The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Valerian ou a Educação Política

A melhor parte da minha formação política tive-a sem querer, numa idade em que ainda não se pensa nessas coisas mas onde elas deixam, talvez por isso, marcas indeléveis. Tive-a através da banda desenhada e em particular de uma série de ficção científica francesa chamada Valerian, que comecei a ler por volta de 1982. O protagonista era um viajante no tempo, agente de uma civilização futura que não só exercia uma influência discreta sobre toda a história da Terra como procurava alargá-la a outros planetas, nem sempre da forma mais correcta.

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Faroeste

De todas as coisas passadas no Velho Oeste, as minhas favoritas são – claro – alguns dos filmes de Leone, mas sobretudo uma coisa ainda mais estranha, violenta e absurda, também italiana, chamada Django, onde um soldado arrastava atrás de si um caixão durante quase todo o filme, do qual ou se saia morto ou grotescamente estropiado.

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A difícil arte da reedição

Quando fazia banda desenhada, das piores coisas que me podiam dizer é que eu era o “tipo dos patinhas”, querendo dizer coisa rasca, infantil – o que não podia estar mais longe da verdade, sabendo que houve muita gente a escrever patinhas bem decentes e ninguém melhor que o próprio inventor do Tio Patinhas, Carl Barks, habitualmente posto ao nível de Hergé, Franquin ou Tezuka. E com razão.

Desde há anos que tenho coleccionado as suas histórias, infelizmente reeditadas em formatos estranhos, demasiado grandes e com degradés exagerados de computador, talvez para apelar às novas gerações. Agora a Fantagraphics pôs mãos à obra, e sendo uma das melhores e mais cuidadosas editoras e reeditoras de banda desenhada, fez um bom trabalho, com um formato médio e uma trama de cor fina mas visível sobre um papel branco-sujo, que se assemelham às das primeiras edições sem cair no pastiche. Muito bom.

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Ganges

A primeira vez que reparei na revista, com a sua capa de cores terra foi por causa da colossal cara simplificada, quase abstracta, um Tintin gigante, desenhado a pincel grosso, erguendo-se no meio das nuvens sobre uma cordilheira nevada.

Não era possível ler o título, seis caracteres reduzidos a formas brancas num fundo negro que a contracapa descodificava como “Ganges”, e pensei tratar-se do rio indiano, enganado pelos caracteres exóticos, pela escala onírica da cara e pelas primeiras páginas da história, contando sem palavras a luta entre duas entidades polimórficas, desdobrando-se em braços, pernas e gestos marciais – afinal as personagens de um jogo de computador, a obsessão nocturna de um webdesigner chamado Glenn Ganges.

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Quatro folhas dobradas

Uma revista Tintin de 1947 mostra bem como tanta coisa mudou em sessenta e poucos anos. Saía todas as semanas às quintas e só tinha dezasseis páginas – ou seja: quatro folhas dobradas a meio e agrafadas – pouca coisa pelos padrões actuais, onde uma banda desenhada japonesa pode chegar às duas centenas de páginas por número. As histórias eram publicadas gota a gota, uma ou duas páginas por semana. Imaginem a tortura: uma criancinha tinha que esperar três meses para ler uma história de 48 páginas, tanto quanto se espera hoje pelo fim de uma temporada de uma série americana de televisão.

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Comic Sans

O Estilo Internacional Tipográfico, a que se costuma chamar “Suíço”, não teria o alcance que teve se só tivesse sido usado por revistas de design ou grandes corporações farmacêuticas. Um dos sítios inesperados onde o poderíamos encontrar durante a década de 1970 seriam as capas de umas tantas revistas de banda desenhada espalhadas pelo mundo, como a francesa Charlie Mensuel ou a espanhola El Globo – digo as capas, porque no interior são bastante mais eclécticas, misturando fontes e grelhas com uma descontracção que se estende aos conteúdos, a maioria deles de humor (Quino, Al Capp, Harvey Kurtzman ou Sempé), com algumas incursões pelo erótico (Crepax) e pelo fantástico (Alberto Breccia e H.G.Oesterheld, na imagem imediatamente abaixo).

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A puxar ao coração

Uma das funções do crítico é agarrar (às vezes literalmente) nos ombros de toda a gente que encontra e dizer-lhe, olhos nos olhos, que deveria, absolutamente e o mais depressa possível, estar atenta a isto ou aquilo – em geral, asneiras que foram sido ditas, feitas ou defendidas. Muito mais raramente, o agarrar dos ombros e o olhar dos olhos é sobre coisas brilhantes que ninguém conhece de todo ou o suficiente. É por isso que vos digo, caros leitores e leitoras, que vos agarro nos ombros e vos olho nos olhos e digo, leiam os Love & Rockets de Jaime Hernandez.

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Os Velhos Tempos

Há quem ache que, com os computadores, os adobes e a net, já ninguém sabe imprimir o que quer que seja. Mentira da pura: nos Velhos Tempos, imprimia-se com uma falta de qualidade tão grande que era possível abrir uma revista juvenil em 1968 e dar com a dupla página reproduzida acima. Ou seja, se quisermos ser realmente saudosistas, até a falta de qualidade se foi tornando menos interessante hoje em dia, quando já não é possível dar com uma revista de grande tiragem onde alguém simplesmente se esqueceu de imprimir o K do Cmyk, um quarto da quadricromia, o preto.

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Punk

Para mim, o Punk há-de ser sempre uma coisa mais visual do que sonora, mais americana e francesa do que inglesa. As razões para isso são simples: conheci-o através da  banda desenhada e não do gira-discos, de revistas como a (A Suivre), Animal ou Tintin, onde um desenho da autoria do colectivo francês Bazooka seria a primeira imagem do Punk a deixar-me uma impressão duradoura, chocando-me mais pela novidade violenta do traço, que já em 1978 dava a entender o estilo gráfico dominante da década seguinte, uma mistura pós-moderna de contornos grossos, tramas de impressão ampliadas e rastos estilizados de movimento.

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Aquilo que define uma ilustração – por oposição a um mero desenho com um tema literário – é o facto de conviver fisicamente com um texto, evento ou objecto. Uma ilustração é feita de propósito para aparecer nas páginas de um livro ou de uma revista e não para ser um objecto autónomo. Do mesmo modo, um quadradinho numa banda desenhada não funciona por si só, mas faz parte de uma narrativa maior. Expor ilustração e banda desenhada é, portanto, uma tarefa peculiar na medida em que, inevitavelmente, destrói o seu objecto, isolando-o do seu contexto. A relação entre o desenho e o seu tema perde-se.

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Não posters, mas capas de filmes

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Não sei exactamente a data, mas os primeiros DVDs apareceram na Europa há cerca de dez anos, por volta de 1998. Parece que foi há mais tempo, porque, tal como sucedeu com o multibanco ou o telemóvel, os DVDs mudaram, de maneira subtil mas radical, o nosso estilo de vida. Mais do que as cassetes de vídeo, objectos bastante frágeis e maljeitosos, que só se podia ver umas quantas vezes antes de perderem a qualidade,os DVDs consolidaram a transformação de filmes e séries de televisão em objectos de consumo.
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Coisas com Piada

A minha carreira profissional começou na Banda Desenhada. Foi aí que fiz os meus primeiros trabalhos pagos, o que pode parecer estranho num país como Portugal, onde muitas coisas – como a BD, as artes em geral e, claro, o Design – não costumam ser pagas pelo simples facto de não se parecerem com coisas que costumam ser pagas.

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Capas, Livros e Viagens

Esta semana, tive de ir a Lisboa em trabalho, o que foi agradável mas cansativo. Entre as reuniões, esperava encontrar alguma coisa nova sobre design na Fnac do Chiado, mas as prateleiras tinham praticamente os mesmos livros que tinha visto na minha última visita, por altura do Natal.

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Concentração

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A minha primeira experiência com a crítica foi através da revista de banda desenhada Tintin, que publicava histórias em continuação, duas a quatro páginas por semana. Uma bd de quarenta e oito páginas prolongava-se por vinte e quatro semanas, o equivalente a uma temporada televisiva actual.

É claro que, de semana para semana, o suspense era muito. Os autores adaptavam as suas histórias ao formato e cada página terminava sempre com um tiro, um grito, uma explosão, uma surpresa, que na maior parte dos casos era apenas um falso alarme. Lembro-me de ler compulsivamente, durante dias, a mesma página à procura de pistas que pudessem dar a entender o que podia suceder na semana seguinte.

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Interacção Melancólica

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Já faz dez anos que vi pela primeira vez um número da Acme Novelty Library de Chris Ware. Lembro-me que cada página tinha dezenas de quadradinhos cheios de animais estilo desenho animado. O design lembrava as revistas e jornais densamente ornamentados do início do século XX. Na altura não comprei, embora me tenha ficado na memória. Não o fiz talvez por excesso de design – porque se pareciam mais com objectos do que com histórias. Ainda hoje sinto isso, mas com o tempo aprendi que os comics de Chris Ware se instalam precisamente numa ambiguidade entre objecto e narrativa.

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Logos, Livros

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Embora aprecie os textos de Rui Tavares, confesso que só comprei O Arquitecto, uma edição da Tinta da China, pela capa e pelo design do seu interior, da autoria de Vera Tavares. Folheei-o para trás e para a frente, apreciando os pormenores gráficos, acabando por o deixar pousado sobre a gaveta da mesinha de cabeceira, no meio das canetas, dos CDs, das aspirinas, das revistas e do resto, à espera de oportunidade para escrever sobre ele.

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Duo Design

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No começo da década de noventa, quando era aluno dos primeiros anos do curso de design nas Belas Artes do Porto, nunca tinha muito dinheiro, mas preferia saltar uma ou duas refeições em vez de deixar escapar um livro mais tentador. Costumava percorrer as livrarias do Porto à procura de livros usados, sobretudo de banda desenhada e, às vezes, depois das aulas, ia à livraria Diário de Notícias, ao fundo da rua 31 de Janeiro, ver o expositor de fanzines. Pelos padrões actuais, eram objectos toscos, fotocopiados a preto e branco, escritos à mão ou à máquina – em geral, apenas um maço de folhas com dois ou três agrafes de lado. Os mais experimentais eram fotocopiados com tinta azul ou vermelha, sobre papel colorido ou reciclado.

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A Importância da Bd no Texto.

No centro do palco, iluminado por um foco, Scott Mcloud segura uma placa dizendo “Imagens estáticas justapostas em sequência deliberada”. Anteriormente, já tinha proposto outras definições de Bd, que a audiência tinha considerado inadequadas. Esta era apenas a última versão:
— Que tal está agora?
— Então e as palavras? — pergunta alguém na plateia.
— Oh, não tem que conter palavras para ser uma Bd.
— Não, não. Com essa definição também se pode descrever palavras, não é??
— Hã?
— As letras são imagens estáticas, certo? Quando são compostas numa sequência deliberada, umas a seguir às outras, chamamos-lhes “palavras”.

Scott McLoud, Understanding Comics.

Durante muito tempo considerou-se a Bd como uma literatura para iletrados, um cinema dos pobres, e isto não era apenas a versão popular dos acontecimentos, mas igualmente a posição académica que analisava uma banda-desenhada em termos de escalas de planos como se fosse o storyboard de um filme. No seu livro Understanding Comics, Scott McLoud formalizou uma noção que todos os verdadeiros criadores e apreciadores de Bd já conheciam de forma instintiva: a Bd não é uma mera cópia ou adaptação estática e infantilizada de outra coisa qualquer; ela é interessante precisamente por ser uma sucessão de desenhos e de palavras acompanhados por um leque específico de símbolos gráficos (balões, quadradinhos, legendas, etc).

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Conferência sobre Banda Desenhada

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Ontem dei uma conferência sobre Banda Desenhada na Esap de Guimarães, a convite da Isabel Carvalho. Aproveito para lhe agradecer a ela, bem como aos outros professores do Curso de Licenciatura em Artes BD (em especial ao Marco Mendes e ao Miguel Carneiro) e aos alunos e ao público que assistiram. A conferência foi parcialmente baseada num texto que escrevi para a revista Satélite Internacional n.4 e que está disponível em pdf aqui.

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Mário Moura

Escrevo regularmente sobre design há cerca de oito anos.

Já escrevi para as revistas Unidade, [up] arte, Insi(s)tu, Quadrado, Margens & Confluências, Slang, Dif, Satélite Internacional, Ar Líquido, Mono, para o blogue inglês Limited Language e para os jornais Público e i. Escrevi uma introdução para uma monografia sobre os Barbara Says, editada em França, pela Pyramid. Publiquei o livro Design em Tempos de Crise, editado pela Braço de Ferro, uma antologia de textos sobre política e design.

Participei em conferências sobre design nas Belas Artes do Porto, nas Belas Artes de Lisboa, na Esad das Caldas da Rainha, na Esad de Matosinhos, na Experimenta Design e no ciclo Ag – Prata.

Dou aulas de História e Crítica do Design e de disciplinas relacionadas com teoria da imagem, tipografia e book design nas Belas Artes do Porto.

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