Uma sensação perigosa, quando se escreve crítica de design, é a de progresso, que as coisas avançam e melhoram, que já se escreveu sobre certos assuntos há uns anos e que portanto se encontram resolvidos, e que se pode passar a coisas mais interessantes, mais complexas – melhores, enfim. Um dos assuntos a que acabo sempre por voltar, para minha desilusão, é o anti-intelectualismo institucional do design, que não é uma coisa básica e primitiva, mas uma construção complexa com muitas nuances e níveis e à volta da qual se elabora a própria identidade do design enquanto profissão e mesmo disciplina. Por vezes, pergunto-me se será possível extrair o anti-intelectualismo do design – ou pelo menos parar o seu avanço – sem matar o paciente.
Setembro 2, 2009 • 10:54 pm 37
196?-2159

Para nós que damos aulas, o ano começa e acaba no Verão. O ano novo é aquela ocasião em que temos a primeira reunião, ficamos a conhecer o nosso horário, os nossos alunos. No estado em que o ensino superior português está, não é uma ocasião para festas. Tornou-se uma mera burocracia girando apropriadamente à volta de umas coisas chamadas créditos, uma espécie de sistema monetário que permite comparar tipografia com autópsias com nutricionismo com história com agricultura.
Junho 24, 2009 • 12:05 am 5
Anos 90

Tenho andado com uma nostalgia cada vez maior pelos anos 90. Ponho-me a ver pela noite fora os primeiros filmes do Tarantino, incluindo os seus derivados mais fracos, como o True Romance, ou o mal envelhecido Natural Born Killers, subproduto óbvio da moda dos serial killers, que começou com O Silêncio dos Inocentes, se prolongou pelo Se7en e pelo Kalifornia, e cujos efeitos ainda hoje se sentem.
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Junho 17, 2009 • 12:05 am 5
A grande barreira
Não me lembro onde o li, nem quem o escreveu, muito provavelmente não é algo confirmável, apenas outra daquelas lendas urbanas do design, mas aparentemente, no meio da informação da embalagem de um iogurte, a seguir a uma linha que avisava que em certas condições “alguma separação podia ocorrer”, aparecia um pequeno asterisco. Procurando com muita atenção podia encontrar-se, do outro lado da embalagem, impresso num corpo quase pequeno demais para ser lido, a nota que o asterisco referenciava: “mas o papá e a mamã ainda gostam muito um do outro.”
Era daquelas coisas que só um designer podia fazer, à última da hora, mesmo antes do trabalho ir para a gráfica, depois de passar por todas as revisões possíveis. Quase conseguimos imaginá-lo, num momento de cansaço, de humor ou daquele género de rebeldia que só quem já trabalhou num grande escritório compreende.
Junho 11, 2009 • 12:05 am 5
Saber discutir

Surpreende-me que frequentemente se desvalorize uma opinião apenas por ser uma opinião. “É só uma opinião”, diz-se. Ou então, mais grave: “Há opinião a mais”.
Ao dizer-se coisas deste género, está-se a estabelecer uma oposição implícita entre opiniões e factos – uma opinião é falível, enquanto um facto é sólido. Contudo, isto é apenas uma forma de dar a entender que as nossas opiniões são factos, enquanto as das pessoas com quem discordamos são apenas opiniões.
Os designers gráficos, por exemplo, são por vezes treinados na escola para verem o design como algo indiscutível, que basta mostrar o design a um cliente para que este não tenha outro remédio senão ficar convencido – o design é um facto e contra factos não há argumentos.
Abril 2, 2009 • 12:05 am 5
A Aldeia Potemkin
Não sei porquê, em Abril toda a gente quer textos – para revistas, para livros, para exposições – e a coisa tende a acumular. Neste momento, terminei quatro textos e estou a acabar um quinto. Para a semana tenho de fazer mais outro (sem contar com o post semanal). Além disso, o meu mail acumula-se em quantidades ainda mais estúpidas que o costume.
Fevereiro 26, 2009 • 12:05 am 0
Opinião Pública
Nos comentários a um dos posts que escrevi sobre a nova imagem de Serralves, foi sugerido que escrevesse uma carta aberta a um jornal protestando a situação. Depois de ponderar bastante, acredito que essa não é a solução. Afinal, não se trata de um problema ético ou legal, mas crítico. Seria tão desadequado como escrever uma carta aberta sobre a qualidade de uma das exposições de Serralves.
Novembro 20, 2008 • 12:05 am 6
Os Básicos

O que faz de alguém um designer gráfico? Muita gente acredita que um curso universitário é o requisito mínimo; outros acham que basta saber os básicos, aprendendo, por iniciativa própria ou por necessidade, aquilo que um curso ensina.
Mas o que são exactamente esses básicos? Tipografia? Ilustração? Ou talvez tecnologias específicas, como o Photoshop, o InDesign ou o Illustrator? Há quem acrescente a História à lista; outros acrescentariam a economia ou a contabilidade.
De qualquer das formas, os básicos, como o nome indica, não correspondem a tudo o que um designer pode saber, mas ao mínimo que precisa de saber.
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Novembro 6, 2008 • 1:05 am 21
O Negócio Perfeito

Enviaram-me este link para um anúncio oferecendo “dois estágios não remunerados a recém-licenciados nas áreas de Design de Comunicação ou similar”. Pedem-se “cromos que dominem, ou estejam a caminho, os adobes”. Depois, se “os estágios correrem bem, podem sempre ficar por cá a fazer um estágio profissional”. Finalmente, “se os estágios profissionais ….” (termina assim).
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Setembro 4, 2008 • 1:00 am 13
Coisas com Piada

A minha carreira profissional começou na Banda Desenhada. Foi aí que fiz os meus primeiros trabalhos pagos, o que pode parecer estranho num país como Portugal, onde muitas coisas – como a BD, as artes em geral e, claro, o Design – não costumam ser pagas pelo simples facto de não se parecerem com coisas que costumam ser pagas.
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