The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Design de Luxo

A propósito das participações portuguesas na Millionaire Fair de Amesterdão, “um dos eventos mais exclusivos e dominantes do sector do luxo” e da declaração de Carlos Aguiar sobre esse assunto, gerou-se uma discussão acalorada com várias frentes, sobre, por um lado, a contradição deste design de luxo estar a ser produzido por estagiários não-remunerados, e sobre – assumindo que este design de luxo está a ser pago justamente – a própria moralidade de haver um design de luxo.

Quanto à primeira frente, e independentemente do design ser ou não de luxo, se é produzido por empresas que obtêm a sua competitividade à custa de trabalho não-remunerado, sobretudo se este é assumido como formação, trata-se de uma forma clara e particularmente grave  de exploração, porque não só abusa como declaradamente ensina esse abuso como se fosse um ritual incontornável de passagem – quem aprender a “lição” ensiná-la-á sem dúvida às gerações seguintes, perpetuando-a.

Quando à segunda frente, a discussão é mais subtil e opõe quem o defende e quem acha a própria existência de um design de luxo contraditória. Para estes, o design deveria ser funcional e pragmático, sobretudo numa época de crise e num país com carências como Portugal. Lendo o texto de Aguiar, é possível perceber que não se trata de proibir este género de design mas de criticar a sua cobertura excessiva pelos media.

A promoção de um design de luxo equivale muito directamente à promoção dos valores daquela pequena fatia da sociedade – os tais 1% – que não só provocaram esta crise como ainda lucram à sua custa, beneficiando com a ruína de países como o nosso. É preciso ter em atenção que não se trata sequer do design de objectos caros, mas de objectos concebidos para serem caros e parecerem caros. Pode até ser um bom negócio conceber objectos de luxo para esta gente, mas seria perpetuar os valores que nos trouxeram onde estamos.

Contra esta posição, argumentou-se que seria contraditório um professor universitário pôr em causa o trabalho de empresas que se especializam num segmento de mercado que gera receita, emprego, etc. Mais uma vez, estou do lado de Aguiar: não acredito que se deva apoiar uma empresa simplesmente pelo facto de ser uma empresa. Design de má qualidade, seja ele feito de forma escrupulosa ou não, até pode ser bom para a economia, mas se esta crise nos ensinou alguma coisa foi sem dúvida que os interesses da economia e da sociedade em geral nem sempre coincidem.

About these ads

Filed under: Ética, Crítica, Cultura, Design, Economia, Ensino, Estágios, Política, Prontuário da Crise

3 Responses

  1. Spec Work NO diz:

    Também se podem pagar cursos nas faculdades, com o argumento: Só pago se tiver trabalho remunerado?

    Não é isso que certas empresas fazem? Só pagam se aquilo que desenhas vende?

    Quem anda a enganar os Designers?

  2. […] lembrem-se que o que está a ser produzido nestas condições é design de luxo, direccionado para feiras de milionários. Não é contradição nenhuma. Nem chega a ser ironia. Apenas um bom exemplo do que se acha lá […]

  3. http://www.clsbe.lisboa.ucp.pt/site/custom/template/fceetplexecour.asp?sspageID=865&lang=1

    eles próprios o dizem: “Nos últimos anos o luxo tornou-se um dos mais bem sucedidos e relevantes negócios à escala global, apresentando resultados sempre crescentes, apesar do atual contexto conturbado da economia.”

Deixar uma resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

WordPress.com Logo

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Log Out / Modificar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Log Out / Modificar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Log Out / Modificar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 530 outros seguidores

%d bloggers like this: