Outubro 21, 2009 • 1:00 pm

Quando comecei a escrever sobre design, um colega mais velho sentenciou-me que ainda não havia condições para haver crítica de design em Portugal. Talvez daqui a dez anos, disse-me. Perguntei-lhe o que estava à espera que acontecesse entretanto. Não me respondeu, mas desde essa altura, há quase sete anos, que me interrogo sobre quais seriam as actividades – que não a crítica, é claro – que poderiam ser exercidas durante essa década de preparação.
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Outubro 7, 2009 • 11:26 am

No início de cada ano lectivo, é costume passar em revista os livros de história do design, uma tarefa que se vai tornando mais difícil à medida que novos tomos vão aparecendo, e se torna difícil examiná-los a todos em tempo útil. Torna-se necessário fazer escolhas: se mantemos o “A History of Graphic Design”, de Philip Meggs ou se o trocamos pelo “Graphic Design History: A Critical Guide”, de Joahnna Drucker e Emily McVarish; uma opção compacta, barata e bem escrita, com alguma atenção a questões políticas é o “Graphic Design, a Concise History” de Richard Hollis; outra hipótese é o “Graphic Design: A New History”, de Stephen J. Eskilsonn, que embora tenha sido trucidado pela crítica, pode ser usado em conjunto – ou mesmo em confronto – com Meggs e com os outros, não deixando de ter interesse.
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Junho 24, 2009 • 12:05 am

Tenho andado com uma nostalgia cada vez maior pelos anos 90. Ponho-me a ver pela noite fora os primeiros filmes do Tarantino, incluindo os seus derivados mais fracos, como o True Romance, ou o mal envelhecido Natural Born Killers, subproduto óbvio da moda dos serial killers, que começou com O Silêncio dos Inocentes, se prolongou pelo Se7en e pelo Kalifornia, e cujos efeitos ainda hoje se sentem.
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Fevereiro 19, 2009 • 12:05 am

Uma das histórias mais típicas de Hollywood é a do herói bem estabelecido, com uma vida feliz e segura que, por qualquer razão – a acção de um inimigo, do destino ou dele mesmo –, perde tudo, tendo de trabalhar arduamente para o recuperar. No fim, acaba por alcançar uma existência mais sólida que a original, vivendo feliz para sempre.
Na vida real – sobretudo se essa vida pertence a um designer –, as coisas nunca são assim tão simples.
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Fevereiro 1, 2009 • 12:05 am

Na última quarta-feira de 2005, entre o Natal e o Ano Novo, fui a Lisboa para falar com o António Gomes, dos Barbara Says. Desde 1999, quando os Barbara vieram dar uma conferência nas Belas Artes do Porto, que eu já conhecia e apreciava o seu design gráfico. Na altura já tinham um estilo que, apesar de ser assumidamente digital, conseguia ser também muito táctil e físico, recorrendo a efeitos que eram ao mesmo tempo sofisticados e lo-fi. Usavam tecnologias quase obsoletas de maneira criativa e recorriam com à vontade a um imaginário urbano especificamente lisboeta. Não faziam, no entanto, uma mera apropriação – havia um genuíno respeito por aquilo que recolhiam e citavam. Desse primeiro contacto, lembro-me particularmente de uma série de flyers recortados em formas exóticas – círculos, estrelas, caixas de medicamentos – realizados com cortantes antigos recolhidos em gráficas. Era uma ideia ao mesmo tempo económica, elegante e inesperada, qualidades que estão presentes em todos os trabalhos dos Barbara. Agora, uma editora francesa, a Pyramid, estava interessada em publicar um livro recolhendo os dez anos de trabalho dos Barbara, e o António tinha-me pedido para escrever o texto de introdução. Esta era uma boa ocasião para conhecer melhor o trabalho dos Barbara e aceitei de imediato.
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Outubro 23, 2008 • 1:05 am

Nos tempos que correm, com a crise dos mercados financeiros, multiplicam-se as interrogações. Num artigo no The Guardian, Sarah Thornton pergunta quais serão os efeitos disto tudo sobre as artes, mas nem ela, nem os artistas que entrevista têm respostas, embora todos reconheçam o protagonismo do dinheiro na arte contemporânea – um deles, Gavin Turk, ironiza até: “Se for grátis, será que ainda é arte?”
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Outubro 16, 2008 • 1:05 am

Desde os gadgets até aos carros e à arquitectura, tudo nos filmes do 007 é uma forma ou outra de design. A própria estrutura das histórias é uma marca registada, um design de série, estabelecido desde os primeiros filmes e sofrendo variações mínimas ao longo de quatro décadas e meia: um pequeno genérico onde o personagem é filmado através do cano de uma arma; uma sequência curta de introdução; o genérico principal; e, por fim, o próprio filme.
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Na semana passada, encontrei à venda na velha Leitura da rua de Ceuta o novo calhamaço de Steven Heller, Iron Fists: Branding the 20th Century Totalitarian State que comprei imediatamente, embora o preço me tenha, nesta altura do mês, doído muito. Folheei-o entre reuniões e correcções de testes, mas confesso que ainda não o li – não posso, assim, fazer uma crítica completa, clássica, mas posso julgá-lo pela capa que, felizmente, é algo que um designer pode fazer com alguma legitimidade.
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Quando uma espécie que se julgava extinta há muito, por vezes só conhecida através de fósseis, aparece viva e de boa saúde, há duas explicações possíveis. A primeira – e mais simples – é que a espécie nunca esteve realmente morta; evitou sensatamente os seres humanos, talvez durante milénios, acabando no final por ser “apanhada” – a estas espécies, porque voltaram de entre os mortos, chama-se espécies Lázaro. A segunda explicação é mais complicada, mas também mais interessante: pode não se tratar de uma única espécie, mas de duas espécies distintas: uma realmente extinta e outra que se tornou, por coincidência evolutiva, semelhante à primeira – estas são as espécies Elvis, porque tal como o Rei, estão sempre a ser vistas em todo o lado, embora estejam – realmente, definitivamente – mortas.
Por um lado, isto lembra-me vagamente o enredo do filme de Christopher Nolan, The Prestige (não vou estragar o fim, mas envolve duplos e ilusionistas); por outro, lembra-me também a relação entre design gráfico e tipografia: o design assume-se como um descendente actual da tipografia, dando a entender uma linhagem ininterrupta desde Gutenberg até ao design mais recente. Mas será que a coisa é assim tão simples? Será o design um Lázaro da tipografia? Ou simplesmente um Elvis?
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Janeiro 25, 2008 • 2:26 pm

Desde que me lembro, nas salas de reuniões do edifício principal das Belas Artes do Porto estão pendurados os mesmos quadros, pinturas a óleo de modelos nus, tons de pele pálidos sobre fundos escuros, exercícios de aulas de figura humana de há muitas décadas atrás. Nos momentos mais difíceis das reuniões mais aborrecidas, encontrei sempre algum consolo irónico neles, em particular numa pequena pintura quase impressionista de Prometeu com o seu fígado a ser devorado por uma águia.
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