Desde o “apagão” que a minha fonte de notícias são os jornais, consumidos de preferência no iPad. Só vejo telejornais nos ecrãs do ginásio ou no café, quase sempre sem som. Prefiro ler as notícias a ouvi-las ou vê-las. Menos histeria e mais reflexão, mais contexto, ou seja: mais informação. Quando venho a casa dos meus pais, a dose de Tv Cabo só me confirma a preferência.
Quando Marshall McLuhan criou a expressão “A Aldeia Global”, estava a descrever um planeta que as telecomunicações reduziam ao tamanho de uma aldeia, mas também estava a dizer algo mais subtil, que costuma passar desapercebido. McLuhan dizia que “O Meio é a Mensagem”, ou seja, a maneira como se comunica é tão ou mais importante como o que se comunica. Assim, num mundo onde se comunica cada vez mais através de som e imagem, a fala ganha mais protagonismo que a escrita. Se vivemos numa “Aldeia Global” é porque comunicamos e tomamos decisões cada vez mais como se ainda estivéssemos numa sociedade oral, numa aldeia.
Segundo o historiador da linguagem Walter J. Ong, uma sociedade oral tem características muito distintas das de uma que assenta na escrita. Em primeiro lugar, tem menos capacidade para ultrapassar o contexto imediato e local, construindo generalizações úteis, abstracções. Depois a linguagem tende a ser mais combativa, o que se reflecte em tradições como cantar ao desafio. Tende também a assentar em chavões, fórmulas, micro-narrativas memoráveis.
Ouvindo um noticiário qualquer numa tasca do interior reconhecem-se bem estas características. Qualquer teoria ou argumento que não possa ser resumido a um chavão ou a uma fórmula fica pelo caminho. A crise é um bom exemplo, sobretudo quando se compara repetidamente um país à casa de uma família, quando se insiste em fórmulas como a “Austeridade”, “As dívidas são para se pagarem”, etc. Tudo isto é sabedoria feita para parecer óbvia e popular. Qualquer tentativa de demonstrar que são tretas dará sempre mais trabalho que repeti-las sem pensar muito no assunto.
Ver e ouvir as notícias na televisão não é apenas um substituto rápido da informação escrita, mas algo que pode ter consequências muito distintas. Portugal é um país de alfabetização recente e não muito consolidada. Ainda somos uma sociedade em larga medida oral, que na mesma altura em que aprendia a ler, foi apanhada pela nova oralidade da Aldeia Global. Apesar de toda a conversa sobre qualificação e habilitações, na Hora H acaba por se valorizar o desenrascanço, a sabedoria saloia, a lábia. Esta é a nossa maior crise, que a crise económica só se encarrega de piorar.
Podia-se resolvê-la com mais ensino, mais educação, com a criação de uma sociedade que não se comportasse cada vez mais como se fosse uma aldeia. Não há nada de mal nas aldeias, excepto quando são a melhor metáfora para descrever um país.
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A propósito do artigo, os meus parabéns, está muito bem colocada essa questão. Na altura do apagão fiz a mudança para a TDT, mas constato que mais valia ter estado quieto e ter poupado os €. O entertenimento nacional é sofrível, a informação é exactamente como a colocou, um sucedâneo altamente redutor e alienante do que realmente poderia ser. Salvam-se alguns docs e as doses duplas de cinema que a 2 vai mantendo.
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