Lendo as notícias sobre a vinda de Paul Krugman a Portugal e sobretudo os comentários acusando as suas declarações que deveríamos cortar os salários em cerca de 20 a 30% em relação à Alemanha mas também evitar mais austeridade de serem uma contradição básica confirma-se que boa parte da população não percebe do que se está a falar quando se fala de austeridade.
Enquanto para o comum dos mortais o termo significa apenas poupança, sacrifícios, cortes de salários, mais impostos, etc. para os economistas significa redução do deficit e sobretudo da despesa do Estado. Quer dizer que o Estado deve ter o mínimo de peso na economia.
Numa época de crise como a nossa em que o investimento privado se acautela e espera por melhor tempos para gastar o seu dinheiro, o Estado poderia – se não acreditasse na tal austeridade – através do seu investimento ajudar a relançar a economia e a criar emprego.
É claro que Portugal está endividado e em dificuldades, mas se o Estado de países europeus com uma economia mais sólida que a nossa se dispusesse a ser menos austero e investir um pouco mais de dinheiro em obras públicas, no ensino ou em cultura, as pessoas que recebem esse dinheiro sob a forma de salários poderiam gastá-lo comprando mais coisas, que poderiam ser encomendadas em maior quantidade a quem as produz – certos países periféricos, por exemplo, onde a desvalorização relativa dos salários* tornaria o seu fabrico mais barato.
Assim cortar salários e a austeridade não são exactamente a mesma coisa, nem estão necessariamente ligados. Na prática, instalou-se um certo discurso firmemente tótó que conclui que quem é contra a austeridade é a favor de gastar dinheiro que não temos. Na verdade trata-se apenas de duvidar de uma estratégia a que se chama austeridade, que tudo indica só irá piorar a nossa situação. Não se trata de recusar fazer sacrifícios, apenas de recusar fazê-los em vão.
*Se tivéssemos a nossa própria moeda isso poderia ser feito através da sua desvalorização como não temos isso é feito através do corte.
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Para mim a surpresa foi ele estar a falar em baixar 20% a 30% de salários, quando a maioria da população portuguesa recebe já muito pouco. Não me parece concebível cortar 20% num ordenado de 600€ ou mesmo 800€.
Na função pública os ordenados acima de 1500€ já estão a sofrer cortes entre 5 a 10%. Juntando a isso os cortes nos subsídios de férias e natal, talvez já tenha chegado aos 20%. No privado não sei como é que isso se poderia processar, mas de qualquer maneira há áreas em que as empresas oferecem o ordenado mínimo e exigem carro próprio..
de facto já anda para cima dos 20%. no caso das carreiras universitárias, por exemplo, a subida de escalão em muitos casos já não implica aumentos o que pode significar só por si um corte de 20% (para além do fim dos 13º e 14º mês, ec), mas a questão em Portugal é mais uma vez a desigualdade que tem aumentado com a destruição sistemática da classe média e dos direitos do trabalho em geral. Seria possível fazer uma distribuição dos sacrifícios bastante mais progressiva.