
“Design & Inovação” é uma das expressões mais irritantes do vocabulário político dos últimos anos. Em geral, aparece em plena campanha eleitoral, quando um político no governo, um ministro ou secretário de estado, inaugura um complexo agro-industrial numa terra com três nomes no interior do país. Nessas ocasiões, o “Design & Inovação” costuma ser a chave para o “Progresso & Desenvolvimento”, desde que se consiga as “necessárias sinergias” com a “Ciência & Tecnologia”, e por aí adiante.
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Fevereiro 7, 2008 • 8:22 pm

No fim de Abril de 2007, num debate no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, sobre “O que significa ser artista em Portugal?”, a artista Isabel Carvalho acusou o Museu de Serralves de ignorar os artistas do Porto. À primeira vista, a acusação parecia paradoxal, talvez até injusta – afinal, era o próprio Museu que disponibilizava o espaço para aquele debate –, mas, na discussão que se seguiu (e que continuou nos blogues e, mais tarde nos jornais), tornou-se evidente que o que estava em jogo não era a falta de interesse do Museu na cena alternativa, mas o próprio papel do Museu em relação à cidade. Se Serralves não dedicava ao Porto mais do que uma atenção circunstancial, como podia esperar assumir algum protagonismo ali?
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Janeiro 25, 2008 • 2:26 pm

Desde que me lembro, nas salas de reuniões do edifício principal das Belas Artes do Porto estão pendurados os mesmos quadros, pinturas a óleo de modelos nus, tons de pele pálidos sobre fundos escuros, exercícios de aulas de figura humana de há muitas décadas atrás. Nos momentos mais difíceis das reuniões mais aborrecidas, encontrei sempre algum consolo irónico neles, em particular numa pequena pintura quase impressionista de Prometeu com o seu fígado a ser devorado por uma águia.
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Outubro 26, 2007 • 12:37 am

Quando estava a tirar o curso de design, lembro-me de ter discutido muitas vezes com os meus colegas e professores o logótipo de José de Guimarães para o Turismo de Portugal. Para nós, era uma humilhação ter sido um “pintor” e não um designer a conceber algo que, para todos os efeitos, simbolizava tanto a nossa identidade nacional como a bandeira ou o hino. De certa maneira, aquele logótipo representava o atraso e a ignorância nacionais em relação à nossa área, o design.
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Fevereiro 15, 2007 • 4:06 am

A maioria dos Cultos Cargo apareceu pouco depois da Segunda Guerra Mundial, quando a marinha americana começou a desmantelar as suas bases aeronavais no Pacífico Sul e o fluxo de mercadorias usado para manter os nativos satisfeitos foi cortado. Algumas tribos, descontentes com a gestão americana, resolveram tomar o assunto em mãos, e começaram a construir pistas de aviação em terra batida, com aviões falsos de bambu e torres de controle de madeira, onde sacerdotes, equipados com auscultadores de madeira, tentavam chamar os aviões dos deuses e a sua mercadoria sagrada.
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Agosto 22, 2006 • 12:17 am
Já foi há uns anos que ouvi pela primeira vez alguém defender a noção de um preço mínimo por trabalho de design. O designer em questão pretendia elaborar um abaixo-assinado onde exortava os designers a cobrarem os seus trabalhos sempre acima de um determinado preço (um logótipo seria cobrado sempre acima do preço X; uma paginação acima do preço Y, igual para todos os designers portugueses). Ele argumentava que, de outra maneira, muitos clientes acabariam por preferir trabalho mais barato, mesmo que tivesse menos qualidade ou fosse realizado por designers amadores ou sem experiência, obrigando os designers profissionais a baixarem os seus preços para poder competir. Pelo contrário, com a criação de um preço mínimo, o cliente seria “encorajado” a escolher o designer com melhor qualidade.
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Agosto 16, 2006 • 1:52 am
Recentemente, a AND e a APD entraram em guerra aberta. Tudo começou com um mail da APD contendo uma petição para apresentar à Assembleia da República. Segundo a APD, esta “petição assinala[va] uma situação anómala: uma classe profissional geradora de mais valias para a economia e cultura do país, com cerca de 10.000 licenciados, não tem um código próprio no IRS, devendo os profissionais inscrever-se como artistas indiferenciados.” Se a reivindicação fosse bem sucedida, os designers deixariam finalmente de ser obrigados a escrever “Outros Artistas Plásticos” nos seus recibos verdes, o que pode parecer insignificante a um não-designer, mas aliviaria uma das angústias existenciais do designer, que consiste em ser confundido regularmente com “artistas” e “arquitectos”.
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Novembro 2, 2005 • 2:31 pm
O ponto de vista tradicional e aceite afirma que a crítica e a teoria do design gráfico se devem centrar sobre a personagem heróica do designer ou sobre a entidade colectiva do atelier. Se tomarmos estas duas figuras e as suas variações como pontos assentes, sujeitos a pequenas variações pontuais mas essencialmente estáveis, este texto podia parar aqui. No entanto, é minha convicção que estas figuras não são nem tão estáveis nem tão centrais como poderia parecer, sobretudo se levarmos em conta as ambições mais alargadas da própria disciplina.
O que se segue é uma enumeração não exaustiva de dúvidas e argumentos sobre a prática profissional do designer como origem e objecto da actividade teórica da disciplina.
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Outubro 20, 2005 • 12:26 am
Uma das primeiras vezes que tive consciência da importância da tipografia na leitura de um livro aconteceu quando li o Moby Dick do Herman Melville. Foi um processo aventuroso que levou alguns meses e três edições diferentes. A primeira foi uma Penguin Popular Classics, com capas beges, que acabei por perder numa mudança de casa. Para não perder o ritmo, substitui-a por uma edição da Wordsworth Classics que durou mais algum tempo. A história era agradável e estimulante, mas a leitura em si era cansativa. O entrelinhamento era demasiado curto, a impressão esborratada. Tudo contribuía para uma mancha de texto pouco uniforme. Raramente conseguia ler mais do que uma dúzia de páginas de cada vez. Em desespero de causa, acabei por comprar uma edição anotada da Penguin Classics, de capa preta, muito bem paginada e impressa, com boas hierarquias e boas margens, que li de um fôlego. (O próprio enredo abordava questões de design de livros. Moby Dick é um livro tão obcecado por livros como por baleias. A certa altura estas chegam a ser classificadas por ordem de tamanho como se fossem livros: havia baleias folio, octavo, duodecimo.)
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A designação “designer gráfico” incomoda certas pessoas, sobretudo quando é abreviada para “gráfico”. Por exemplo, o Departamento de Design da Fbaup é muitas vezes chamado o Departamento de Gráficas pelos serviços administrativos, provocando algum ranger de dentes por parte de alguns professores.
Se a expressão “designer gráfico” é, como tudo na vida, uma mera tradução do inglês, porque é que incomoda tanto neste caso? Talvez porque parece a descrição de um sujeito que lida com as “Gráficas”, uma coincidência estúpida que só acontece na lingua portuguesa.
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