The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Inovação Pimba

Já o tinha dito por aqui umas tantas vezes, mas o que assusta nesta versão portuguesa da crise é o apagamento de umas tantas décadas de cultura, com gerações inteiras a voltarem ao mesmo tipo de negócios que os seus bisavôs e trisavôs: tascas, mercearias, artesanato, bibelôs, tudo adjectivado de “urbano”,  tudo com uma fina camada de design, com uma exposição de qualquer coisa pendurada a um canto, uma inauguração ou um djset de quando em quando. São o negócio e a cultura possíveis mas também uma espécie de desistência.

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Animais Iguais

Não é muito difícil ver uma tendência em tudo aquilo que aconteceu na vida pública portuguesa esta semana – nomeações suspeitas e mal explicadas de gente ligada ao governo para uma empresa pública privatizada, autarcas que devem um monte de dinheiro a uma empresa pública são nomeados para a administração dessa empresa, ex-ministros que promovem a carreira artística dos seus filhos de modo pouco claro, sociedades secretas, etc. Qualquer que seja o nome que lhes damos, clientelismo, caciquismo, amiguismo, nepotismo, são situações em que alguém se aproveita das suas relações privadas, pessoais, para de algum modo se favorecer a si mesmo e aos seus à custa do interesse público.

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Design de Luxo

A propósito das participações portuguesas na Millionaire Fair de Amesterdão, “um dos eventos mais exclusivos e dominantes do sector do luxo” e da declaração de Carlos Aguiar sobre esse assunto, gerou-se uma discussão acalorada com várias frentes, sobre, por um lado, a contradição deste design de luxo estar a ser produzido por estagiários não-remunerados, e sobre – assumindo que este design de luxo está a ser pago justamente – a própria moralidade de haver um design de luxo.

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Maus Hábitos

Não foi o design que nos trouxe esta crise, mas será sem dúvida uma das profissões mais afectadas por ela, pelo menos em Portugal. Sempre foi uma área muito dada à precariedade, ao ponto desta estar firmemente embutida no ciclo natural de vida do designer, onde se espera que a grande maioria passe por um estágio não-remunerado entre a universidade e uma carreira a sério.

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João Duque na Praia

Desde que entrei na vida adulta, tendo-me especializado numa daquelas áreas que ainda agora se costuma associar ao trabalho intelectual – o ensino e investigação universitários das artes –, que me fui habituando à presença de certo tipo de figurinha que sobe imperceptivelmente nas hierarquias como um bolor que se entranha. Habitualmente, esquiva-se à discussão: se uma votação os contradiz, acabam por fazer aquilo que lhes interessa por vias travessas, almoçando com algum amigo que trabalha na reitoria. A democracia para eles, é uma formalidade e um empecilho.

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Utilidade negativa

Tal como há um conceito de espaço negativo no design, deveria haver talvez uma forma de utilidade negativa, não o mesmo que inutilidade, mas uma utilidade apontada numa direcção diferente, que contrabalançasse a obsessão actual pela prática, em acreditar que fazer é sempre melhor do que estar parado.

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Departamento de Futurologia Involuntária

Durante alguns anos, se alguém pesquisasse a palavra “merda” aqui no blogue iria dar a um pequeno texto escrito há quase exactamente sete anos chamado “Não há condições” (assim mesmo, entre aspas). Aqui fica ele na íntegra:

Já ouvi alguns designers mais “velhos e experientes” dizerem que ainda não há condições para haver crítica ou teoria do design em Portugal. Às vezes, até acrescentam solenemente “Talvez daqui a dez anos”. É um ponto de vista interessante e conhecedor que devemos levar em conta; só tenho uma pequena dúvida: estão à espera que os Alemães (ou os Ingleses ou os Americanos) invadam esta merda e ponham tudo a funcionar?

A verdadeira crítica nunca espera pela boas condições. Responde sempre aos problemas do momento actual e do lugar presente. Dizer que é preciso esperar pelas condições ideais para haver crítica é uma contradição. Criticar só faz sentido quando as coisas correm mal.

A ausência de crítica leva a uma insatisfação asfixiante e nauseabunda a que algumas pessoas conseguem chamar “consenso”.

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Alguns pontos de ordem contra a Ordem

Sou contra a formação de uma Ordem dos Designers e já há uns anos que tenho escrito sobre o assunto, mas talvez seja útil fazer uma lista dos argumentos que me levam a discordar.

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Concerto para boca e botija, acompanhadas pelo violino mais pequeno do mundo

“Por decisão pessoal minha, amanhã mesmo, vou formalizar a renúncia a este direito que a lei me dá”, foi o que disse Miguel Macedo, justificando-o porque não quer “perder um minuto com uma polémica deste género.” O artigo de jornal só refere este argumento que por sinal é péssimo, demonstrando uma mentalidade que se preocupa mais com as formalidades da vida pública, com a letra da lei do que com a ética: tudo indica que o fez para acalmar uma polémica e não porque ache que é uma decisão honrada, inevitável mesmo.

Mesmo esquecendo por um momento que ainda há uma semana se forçou cerca de um milhão de pessoas a abdicarem de uma boa fracção dos seus vencimentos, a que têm direito por lei e por constituição, impondo flexibilidade, austeridade e espírito de sacrifício com a ameaça não muito velada que a alternativa seria o despedimento em massa. Mesmo esquecendo isso tudo, e o mau exemplo que é ter um ar impaciente quando apesar de ter a lei do seu lado, se abdica desse direito “por questões pessoais” e não devido às tais flexibilidade, austeridade e espírito de sacrifício. Mesmo se não houvesse crise nenhuma e Portugal fosse tão rico que a gasolina era gratuita, ainda assim seria difícil vislumbrar a ética de aceitar um subsídio de alojamento por não ter “residência permanente na cidade de Lisboa ou numa área circundante de 100 km”, quando se tem uma casa em Lisboa.

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A ética democrática em Thoreau

De acordo com a data e o preço em escudos nos bilhetes de autocarro guardados lá dentro já não lia o Civil Disobedience de Henry David Thoreau pelo menos desde 1998. Confesso que quando o recomecei a ler, as primeiras frases me desiludiram, ao argumentarem que o melhor Governo é aquele que não governa de todo.

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Erudição Implacável

“Testemunhar uma situação lamentável quando não se está no poder não é, de modo algum, uma actividade monótona e monocromática. Envolve o que Foucault chamou, em tempos, de ‘erudição implacável’, esquadrinhando fontes alternativas, exumando documentos enterrados, revivendo histórias esquecidas (ou abandonadas). Envolve um sentido do dramático e do insurgente, aproveitando ao máximo as raras oportunidades que se tem para falar, cativando a atenção da audiência, sendo-se melhor no humor e no debate do que os oponentes. E existe algo fundamentalmente instável nos intelectuais, os quais não têm lugares para proteger nem território para consolidar e guardar; a auto-ironia é, por isso, mais frequente que a pomposidade, a frontalidade melhor que a hesitação ou os gaguejos. Mas não há como evitar a realidade inescapável de que tais representações feitas por intelectuais não lhes vão trazer amigos em altos cargos, nem conceder honras oficiais. É uma condição solitária, sem dúvida, mas é sempre melhor do que uma tolerância gregária para com o estado das coisas.”

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Fraude Académica, SA

Como de costume, nada de surpreendente embora muito, muito preocupante: na última Visão,* uma reportagem sobre a fraude académica em Portugal, com histórias escabrosas de estagiários que, ao aceitarem um emprego a recibos verdes numa empresa de “apoio à investigação”, descobriram que andavam a ser (muito mal) pagos para fazerem a investigação toda, trabalhando em autênticas fábricas do canudo, onde bastava o aspirante  a doutorado deixar o tema e a bibliografia, pagar um ou dois milhares de euros e ir buscar no fim a tese, ainda a fumegar,  às vezes na manhã do dia da entrega.

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O Portugal dos Pequenitos do Sr. Passos

Quando vi a notícia, quase escondida no canto de baixo do Público nem queria acreditar, pensei que era dia das mentiras ou até um daqueles anúncios bem disfarçados de notícias que às vezes aparecem nas primeiras páginas dos jornais e só se identificam como publicidade por uma legenda discreta imposta pela lei.  Neste caso, não havia legenda nenhuma, era mesmo a realidade que estava a ser patrocinada e não o seu relato: iam mudar o nome da estação Baixa-Chiado para PT Bluestation.

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“Design in Business Printing”

Dentro do design, há quem veja a tipografia como um livro de leis ou, pelo contrário, como um código ético. No primeiro caso, usam-se à risca os preceitos, invocando Bringhurst ou Tschichold para tomar decisões como se fossem alíneas no Diário da República. No segundo caso, cada decisão é pesada e adaptada a cada momento, tornado-se numa responsabilidade pessoal de quem a toma, mesmo quando é apoiada nas decisões de terceiros.

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Entre a lei e a ética

“it’s legal” is what people say when they don’t have ethics. the law is there to set the limit of what is punishable (aka where the state needs to intervene) but we are supposed to have ethics, and that should be the primary guiding force in our actions, you fucking fuck.

LCD Soundsystem (via)

Uma das coisas que me irrita mais é o conforto com que muita gente vive entalada naquela nesguinha apertada entre a lei e a ética. É lá que fica a Chicospertilândia, um país com lei, constituição, governo e polícia, mas onde a ética pura e simplesmente não existe.

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O Contexto do Design Português e Como Falar Dele

A história é comum ao ponto de se tornar trivial: um designer qualquer assume um cargo público que não tem directamente a ver com a prática do design, e acaba um dia a fazer ele mesmo o design da instituição, não por isso fazer parte das competências do seu cargo, mas porque é um designer que – além de o ser – exerce um cargo público. Esse designer hipotético estaria a ser pago duas vezes para fazer duas actividades distintas. No fundo, funcionaria como duas pessoas, trabalhando uma para a outra, o que levanta uma questão: para quem iria a sua lealdade em caso de conflito – para a instituição ou para o seu próprio interesse enquanto designer praticante? Por outras palavras: se a decisão dependesse apenas dele, o designer despedir-se-ia se a instituição achasse que precisava de um designer mais barato? Ou se a instituição decidisse produzir internamente o seu próprio design? Em qualquer outra profissão esta situação seria considerada um conflito de interesses. No design, é uma história banal. Toda a gente conhece uma ou duas.

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Pelos Ajustes

À primeira vista dá a sensação que um ajuste directo é menos democrático do que um concurso, mas será que isso é verdade? Quais são as vantagens de cada um destes processos de decisão?

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Trabalho a sério

Há assuntos aos quais preferia nunca mais regressar, mas, sendo isto um blogue – cada texto enterrando cada vez mais fundo os anteriores – torna-se necessário voltar a questões que, infelizmente, vão mantendo a sua actualidade. Esta semana, por exemplo, li um artigo no New York Times descrevendo a maneira como, numa época em que as oportunidades de emprego são cada vez mais reduzidas, o aumento dos estágios não remunerados levou a que o governo americano suspeitasse que muitos empregadores os estavam a usar como trabalho ilegal.

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Modinhas

É costume dizer-se que o design gráfico é uma actividade interdisciplinar, mas o que quer isso dizer realmente? Que está aberto a todo o tipo de conhecimentos ou experiências? Esta não é uma resposta particularmente interessante ou esclarecedora, na medida em que dá a entender que o design aceita tudo e todos de braços abertos, enquanto, na verdade, seria talvez mais rigoroso afirmar que escolhe bem os seus aliados, pesando bem o que pode ficar a ganhar com a ligação. Algumas disciplinas são bem-vindas enquanto outras nem por isso – ninguém gosta de ouvir dizer que aquilo que faz tem pontos comuns com o secretariado, por exemplo, mas toda a gente gosta de se associar ao cinema, à fotografia ou à literatura.

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Maus empregos

Ultimamente, as pessoas vão-se apercebendo que o design é um mau emprego, no sentido em que ganhar algum dinheiro com isso é muito difícil. Lendo os currículos de jovens designers, gente com menos de trinta anos, isso é dolorosamente palpável. Os mais novos já fizeram, na melhor das hipóteses, uma enfiada de estágios informais ou profissionais sem que disso tenha saído dinheiro ou emprego. Os mais velhos têm experiências mais variadas. Alguns trabalham no atelier de um nome conhecido, cumprindo tarefas de modo competente, criativo, mas essencialmente anónimo. Se tivessem uma oportunidade de tentar a sorte por si mesmos, numa coisa mais criativa, lá fora, por exemplo, não se importavam de tentar, mesmo que isso implicasse perder o emprego. Outros seguem a via da investigação, sustentando-a com uma enfiada de bolsas mais ou menos bem pagas, mais ou menos precárias. As mais curtas podem durar semanas, as mais longas três ou quatro anos. Se acabam, nem subsídio de desemprego têm. Outros ainda fazem design freelance, mal pago, sustentado por outro género de actividade – dar aulas, vigiar exposições, etc.

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Mário Moura

Escrevo regularmente sobre design há cerca de oito anos.

Já escrevi para as revistas Unidade, [up] arte, Insi(s)tu, Quadrado, Margens & Confluências, Slang, Dif, Satélite Internacional, Ar Líquido, Mono, para o blogue inglês Limited Language e para os jornais Público e i. Escrevi uma introdução para uma monografia sobre os Barbara Says, editada em França, pela Pyramid. Publiquei o livro Design em Tempos de Crise, editado pela Braço de Ferro, uma antologia de textos sobre política e design.

Participei em conferências sobre design nas Belas Artes do Porto, nas Belas Artes de Lisboa, na Esad das Caldas da Rainha, na Esad de Matosinhos, na Experimenta Design e no ciclo Ag – Prata.

Dou aulas de História e Crítica do Design e de disciplinas relacionadas com teoria da imagem, tipografia e book design nas Belas Artes do Porto.

História Universal do: Estágio

O "Estágio"
O Negócio Perfeito
Maus Empregos
Trabalho a Sério
Design & Desilusão
"Fatalismo ou quê?"
Liberal, irreal, social
Conformismo
Juventude em Marcha
A Eterna Juventude
Indústrias Familiares
Papá, De Onde Vêm os Designers?
Geração Espontânea
O Parlamento das Cantigas
Soluções...

História Universal dos: Zombies

Zombies Capitalistas do Espaço Sideral
Vampiros, Zombies, Classe Média


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