auto-crítica, mesmo quando é praticada por terceiros.
Tudo isto para dizer que não me espanta a proeminência de gentinha sinistra como João Duque, que defende alegremente a redução do serviço público à propaganda pura e simples para “enganar” investidores estrangeiros, acenando-lhes com “praias portuguesas sob um sol magnífico onde corpos jovens se recreiam e onde os menos jovens se divertem em magníficos recortes de sonoras gargalhadas acompanhadas da presença de apetitosos pratos de comida” em vez de “beatas, sacos de plástico, preservativos usados, cacos de vidro dispersos e grupos de pessoas a clamar.” Mas, como em qualquer república das bananas, a diferença evidente entre a propaganda de estado e a realidade não escapa ao investidor estrangeiro – antes pelo contrário, demonstra aos menos escrupulosos que aqui é sem dúvida um bom sítio para fazer asneiras lucrativas longe da vista de todos.
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[...] O Ministro narcisista! Consta que o “Jorge” Miguel Relvas do PSD foi vaiado e apupado no Congresso da ANAFRE; e que vai encomendar ao rameloso do João Duque, ( com os talibãs José Manuel Fernandes & Cintra Torres), um estudo sobre o desmantelamento das autarquias locais! Já agora não se esqueça de informar quanto custa os ilustres pareceres dessas personagens de oper… [...]
[...] Pratica a censura cautelosamente, administrativamente, às vezes sem dar conta sequer que o faz – como se estivesse a fazer um serviço público, filtrando as coisas más do ar, a poluição, para manter um ambiente agradável e optimista. [...]