The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Arte do Estado já não é o Estado da Arte

As intervenções culturais nas barragens do Douro já foram descritas algures como um “roteiro de arte pública”, designação curiosa pela sua ironia (talvez involuntária): afinal, trata-se de arte paga por uma empresa privatizada, feita numa zona que se arrisca a perder por causa disso o seu estatuto de Património da Humanidade, talvez o grau mais elevado de “interesse público”.

Em outras ocasiões já me queixei da infelicidade da expressão “arte pública”. Num momento em que a exploração predatória do que até há pouco tinha sido público é a ideologia dominante, a designação aplicar-se-ia com mais elegância a iniciativas como a Escola da Fontinha ou às pessoas que ainda insistem em manifestar as suas reivindicações em público, mesmo correndo o risco de serem multadas ou presas por isso. Talvez “Arte Recentemente Privatizada” fosse mais adequado. “Arte da privatização”?

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Retrato do Artista e dos seus Mecenas Enquanto Patos Bravos

Graças a uma pergunta da plateia no final de uma conferência na Universidade do Algarve foi possível conhecer a reacção de Pedro Cabrita Reis às críticas negativas de que foi alvo a sua intervenção na barragem da Bemposta.

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A Mesita de Café

Nos intervalos e nas férias vou lendo a biografia de Luiz Pacheco, que é também um grande retrato das condições precárias em que ainda se produz cultura por aqui – sempre à custa de um segundo emprego ou das ligações de família e poder. Tentar uma terceira via, como Pacheco fez, implica pobreza, miséria e marginalização. Viver da caridade, às vezes à custa de ser o bobo da corte ou o bêbado da aldeia.

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A anedota

No ambiente actual, até as coisas mais óbvias precisam de ser ditas e reditas, caso contrário habituamo-nos a elas. Portanto aqui vai: os sucessivos governos têm cortado os apoios às artes em grande medida porque estas são vistas como um luxo, uma coisa supérflua. É uma posição populista que não se belisca com a possível contradição de se continuar a apoiar as grandes instituições, a arte de grande escala, o empreendedorismo, tudo em geral luxuoso.* O que fica pelo caminho é a raia miúda das artes, que se auto-financia com empregos no ensino, nas grandes instituições, etc. A arte de pequena escala não desaparece mas continua a ser produzida a custo zero, em condições cada vez mais precárias e desautorizadas.

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Inovação Pimba

Já o tinha dito por aqui umas tantas vezes, mas o que assusta nesta versão portuguesa da crise é o apagamento de umas tantas décadas de cultura, com gerações inteiras a voltarem ao mesmo tipo de negócios que os seus bisavôs e trisavôs: tascas, mercearias, artesanato, bibelôs, tudo adjectivado de “urbano”,  tudo com uma fina camada de design, com uma exposição de qualquer coisa pendurada a um canto, uma inauguração ou um djset de quando em quando. São o negócio e a cultura possíveis mas também uma espécie de desistência.

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Como um peixe

Não é difícil perceber que o mundo da arte mudou drasticamente nos últimos anos, mais do que seria possível descrever num pequeno texto como este. Apareceram as indústrias criativas, cortaram-se apoios públicos, aumentou a quantidade de escolas e de alunos, etc. Mas uma das mudanças mais dramáticas, totais, é talvez a menos comentada, porque parece, neste momento, inevitável.

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“Fui à Espanha. À vinda para cá fiquei assustada.”

Atingimos um nível, neste país, que já não é possível contar uma piada sem que ela corra o risco de ser ultrapassada pela realidade nem quinze dias depois. A propósito da barragem a ser construída no Tua por Souto Moura e que Francisco José Viegas se propõe “pigmentar” como camuflagem para diminuir o seu impacto na paisagem protegida do Parque do Douro Internacional, escrevia eu:

“Imagino que convide um artista da nossa praça para a pigmentação, talvez um Cabrita Reis ou um José Pedro Croft que empilhem também umas lages de mármore, representativas da região (geólogos, se estão a ler isto, é uma piada, parem de gemer). E a intervenção não pode parar aí: convida-se um ensemble de música noise para disfarçar os estampidos da dinamite e um grupo de artes performativas vestido de amarelo para realizar um peça baseada nos movimentos rítmicos dos catrapilas. Podia-se fazer um festival de música alternativa chamado Milhões de Betões.”

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Para acabar de vez com as artes, cultura e o resto

Depois de ler uns tantos textos a defender ainda mais cortes na cultura, começa a não dar muita vontade de lhes responder, porque isso implica sempre um déficit pessoal, pensar em coisas nas quais não foi – muito obviamente – empregue grande pensamento.

São quase sempre asneiras mais ou menos genéricas que se podem resumir ao seguinte: porque deverá existir uma cultura se só consegue fazê-lo à custa de subsídios do dinheiro de todos nós? Há várias maneiras de responder a esta treta interessante questão.

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Só para lembrar

Só para lembrar que a minha próxima conferência na Culturgest será amanhã às seis e meia, e terá como ponto de partida o livro Pioneers of Modern Typography, de Herbert Spencer (Lund Humphries, 1969).

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2ª Conferência sobre Livros na Culturgest

A minha próxima conferência na Culturgest será deste Sábado a oito, dia dezassete às seis e meia, e terá como ponto de partida o livro Pioneers of Modern Typography, de Herbert Spencer (Lund Humphries, 1969).

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A Indústria Cultural do Atraso

Diz-se de Portugal que é um país atrasado, que se vai modernizando, mas o que quer isso dizer exactamente? Em, geral, que existem as chamadas economias avançadas e, atrás delas, ocupando os degraus cada vez mais curtos de um gráfico de barras, as que estão em vias de desenvolvimento.

É um esquema que dá a entender que entre os países há as vanguardas e depois os que vêem atrás, os atrasados, alunos melhores ou piores, que aprendem ou não com o exemplo que vem da frente. Sugere que há uma escala de progresso igual para toda a gente, ao longo da qual se pode subir e descer de modo linear.

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Não é isto, é outra Coisa Qualquer

(via This Isn’t Happening)

Chateia-me sempre quando se diz que em Portugal o cinema, a pintura, a literatura, a música, o design, a crítica – ou outra manifestação cultural qualquer – não existem. E acrescenta-se com ar pomposo que ainda não existe uma versão autêntica destas coisas por aqui, apenas uma pretensão, uma espécie de simulacro amador. A verdadeira cultura seria a que se vai praticando na cena internacional. Por aqui há apenas uns tantos a fazerem de conta, na sua maioria sustentados pelo dinheiro dos contribuintes, não conseguindo sequer fazerem-se pagar honestamente.

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Paper Tigers

Actualmente, no mundo académico das artes e do design há uma febre do paper, cuja origem é a obrigação de publicar uns tantos deles por ano para trepar na carreirita. A coisa funciona tão bem que neste momento a quantidade de doutores em design já é um argumento para demonstrar por si só a excelência actual da área. Mas, para além do efeito estatístico, qual é a influência disto tudo na sociedade?

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Só para lembrar (e esclarecer uma coisa ou duas)

 

É já daqui a um mês, no dia 12 de Novembro, que vai acontecer a primeira das seis conferências sobre livros que vou dar na Culturgest. Assim, aproveito para responder a algumas das perguntas que me têm feito sobre o assunto: as conferências vão ser em Lisboa e vão ser dadas por mim. Cada uma delas vai ter como base um livro que servirá de ponto de partida para falar sobre outros livros, publicações, eventos, locais e políticas ligados ao que poderíamos chamar edição independente contemporânea. Para já, posso adiantar que os dois primeiros livros são The Self-Reflexive Page, de Louis Lüthi (na imagem (que veio daqui)), e Pioneers of Modern Typography, de Herbert Spencer.

Mais informações no site da Culturgest

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Arte Pública

(via)

Há designações verdadeiramente infelizes e “Arte Pública” é uma das piores. Apesar de toda a sua justificação teórica, de conversas sobre mapeamentos, cartografias e contacto etnográfico com as populações acaba por se traduzir numa vaga ocupação de passeios e praças. É mais uma Arte dos Espaços Públicos que uma Arte Pública – e é nesta nuance que reside toda a infelicidade do termo.

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Sabor a Ciência

(via)

Relendo o texto que escrevi na semana passada sobre a aplicação de modelos científicos à investigação nas artes, apercebi-me que ele poderia ser mal interpretado. A dado passo dizia que muitos papers pouco mais eram do que artigos de opinião convencidos do seu carácter de verdade científica inabalável simplesmente porque foram avaliados por um júri. Lendo isto pode-se ficar a pensar que eu defendo que a opinião deveria ser erradicada dos papers, substituída por métodos estritamente rigorosos, quando o que eu sublinho é a impossibilidade de erradicar a opinião da reflexão sobre áreas culturais.

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A Triste Ciência

Não há nada que descreva melhor a tristeza do ensino superior das artes português que a ironia de ir sendo tutelado ao longo dos últimos anos por sucessivos ministérios e fundações da ciência e tecnologia. É sem dúvida um daqueles arranjos de conveniência que se fazem numa reunião antes do almoço e superficialmente dão jeito a toda a gente.

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Conferências sobre Livros na Culturgest

A ideia de partida para cada uma das seis conferências de Mário Moura, que decorrerão entre Novembro de 2011 e Abril de 2012, a um ritmo mensal, é escolher um objecto, um livro, que permita, por sua vez, apontar para outros objectos, outros livros, mas também para exposições, filosofias, políticas, etc. As escolhas, longe de obedecerem a determinada ordem, cronológica ou temática, assentam num critério difuso: cada livro, na sua forma física, na maneira como decide ocupar as suas páginas, no modo como hierarquiza os seus conteúdos, ou como as suas imagens se relacionam com o seu texto, implica não apenas uma autoria, mas também uma forma de edição e uma forma de se relacionar com a realidade, com a sociedade, com a política ou com a história.

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“Então tu és punk e andas de comboio?”

Ouvi a piada numa inauguração. Um punk contava as suas aventuras: okupações de casas um pouco por todo lado, bandas, escolas de arte, bezanas passadas e presentes. A dada altura, dizia como tinha apanhado o comboio para ir não sei onde e alguém lhe perguntou a rir como podia um punk andar de comboio. Era uma piada, evidentemente, mas que me lembrou ocasiões onde alguém perguntava – com toda a seriedade – como podia alguém que não esteve em Londres em 1977, de cabelos espetados e a viver numa casa ocupada, aspirar a ser um punk ou pelo menos apreciar a música, design ou roupa do movimento. Como pode, insistiam, uma coisa supremamente transgressiva e anti-institucional como o punk ser exposta num museu sem perder a coerência, a autenticidade, sem se estar a vender?

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Arte, Política e Transgressão

Nos últimos textos tenho tentado perceber qual o papel que o ensino superior em geral pode ter no alívio e talvez até na resolução das desigualdades sociais crescentes. A minha conclusão – para já – é que deve recuperar uma das suas funções clássicas: a de fornecer ferramentas argumentativas que permitam sustentar uma discussão pública o mais abrangente possível e que não sirva apenas interesses empresariais e económicos, mas os da sociedade em geral. Nesta análise resta-nos tentar perceber qual o papel das artes e do seu ensino.

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Mário Moura

Escrevo regularmente sobre design há cerca de oito anos.

Já escrevi para as revistas Unidade, [up] arte, Insi(s)tu, Quadrado, Margens & Confluências, Slang, Dif, Satélite Internacional, Ar Líquido, Mono, para o blogue inglês Limited Language e para os jornais Público e i. Escrevi uma introdução para uma monografia sobre os Barbara Says, editada em França, pela Pyramid. Publiquei o livro Design em Tempos de Crise, editado pela Braço de Ferro, uma antologia de textos sobre política e design.

Participei em conferências sobre design nas Belas Artes do Porto, nas Belas Artes de Lisboa, na Esad das Caldas da Rainha, na Esad de Matosinhos, na Experimenta Design e no ciclo Ag – Prata.

Dou aulas de História e Crítica do Design e de disciplinas relacionadas com teoria da imagem, tipografia e book design nas Belas Artes do Porto.

História Universal do: Estágio

O "Estágio"
O Negócio Perfeito
Maus Empregos
Trabalho a Sério
Design & Desilusão
"Fatalismo ou quê?"
Liberal, irreal, social
Conformismo
Juventude em Marcha
A Eterna Juventude
Indústrias Familiares
Papá, De Onde Vêm os Designers?
Geração Espontânea
O Parlamento das Cantigas
Soluções...

História Universal dos: Zombies

Zombies Capitalistas do Espaço Sideral
Vampiros, Zombies, Classe Média


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