Janeiro 29, 2009 • 12:05 am

Tornou-se difícil negar que, para quem gosta das artes, as oportunidades têm aumentado e, até numa cidade como o Porto, da qual ainda se costuma dizer que é um deserto, esta expressão já deixou de descrever uma falta real de eventos, para passar a indicar a presença de um snob.
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Janeiro 26, 2009 • 1:06 am

Não se pode falar de identidade em Portugal sem falar de periferia e de atraso. É assim que nos descrevemos a nós mesmos; é esse o diagnóstico que já está feito há muito. Uma das soluções pode ser, segundo parece, o design. Nos telejornais e nos tempos de antena, o design é inovação, pode ajudar-nos a recuperar do nosso atraso, a aliviar a nossa condição periférica. Desta forma, é anunciado como um índice de futuro, do “lá fora”. Não é verdadeiramente daqui, mas de outro lugar e de outro tempo – uma condição que permite aos próprios designers manterem um estatuto de missionários da modernidade, vendo o país a partir de fora, como uma folha em branco ou, nos casos mais generosos, como uma fonte de inspiração.
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Janeiro 22, 2009 • 12:05 am

Com a crise financeira, o mundo da arte sustém a respiração. Espera-se menos dinheiro, mais falências, que algumas galerias fechem, que algumas instituições vacilem, que os leilões sejam menos eufóricos do que antes; aposta-se qual será o tipo de artista e qual o tipo de arte que irá sobreviver. Há até quem veja a situação como uma limpeza, um dilúvio que vem eliminar todo o lixo acumulado dos últimos anos – a especulação, as bienais supérfluas, os artistas sobrevalorizados. É como se, expulsando os vendilhões do templo, se pudesse fazer regressar o mundo da arte ao seu estado de graça original.
Mas até a ideia de um dilúvio purificador ilustra a dependência do mundo da arte em relação à ideologia de mercado: não é através de um esforço crítico que se corrigem os excessos ou se constroem alternativas, mas aguardando passivamente que o mercado – mesmo em queda – tome as decisões. No fundo, equivale a dizer que só o mercado pode salvar o mundo da arte dos excessos do mercado. É como acreditar que os vendilhões se expulsarão a si mesmos do templo.
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Dezembro 4, 2008 • 12:05 am

Há um ano, por esta altura, era de bom tom lastimar-se os grandes logótipos bancários que cobriam a cidade toda. Na Casa da Música ou em Serralves, cada cartaz tinha, bem visível, o logo de um banco; cada praça do Porto tinha a sua cúpula em plástico transparente abrigando carrosséis e ringues de patinagem, tudo sob a protecção de um banco. Com os bancos em crise, o que lamentará agora o mundo da arte?
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Novembro 20, 2008 • 12:05 am

O que faz de alguém um designer gráfico? Muita gente acredita que um curso universitário é o requisito mínimo; outros acham que basta saber os básicos, aprendendo, por iniciativa própria ou por necessidade, aquilo que um curso ensina.
Mas o que são exactamente esses básicos? Tipografia? Ilustração? Ou talvez tecnologias específicas, como o Photoshop, o InDesign ou o Illustrator? Há quem acrescente a História à lista; outros acrescentariam a economia ou a contabilidade.
De qualquer das formas, os básicos, como o nome indica, não correspondem a tudo o que um designer pode saber, mas ao mínimo que precisa de saber.
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Outubro 23, 2008 • 1:05 am

Nos tempos que correm, com a crise dos mercados financeiros, multiplicam-se as interrogações. Num artigo no The Guardian, Sarah Thornton pergunta quais serão os efeitos disto tudo sobre as artes, mas nem ela, nem os artistas que entrevista têm respostas, embora todos reconheçam o protagonismo do dinheiro na arte contemporânea – um deles, Gavin Turk, ironiza até: “Se for grátis, será que ainda é arte?”
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Outubro 16, 2008 • 1:05 am

Desde os gadgets até aos carros e à arquitectura, tudo nos filmes do 007 é uma forma ou outra de design. A própria estrutura das histórias é uma marca registada, um design de série, estabelecido desde os primeiros filmes e sofrendo variações mínimas ao longo de quatro décadas e meia: um pequeno genérico onde o personagem é filmado através do cano de uma arma; uma sequência curta de introdução; o genérico principal; e, por fim, o próprio filme.
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Na semana passada, encontrei à venda na velha Leitura da rua de Ceuta o novo calhamaço de Steven Heller, Iron Fists: Branding the 20th Century Totalitarian State que comprei imediatamente, embora o preço me tenha, nesta altura do mês, doído muito. Folheei-o entre reuniões e correcções de testes, mas confesso que ainda não o li – não posso, assim, fazer uma crítica completa, clássica, mas posso julgá-lo pela capa que, felizmente, é algo que um designer pode fazer com alguma legitimidade.
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“Design & Inovação” é uma das expressões mais irritantes do vocabulário político dos últimos anos. Em geral, aparece em plena campanha eleitoral, quando um político no governo, um ministro ou secretário de estado, inaugura um complexo agro-industrial numa terra com três nomes no interior do país. Nessas ocasiões, o “Design & Inovação” costuma ser a chave para o “Progresso & Desenvolvimento”, desde que se consiga as “necessárias sinergias” com a “Ciência & Tecnologia”, e por aí adiante.
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Perto de minha casa, há um anúncio que à primeira vista parece um sinal de trânsito. A fonte é diferente e a cor não é bem a mesma, mas parece um daqueles sinais de indicação de direcção, do género “faltam 400 metros para a próxima saída”. Este diz-nos que estamos a ir na direcção errada; se dermos a volta ainda podemos encontrar a loja da “Rádio Popular”.
Sempre que o vejo, e apesar de nunca ter tirado a carta de condução, sinto-me ligeiramente enganado. A sensação é de invasão, de perda de privacidade, mas neste caso não é algo privado que se perdeu, mas o próprio espaço público que por um momento se desfez.
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