Julho 10, 2009 • 12:05 am

Há uns anos, terminava a minha tese de mestrado, um trabalho longo e exigente que implicava longas horas a escrever e outras tantas a programar. Na altura, andava bastante interessado no género de objectos de programação produzidos por John Maeda ou Ben Fry, coisas orgânicas mas elegantes, que reagiam ao toque como se estivessem vivas. Era costume passar noites em branco em frente ao computador a tentar resolver uma ou duas linhas de código mais teimosas, e pouca coisa lia que não tratasse de programação, matemática, computadores ou história da cultura digital – de outro modo, sentiria que estava a trair o meu trabalho para o mestrado.
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Quando uma espécie que se julgava extinta há muito, por vezes só conhecida através de fósseis, aparece viva e de boa saúde, há duas explicações possíveis. A primeira – e mais simples – é que a espécie nunca esteve realmente morta; evitou sensatamente os seres humanos, talvez durante milénios, acabando no final por ser “apanhada” – a estas espécies, porque voltaram de entre os mortos, chama-se espécies Lázaro. A segunda explicação é mais complicada, mas também mais interessante: pode não se tratar de uma única espécie, mas de duas espécies distintas: uma realmente extinta e outra que se tornou, por coincidência evolutiva, semelhante à primeira – estas são as espécies Elvis, porque tal como o Rei, estão sempre a ser vistas em todo o lado, embora estejam – realmente, definitivamente – mortas.
Por um lado, isto lembra-me vagamente o enredo do filme de Christopher Nolan, The Prestige (não vou estragar o fim, mas envolve duplos e ilusionistas); por outro, lembra-me também a relação entre design gráfico e tipografia: o design assume-se como um descendente actual da tipografia, dando a entender uma linhagem ininterrupta desde Gutenberg até ao design mais recente. Mas será que a coisa é assim tão simples? Será o design um Lázaro da tipografia? Ou simplesmente um Elvis?
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Fevereiro 29, 2008 • 3:19 am

Os compradores, os vendedores, as administrações, as ruas, as pontes e os edifícios estão sempre a mudar, de tal modo que a coerência das cidades se sobrepõe, de alguma forma, a um fluxo perpétuo de pessoas e estruturas. Tal como a onda estacionária em frente de uma rocha num rio com uma corrente rápida, uma cidade é um padrão no tempo.
John H. Holland, A Ordem Oculta
A minha parte favorita do Sim City é a chegada das pessoas. Depois de escolhido o terreno, traçadas as ruas, instaladas água e luz, só precisamos de ligar uma estrada à cidade mais próxima e as pessoas aparecem, quase demasiado pequenas para serem vistas, quase do tamanho de pixeis, meros pontos coloridos – só então as casas e fábricas se começam a erguer e os carros a passar. Projectamos, assim, uma cidade e ficamos à espera que a vida desça sobre ela vinda de outro lugar, como uma criança que pendura um ninho numa árvore.
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Janeiro 25, 2008 • 2:26 pm

Desde que me lembro, nas salas de reuniões do edifício principal das Belas Artes do Porto estão pendurados os mesmos quadros, pinturas a óleo de modelos nus, tons de pele pálidos sobre fundos escuros, exercícios de aulas de figura humana de há muitas décadas atrás. Nos momentos mais difíceis das reuniões mais aborrecidas, encontrei sempre algum consolo irónico neles, em particular numa pequena pintura quase impressionista de Prometeu com o seu fígado a ser devorado por uma águia.
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Outubro 4, 2007 • 2:08 am

O primeiro Photoshop que usei foi o 1.0.7, que corria num Macintosh IIfx na velha sala de computadores das Belas Artes. Com a ajuda de um colega mais experiente, digitalizei uma fotografia a 150 dpi, uma tarefa que levou pouco mais de meia hora, gasta sobretudo em tempo de espera. Atrás de mim, uma fila de cinco ou seis colegas olhava com desconfiança para a barra de progresso que se tinha imobilizado há alguns minutos. Os mais fatalistas opinavam de vez em quando que o computador tinha “crashado”, embora tudo tenha acabado por correr bem.
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Julho 17, 2007 • 11:49 am

No começo da década de noventa, quando era aluno dos primeiros anos do curso de design nas Belas Artes do Porto, nunca tinha muito dinheiro, mas preferia saltar uma ou duas refeições em vez de deixar escapar um livro mais tentador. Costumava percorrer as livrarias do Porto à procura de livros usados, sobretudo de banda desenhada e, às vezes, depois das aulas, ia à livraria Diário de Notícias, ao fundo da rua 31 de Janeiro, ver o expositor de fanzines. Pelos padrões actuais, eram objectos toscos, fotocopiados a preto e branco, escritos à mão ou à máquina – em geral, apenas um maço de folhas com dois ou três agrafes de lado. Os mais experimentais eram fotocopiados com tinta azul ou vermelha, sobre papel colorido ou reciclado.
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No começo da Revolução Industrial, os métodos de trabalho de tecelões e armeiros foram racionalizados, divididos em tarefas simples e posteriormente automatizados, incorporados em máquinas que podiam ser produzidas em massa, compradas e vendidas.
Os designers que se consideravam homens de ideias, criativos especializados na manipulação de certo tipo de significantes, achavam que estavam imunes a este tipo de mudança.
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