The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Sociedade de Geografia

Atrás de uma porta grande mas discreta, mesmo a seguir ao Coliseu dos Recreios, fica a Sociedade de Geografia de Lisboa, um daqueles sítios que, visitado aos oito anos de idade, pode muito bem ser o causador de uma vida de aventuras e expedições, de lugares excêntricos e distantes, histórias antigas e meio esquecidas, artefactos e mapas, máscaras africanas e louças das Índias, com formas e funções que se foram perdendo.
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“Finanças Sãs e suas Consequências”

(via Miguel Soares no facebook, originalmente daqui)

Na foto de Mário Novais, um arranjo cenográfico imponente na exposição de Paris de 1937 a mostrar o equilíbrio das contas públicas conseguido por Salazar. O título do gráfico “Portugal País Equilibrado: Finanças Sãs e suas Consequências”, apoiado pela montagem fotográfica de soldados, marinheiros e de jovens a fazerem a saudação fascista, dá a entender que a obsessão pela saúde das finanças e aquela coisa da ditadura se calhar até estão ligadas. Ainda assim, bela solução em relevo quase abstracto para os gráficos que ladeiam a tabela central.

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Coralie Bickford-Smith

Só para confirmar que a exposição dedicada aos livros de Coralie Bickford-Smith é mesmo boa, com ideias de montagem muito interessantes que enfatizam as características de cada uma das colecções. A minha favorita é a dos livros de F. Scott Fitzgerald, com padrões abstractos estampados em cores metalizados.

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Um Livro não quer dizer “Edição”

Tem havido – felizmente – muita balbúrdia na área da edição independente. Nem falo da multiplicação das próprias publicações, dos eventos em que são lançadas, dos locais onde são vendidas, mas da sua recepção crítica e teórica. Por exemplo, chamei a este tipo de edição “independente” e tenho a certeza que muita gente achará a qualificação discutível, preferindo “edição alternativa”, “caseira”, “de pequena escala”, “nada disso”, etc.

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Silhuetas

Tirei-o da estante do alfarrabista à última da hora, quando já estava a pagar, pelo contraste extremo da lombada fina que me fez lembrar a do Printers and Designers. Com o desconto que me fizeram é provável que tenha sido gratuito – não sei, porque trouxe mais dois livros.

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Introduções aos Catálogos das Exposições de Design Português, 1977

Mandei-o vir pensando que era o catálogo da 1ª Exposição de Design Português organizada em 1971 pelo Núcleo de Design do Instituto Nacional de Investigação Industrial (INII) – era assim que estava anunciado. Interessava-me pelos textos de introdução, mas sabia que o catálogo da 2ª Exposição, feita dois anos depois, era mais completo.

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Resistir é um erro

São muito raras as ocasiões em que algo de verdadeiramente interessante acontece e mais raras ainda aquelas em que uma ideia é retomada pela segunda vez, acrescentando com isso o que quer que seja. São raros os segundos livros, os segundos filmes ou as segundas exposições que valem realmente a pena. Quando muito, acabam por funcionar como uma espécie de amostra de má qualidade, em contraste com a qual o original reluz melhor. A segunda edição do Close-Up é uma dessas raras ocasiões, ganhando em maturidade, segurança e economia por comparação com a sua instância anterior.

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Arte Política (com um gorrinho para o frio)

Agora andam na moda as exposições sobre conteúdos políticos, sociais ou independentes, se possível comissariadas pelas mesmas pessoas que se dedicavam a ser publicamente contra a ideia de expor conteúdos políticos, sociais e independentes. Calculo que, como de costume, tenham arranjado uma boa justificação para o volte-face e que acreditem que – agora que são eles a tentar – a coisa vai dar certo (Boa sorte). Pessoalmente, não vejo nenhuma contradição ou escândalo em pôr arte anti-institucional num museu – se cabe na porta, é porque pode entrar. A crença que a arte política perde o seu impacto quando está num museu é apenas mais uma maneira de afirmar o poder dos museus, galerias e instituições. Se a arte política ou independente ainda tiver alguma pertinência para além da documental não são com toda a certeza estas instituições que a vão dissolver. Do mesmo modo, se um objecto fosse verdadeiramente anti-institucional, não seriam os artistas ou os críticos a ditar se um museu deveria ou não expô-lo, mas o próprio museu nunca lhe iria tocar. Nem lhe passaria pela cabeça fazê-lo. Irritam-me profundamente aquelas figuras paternalistas que reclamam o papel de mãezinhas: ai que se for para o museu constipa-se, coitadinha.

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Designers que fazem design sobre designers

Embora o trabalho de design e promoção em torno da exposição We Are Ready for our Close-Up[1] seja a todos os níveis bastante melhor que o habitual, ainda assim tenho ouvido algumas críticas, em particular ao destaque dado às fotografias dos participantes (interpretado por algumas pessoas como mero exibicionismo) e aos recursos que se ocupou a reproduzi-las, tanto nos posters como nas páginas de abertura do catálogo (recursos esses que poderiam ser usados, por exemplo, numa reprodução mais apurada dos trabalhos expostos).

Pessoalmente, prefiro perceber qual é a função que estes retratos cumprem dentro do contexto particular desta exposição do que atribuí-los levianamente a um desejo de auto-promoção ou de vaidade, resvalando deste modo para a posição, infelizmente bastante comum, de criticar uma exposição apenas porque expõe, de desvalorizar a promoção publicitária porque promove, de rejeitar um auto-retrato porque é egocêntrico ou um western porque se passa no Velho Oeste.

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Muito, talvez demais

Saindo do sol e calor da Rua do Alecrim para a relativa penumbra do átrio do Palácio Quintela, a primeira sala da exposição Revolution 99-09, parece que entramos numa daquelas mercearias antigas de Lisboa onde, pela profusão de cores, caixas e produtos, fica a sensação que o que está a ser vendido é mais a ideia de abundância em si mesma do que qualquer produto em particular: somos rodeados de centenas de objectos de design, posters, desdobráveis, brochuras, livros, acotovelados pelas paredes, emoldurados ou não, encolhidos à justa em vitrinas, onde mesmo a discreta legendagem mal consegue dar conta do recado, obrigando a algum esforço para perceber quem fez o quê e como.

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Mal Empregado

Ontem fui à inauguração de We Are Ready for Our Close Up, uma exposição de finalistas organizada por um grupo de alunos das Belas Artes do Porto num dos locais que Serralves costuma ocupar no centro da cidade, uma emissora de rádio mais ou menos desocupada e decrépita na rua Cândido dos Reis, com estúdios de som, bares abandonados, alcatifas manchadas de humidade e aparelhos de ar condicionado estragados. Neste caso, e testemunhando o zelo dos alunos, todo o edifício parecia mais asseado – e sobretudo mais elegante – do que quando Serralves o ocupou.

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História muito abreviada do design no Porto

Nos últimos anos, tenho ouvido frequentemente que o design do Porto é interessante, que existe aqui uma cena, um estilo. Poder-se-ia atribuir isso à existência de um ou outro designer talentoso que, através do seu trabalho estimularia a qualidade do trabalho dos seus colegas, mas o talento não adianta muito sem condições externas que o suportem e estimulem. Quais foram essas condições, neste caso? O que permitiu a existência de uma cena de design no Porto?

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O que é uma ilustração?

Recentemente, escrevi um texto em circunstâncias pouco habituais: o Júlio Dolbeth e o Rui Santos, meus colegas nas Belas Artes do Porto e donos da Galeria Dama Aflita, dedicada à ilustração, pediram-me um texto que servisse de tema a uma exposição colectiva. Resolvi escrever sobre o Dandy, um tema que já me obcecava há algum tempo e os resultados foram, como seria de esperar, variados – alguns literais, outros inspirados, outros inesperados, outros irónicos, outros meramente banais (tudo o que seria de esperar de uma exposição colectiva).

Durante a inauguração, não conseguia deixar de pensar na forma  como esta variedade toda, espalhada pelas paredes brancas de uma pequena galeria tinha sido produzida a partir do meu texto. Muitas ilustrações são feitas de propósito para um texto específico; neste caso, eu escrevi este texto para ser ilustrado, não uma, mas dezenas de vezes. O resultado era fascinante, embora o processo não fosse – sem dúvida – a maneira mais comum de fazer uma ilustração. Mas qual é a maneira mais comum de o fazer? Ou melhor: o que é uma ilustração? Quando é que um desenho começa a ser uma ilustração? Quando deixa de o ser?

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Modinhas

É costume dizer-se que o design gráfico é uma actividade interdisciplinar, mas o que quer isso dizer realmente? Que está aberto a todo o tipo de conhecimentos ou experiências? Esta não é uma resposta particularmente interessante ou esclarecedora, na medida em que dá a entender que o design aceita tudo e todos de braços abertos, enquanto, na verdade, seria talvez mais rigoroso afirmar que escolhe bem os seus aliados, pesando bem o que pode ficar a ganhar com a ligação. Algumas disciplinas são bem-vindas enquanto outras nem por isso – ninguém gosta de ouvir dizer que aquilo que faz tem pontos comuns com o secretariado, por exemplo, mas toda a gente gosta de se associar ao cinema, à fotografia ou à literatura.

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Leituras ao frio

(páginas do catálogo For the Blind Man, encontradas aqui)

O que li sobre arte e design nas férias? Sobretudo revistas e catálogos, ou coisas que se balançam elegantemente entre os dois. Dá a ideia que nas artes actuais ninguém chega a ser pago para fazer uma só coisa: a bolsa que é dada para a participação numa bienal é usada para fazer um catálogo que por sua vez funciona como número de uma revista, etc. Este processo foi-me alegremente explicado por Stuart Bailey quando esteve cá no Porto no ano passado e confesso que, se por um lado me pareceu bastante precário, reconheço que os malabarismos envolvidos até podiam ser interessantes, tornando-se a base de toda uma série de publicações que orbitam entre Amesterdão, Londres e Nova Iorque, raspando por vezes a atmosfera de Lisboa ou do Porto.

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Ípsilon

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Hoje, no Ípsilon aparece um artigo de José Marmeleira sobre a exposição de cartazes políticos no MUDE , para o qual fui entrevistado [Update: link corrigido].

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Dexter Sinister

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“Eu costumava dizer [que era] ‘tipógrafo’, no tempo em que a profissão tinha de aparecer no passaporte. Era uma forma de comprometimento um tanto ou quanto romântica, porque nunca pratiquei isso da mesma maneira que muitas pessoas o fizeram. Também escrevia muito, e agora faço muita edição – o que significa ler o que outras pessoas escrevem, lidar com textos e trabalhar com outros designers. Assim, acho que agora sou um editor, no sentido continental e francês de ‘editeur’, que também significa alguém que publica. Sinto-me bem com essa ideia; tem algumas das boas qualidades associadas a ‘tipógrafo’. Não é tanto produção visual quanto verbal. É isso que eu faço.”[1] Foi assim que o designer Robin Kinross respondeu quando, numa entrevista, lhe perguntaram qual era a sua profissão, e foi citando-o que Stuart Bailey se apresentou a si mesmo numa conferência em 2006[2]. Era uma maneira elegante de resumir o seu próprio percurso, que em muitos pontos se aproximava ao de Kinross: Bailey também era um designer gráfico de formação que, sem abandonar de todo a sua área, a considerava, de alguma forma, limitada demais.

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Coisas

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Ocupado pela avalanche de textos de Abril, ainda não tenho tempo para um post a sério. Em vez disso, aqui vão algumas notícias breves.

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A Livraria Ideal

Mais do que o cartaz, a capa de cd ou o site, a capa de livro é, neste momento, o formato da moda. Há pelo menos dois blogues sobre o assunto e tem sido rara a revista que não lhe tenha dedicado pelo menos um artigo nos últimos meses. Por sua vez, os designers de capas de livros gozam de um prestígio inédito dentro e fora do design, com Chip Kidd à cabeça, mas também David Pearson, Rodrigo Corral, Paul Sahre, Jonathan Gray, Helen Yentus, entre outros.

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Identidade Cultural?

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Costuma dizer-se que o design resolve problemas, mas seria mais correcto dizer que é um processo de negociação, e que cada objecto de design não é uma solução, mas a materialização de um problema, um compromisso que se objectivou. Desta forma, é possível olhar para um livro, por exemplo, e ver nas continuidades e contradições entre forma e conteúdo, entre paginação e assunto, um conjunto de relações sociais, de antagonismos, de aspirações e compromissos.

Em c/id, isto começa por ser evidente na maneira como o seu público alvo é representado. Segundo o texto da contracapa, este livro destina-se a designers que trabalham para clientes culturais e a pessoas que lidam com branding e gestão das artes. Mas no único índice do livro estão apenas clientes e não designers. Nos textos que apresentam cada um dos projectos, o designer é referido de forma discreta, quase no fim, só depois de identificado o cliente, a sua história, e a razão porque decidiu criar ou modificar a sua imagem gráfica. É preciso esperar pela última página para encontrar, finalmente, no meio da ficha técnica, uma lista de agradecimentos onde aparecem os nomes dos designers representados e das suas firmas, mas, mesmo aqui, estão ordenados alfabeticamente por cliente, com o nome deste último destacado a bold.

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Mário Moura

Escrevo regularmente sobre design há cerca de oito anos.

Já escrevi para as revistas Unidade, [up] arte, Insi(s)tu, Quadrado, Margens & Confluências, Slang, Dif, Satélite Internacional, Ar Líquido, Mono, para o blogue inglês Limited Language e para os jornais Público e i. Escrevi uma introdução para uma monografia sobre os Barbara Says, editada em França, pela Pyramid. Publiquei o livro Design em Tempos de Crise, editado pela Braço de Ferro, uma antologia de textos sobre política e design.

Participei em conferências sobre design nas Belas Artes do Porto, nas Belas Artes de Lisboa, na Esad das Caldas da Rainha, na Esad de Matosinhos, na Experimenta Design e no ciclo Ag – Prata.

Dou aulas de História e Crítica do Design e de disciplinas relacionadas com teoria da imagem, tipografia e book design nas Belas Artes do Porto.

História Universal do: Estágio

O "Estágio"
O Negócio Perfeito
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