The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Loja dos 400

Há quem diga, sem óbvio conhecimento de causa, que este governo não vê com bons olhos as actividades criativas. Até seria verdade, se não fosse aquela coisa altamente criativa da “criação de emprego”. Veja-se por exemplo o programa Estímulo 2012 que se oferece para subsidiar empresas que contratem desempregados inscritos num centro de emprego há mais de seis meses, pagando-lhes metade do salário até um limite máximo de 419,22 euros.

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Palavras

A opinião pública alimenta-se de chavões: a Austeridade é um dos mais proeminentes. Numa só palavra, invoca-se poupança, responsabilidade e ascetismo moral. Na prática, tem resultados muito distintos para pessoas distintas.

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O Estigma

Ainda a propósito das declarações do Primeiro Ministro sobre o desemprego não ser um estigma mas uma oportunidade. Tendo em conta a quantidade de desemprego jovem, deveria ter acrescentado talvez que deveria ser também uma formação – afinal, sabe-se que o desemprego ou o emprego precário durante longos períodos, especialmente em começo de carreira, tende a ser realmente um estigma, na medida em que, estatisticamente, acaba por definir uma carreira igualmente precária e insegura. Empregos estáveis ensinam a estabilidade; a precariedade ensina a precariedade. Mesmo no caso dos mais velhos, é esse o caso.

Assim, para que as declarações do Primeiro Ministro fossem mais do que platitudes, seriam precisas medidas concretas no sentido de tornar esse desemprego numa oportunidade.

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Governar pelo exemplo

Pelas declarações do Primeiro Ministro confirma-se mais uma vez que a) não percebe nada de desemprego b) não percebe nada de emprego. Devia voltar à sua zona de conforto discursiva, que consiste em declarar pesarosamente a sua compreensão pelos sacrifícios que os portugueses passam. Ao menos, isso teria um efeito semelhante ao daquele quadro onde a legenda da imagem de um cachimbo declara que aquilo não é um cachimbo.

Dizer que o desemprego é uma oportunidade é dizer que os desempregados portugueses, 15% da população, estão desempregados pela sua própria falta de imaginação e não pela falta de investimento, de emprego e de uma estratégia para a criação de emprego. A coisa ainda fica mais ofensiva quando se sabe que, para estes 15% por cento de desempregados, conta apenas quem está à procura activamente de emprego.

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Os Efeitos do Desemprego na Procura, Explicados às Criancinhas

Desta vez, o Tio Patinhas encontra um moinho mágico que produz em massa tudo o que quiser, sem parar, até lhe pedir para produzir outra coisa. Depois de produzir dinheiro, ouro e jóias, Patinhas decide despedir todos os trabalhadores das suas fábricas substituindo-os pelo moinho. Mais uma vez Donald demonstra saber um pouco mais de macroeconomia do que o tio e percebe de imediato o problema. Patinhas ainda tenta o Assistencialismo, oferecendo os desperdícios de produção, neste caso sopa, aos desempregados, sem grande sucesso. No final, os sobrinhos pedem ao moinho para produzir sal e atiram-no ao mar. Se até um Pato consegue perceber isto, porque não um Coelho?

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A Crise Explicada às Criancinhas

Obviamente, o Tio Patinhas representa o Passos, o Gaspar, os Bancos e a Senhora Merkel. Afinal a sua estratégia é preferir arranjar maneira de ganhar um bilhão em vez de gastar cem cruzeiros a pagar a um vidraceiro, assegurando-lhe um emprego. Durante, o resto da historia Patinhas tenta (em vão) arranjar o dinheiro com a ajuda de uma civilização de patos minúsculos extra-terrestres (o que só reforça a analogia). A cara do Donald representa a minha própria sempre que abro o jornal pela manhã.

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Despromoção

Assim, e de acordo com o Público, Soares dos Santos distancia-se da promoção dos seus próprios supermercados, argumenta que lhe saiu caro e desconhece haverem queixas de produtores a quem está a ser apresentada a factura da brincadeira. Entretanto, já se provou que houve realmente dumping – que SdS também admite ser possível mas apenas por engano. Tudo isto dá a entender demasiado desconhecimento ou, mais provavelmente, muita cara de pau.

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O Canário

Tem-se falado muito do papel que o design poderá ter nesta crise, no sentido em que ajudará talvez a resolvê-la, mas acredito cada vez mais que será ao contrário: que a crise ajudará talvez a resolver o design.

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A Indústria do Desemprego II

Ainda de acordo com Gaspar, o tal desemprego inesperado deve-se aos “elementos de rigidez no mercado de trabalho que se acumularam ao longo dos anos [e que] terão tornado a situação de ajustamento mais difícil num cenário económico particularmente exigente”. Não é explícito mas calculo que essa rigidez sejam os direitos adquiridos resolvidos pela recente “flexibilização” do mercado de trabalho – que se pode resumir em ter tornado mais fáceis e baratos os despedimentos. O argumento usado até agora é que era a tal rigidez que criava o desemprego. Entretanto foi eliminada, e o desemprego continua a crescer. Em vez de tirar a conclusão lógica (que não é essa a causa), Gaspar diz que ainda são os vestígios da dificuldade de despedir que estão a provocar o desemprego. É um argumento que vale a pena ser repetido: que se fosse mais fácil ainda desempregar, o desemprego desceria. É claro que pode haver outra causa, por exemplo o facto de haver cada vez mais gente desempregada, que gasta cada vez menos dinheiro no que quer que seja, faz com que as empresas e o comércio tenham menos a quem vender, e acabem por ter que despedir ou simplesmente falir, piorando cada vez mais a situação. Não adianta ser fácil despedir, se ninguém contrata.

(Já que não é possível desvalorizar o Euro, resta-nos talvez a possibilidade de desvalorizar a própria Alemanha. Porque não exportar Gaspar para lá, já que gostam tanto dele? Em dois tempos punha aquilo tudo ao nosso nível.)

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Argumentos a 50% de desconto

Uma das linhas de defesa dos nossos ultraliberais a propósito do Pingo Doce é “Qual é o problema? Afinal a Ryan Air, a Ikea e até a Feira do Livro têm promoções com 50% de desconto ou mais e ninguém se queixa.” As situações não são evidentemente comparáveis.

Em primeiro lugar, porque num Pingo Doce compram-se sobretudo produtos de primeira necessidade – ao contrário de uma viagem de avião, de uma peça de mobília ou de um livro. Depois, porque não se tratou de um desconto num determinado produto mas um desconto generalizado – tanto era aplicado a fruta como a electrodomésticos como a livros. Não é possível portanto comparar todas estas situações apenas porque têm escrito em algum lado 50% de desconto.

Mas não se pode compará-las sobretudo pelos seus custos para a sociedade. Leia o resto deste artigo »

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O quê? Ainda há trabalhadores em Portugal?

“Teremos de estar preparados para nos próximos dois ou três anos viver com níveis de desemprego a que não estávamos habituados, porque ele não vai baixar imediatamente”, dizia Passos Coelhos perante uma audiência de Trabalhadores Sociais Democratas em pleno Dia do Trabalhador.
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Brandos Consumos

Ao fim da manhã em Santa Apolónia, a caminho do Porto, entrei no Pingo Doce da estação com mochila às costas e arrastando a mala de rodinhas a rebentar de tão cheia. Mal entrei, arrependi-me. Na primeira caixa, um indiano aguardava a sua vez ao lado de oito cestas de mão alinhadas umas atrás das outras. Nas caixas seguintes ainda era pior. Eu só queria umas barras de cereais para a viagem. Não fazia ideia da promoção e assumi que era gente a fazer compras para o almoço. Saí imediatamente, alçando a bagagem sobre os carrinhos de compras.

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2 + 2 = 0

Hoje li no Público uma notícia que descrevia como Vítor Gaspar, no encerramento da conferência Growth and Competitiveness under Adjustment (“Crescimento e Competitividade no âmbito do Ajustamento”), a decorrer na Fundação Calouste Gulbenkian, tinha dito que  “os receios de uma recessão mais profunda não se concretizaram em 2011” mas que os níveis de desemprego preocupavam porque são mais altos que o previsto. Ou seja, a economia até nem está assim tão mal como isso, tirando todos aqueles desempregados imprevistos, coitaditos.

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A economia doméstica

Para a direita, tornou-se habitual comparar as dívidas de um país com as de uma família, enquanto para a esquerda já é rotineiro mostrar que a comparação é descabida. É uma diferença de opiniões central e talvez irredutível.

Enquanto uns acreditam que não há (ou não deveria haver) Estado, apenas a soma de famílias e empresas, os outros acreditam que o Estado não só é mais do que a soma das partes como assegura funções que nenhuma família ou empresa conseguiria assegurar.

Porém, ao reflectir sobre a dívida pública portuguesa se calhar até é útil pensar nela como a de uma família para com o seu banco. Não uma família actual, mas uma daquelas famílias esforçadas dos anos 60 e 70, que levavam as suas hipotecas mais do que a sério, como um fardo moral, quase uma sentença judicial.

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Pobres mas honrados

Assim, diz o Diário Económico que a nossa despesa pública está abaixo da média europeia. Dizem também que a dívida é das maiores. Quem ainda se dedica ao neoliberalismo concluirá que estamos no bom caminho mas que é preciso cortar ainda mais. Quem prestar atenção ao que os perigosos comunistas do Fmi andavam a dizer na semana passada percebe que não são boas notícias.
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Comunidade

Tanto as escolas como os hospitais, como os transportes públicos, como até os cinemas, para além das suas funções mais óbvias, costumavam servir de suporte a comunidades. Para isso, é claro, não podiam ser demasiado eficientes a fazer as tais funções – não podiam servir áreas demasiado amplas, ter uma grande escala, muitos utentes, alunos, público. Ou seja, a sua falta de eficiência era sobretudo económica.

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Governo insiste que austeridade ainda está na moda

Depois do Fmi ter avisado mais uma vez que “demasiada austeridade pode ameaçar” a recuperação, o Governo vem dizer que não, que em Portugal isso não se pode aplicar. Porquê? Porque, de acordo com Gaspar, as políticas expansionistas (ou seja de aumento de despesa pública) de José Sócrates conduziram ao actual défice. Não é exactamente verdade, como a comparação com outras economias em crise demonstra. Quando tudo isto começou, Espanha e Irlanda eram bons exemplos de responsabilidade económica, e Portugal estava a reduzir o seu déficit. E, de resto, Sócrates não caiu por causa do déficit mas por causa do chumbo do Pec IV, uma aproximação bastante modesta às medidas que este Governa está a pôr em prática.

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Externalidades

Esta crise pôs-me a ler sobre economia, numa tentativa de perceber o que a motivou e o que está a ser feito para a combater. Microeconomia e macroeconomia, oferta, procura, custo marginal, produto interno bruto, ciclo de negócios – aprendi lentamente um novo vocabulário e uma nova disciplina.

Também descobri que boa parte do que me preocupa  – a cultura mas também o meio ambiente – vem arrumado num capítulo dedicado ao que os economistas anglófonos chamam Externalidades, custos e benefícios de uma determinada actividade que não podem ser facilmente medidos em dinheiro e que portanto se situam do lado da fora da disciplina, no seu exterior, sendo medidos em termos do seu impacto na sociedade.

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Disciplina de Voto

É um conceito que sempre me irritou. Que, com toda a certeza, é um dos factores que mais afasta as pessoas dos políticos e os políticos das pessoas. Se os votos fossem realmente livres, sempre, um partido era apenas uma espécie de etiqueta que marcava uma série de interesses e orientações mais ou menos comuns. Valeria a pena um grupo de cidadãos tentarem convencer uns tantos políticos, não interessa o partido, a apoiarem um projecto. Do modo como as coisas estão, ou se convence o partido do poder – quem o dirige – ou nada feito.
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Novidade nenhuma

Escrito aqui há quase seis meses (e na altura já não era novidade nenhuma):

“O FMI, por exemplo, tem revelado um cepticismo crescente em relação às medidas de austeridade e estava disposto a oferecer ajuda a uma taxa de juro menor. A pressão em contrário veio da União Europeia e BCE. Essa diferença poderia ter sido explorada, mas mesmo agora passa desapercebida, sobretudo nas manifestações, onde o FMI é bem mais atacado que o BCE, não apenas por culpa do José Mário Branco, mas por todo o passado realmente sinistro da instituição. Porém actualmente poderia ser talvez um aliado, daqueles que não se precisa de gostar.”

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Mário Moura

Escrevo regularmente sobre design há cerca de oito anos.

Já escrevi para as revistas Unidade, [up] arte, Insi(s)tu, Quadrado, Margens & Confluências, Slang, Dif, Satélite Internacional, Ar Líquido, Mono, para o blogue inglês Limited Language e para os jornais Público e i. Escrevi uma introdução para uma monografia sobre os Barbara Says, editada em França, pela Pyramid. Publiquei o livro Design em Tempos de Crise, editado pela Braço de Ferro, uma antologia de textos sobre política e design.

Participei em conferências sobre design nas Belas Artes do Porto, nas Belas Artes de Lisboa, na Esad das Caldas da Rainha, na Esad de Matosinhos, na Experimenta Design e no ciclo Ag – Prata.

Dou aulas de História e Crítica do Design e de disciplinas relacionadas com teoria da imagem, tipografia e book design nas Belas Artes do Porto.

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