Quem foi à minha última conferência na Culturgest sabe que ando bastante interessado no modo como diferentes concepções da economia se reflectem tanto na distribuição de publicações como no seu aspecto gráfico.
Hoje em dia, as pessoas compram objectos de uma vez só e pagam-nos depois em prestações; em outros tempos, mais avessos à dívida, os objectos eram comprados às partes, aos pedaços. Uma revista era coleccionada e acumulava-se lentamente até ser promovida por um encadernador ao estatuto de livro. A numeração de página e os seus índices já previam esse estatuto.
Um bom exemplo da estratégia é a Contemporânea, mas a revista que começou por ser conhecida por Solução Editora, também de José Pacheko, ainda é um objecto mais curioso, editado entre 1929 e 1931 e feito expressamente para publicar separatas – que é como quem diz fascículos – que seriam reunidas em livro. Segundo uma declaração de intenções no primeiro número, citada no Dicionário das Revistas Literárias Portuguesas do Século XX, de Daniel Pires:
“A Solução Editora é uma revista diferente de todas as outras, pelo princípio fundamental que a anima. Foi criada (e é esse o seu pensamento original) a fim de promover a publicação de grandes obras que de outro modo não veriam a luz do dia, nem outro lugar nem doutra maneira, dada a dificuldade cada vez maior nas edições, carência de editores e os altos preços e inconvenientes das edições particulares.”
O nome da revista é assim brilhante na sua literalidade: Solução Editora – a revista que resolve o problema da edição de livros funcionando ela mesma como veículo editor. A ideia deve ter parecido estranha porque acabar-se-ia por mudar o nome para uma coisa mais genérica e menos subtil: A Revista da Solução Editora.
Conforme se pode ver pelo índice, no primeiro número eram publicadas as primeiras partes de três livros, acompanhadas de uma secção com poemas e textos de Mário Saa, José Régio e Fernando pessoa, tornando-a bastante cobiçada pelos coleccionadores de primeiras edições:
Apanhei anteontem a capa que envolvia o primeiro número num alfarrabista do Porto (já não foi a tempo da conferência). Entretanto, já encontrei dois dos volumes editados com a revista. Um deles, As Paródias na Literatura Portuguesa, tem o interesse de reproduzir as capas de livros que cita através de um dispositivo gráfico elegante que sugere o formato da publicação através do espaço negativo do texto.
Repare-se que a data indicada de publicação, talvez por causa da publicação em fascículos, vai oscilando entre 1930 e 1931 em diferentes partes do livro.
E é assim que me apercebo que me fui tornando num coleccionador que pode ser descrito enganadoramente como “de fascículos” – um género feito para ser coleccionado, mas que só raramente é procurado por si mesmo. É um formato gráfico intermédio, instável, mas por vezes lindíssimo, que tende ao mesmo tempo a ser mais raro e menos valorizado que o objecto final encadernado.
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[...] vez me fascinam mais os formatos intercalares de uma publicação, o fascículo, ainda por encadernar, ou a encadernação ainda por usar, como é o caso desta capa para os [...]
[...] A ideia de distribuir uma revista como um monte de peças soltas dentro de um contentor qualquer não andava muito longe do modo como as revistas ainda eram distribuídas na altura, como fascículos para serem recolhidos em volumes. [...]