The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Arte do Estado já não é o Estado da Arte

As intervenções culturais nas barragens do Douro já foram descritas algures como um “roteiro de arte pública”, designação curiosa pela sua ironia (talvez involuntária): afinal, trata-se de arte paga por uma empresa privatizada, feita numa zona que se arrisca a perder por causa disso o seu estatuto de Património da Humanidade, talvez o grau mais elevado de “interesse público”.

Em outras ocasiões já me queixei da infelicidade da expressão “arte pública”. Num momento em que a exploração predatória do que até há pouco tinha sido público é a ideologia dominante, a designação aplicar-se-ia com mais elegância a iniciativas como a Escola da Fontinha ou às pessoas que ainda insistem em manifestar as suas reivindicações em público, mesmo correndo o risco de serem multadas ou presas por isso. Talvez “Arte Recentemente Privatizada” fosse mais adequado. “Arte da privatização”?

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Retrato do Artista e dos seus Mecenas Enquanto Patos Bravos

Graças a uma pergunta da plateia no final de uma conferência na Universidade do Algarve foi possível conhecer a reacção de Pedro Cabrita Reis às críticas negativas de que foi alvo a sua intervenção na barragem da Bemposta.

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Confirmação

No Público de hoje uma boa reportagem sobre o tal empreendorismo. Em resumo: idealmente não quer dizer fazer de um desempregado um empresário a título individual mas, para ajudar a economia e criar emprego, estas empresas devem ser vocacionadas para o mercado externo e ter um grande crescimento nos primeiros anos; este género de empreendorismo iniciado por desempregados tem diminuído e não aumentado com a crise (por causa do acesso ao crédito, por exemplo). Ou seja: não tem havido oportunidades para o tal desemprego como oportunidade de que fala Passos – não que isso seja uma surpresa, mas é sempre bom ver a coisa confirmada mais rigorosamente.

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Loja dos 400

Há quem diga, sem óbvio conhecimento de causa, que este governo não vê com bons olhos as actividades criativas. Até seria verdade, se não fosse aquela coisa altamente criativa da “criação de emprego”. Veja-se por exemplo o programa Estímulo 2012 que se oferece para subsidiar empresas que contratem desempregados inscritos num centro de emprego há mais de seis meses, pagando-lhes metade do salário até um limite máximo de 419,22 euros.

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Palavras

A opinião pública alimenta-se de chavões: a Austeridade é um dos mais proeminentes. Numa só palavra, invoca-se poupança, responsabilidade e ascetismo moral. Na prática, tem resultados muito distintos para pessoas distintas.

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“A Saída para a Crise é o Design”

Dentro do quinhão português da crise, o design tem tido um lugar de destaque, sobretudo pela quantidade de designers no mercado, que parece indicar que também há demasiados cursos de design, todos eles a sugarem duma forma ou outra recursos ao Estado, e entupindo ainda mais o país de jovens licenciados, muitos deles desempregados, subempregados ou a estagiar sem ganharem um tostão durante meses ou até anos.

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Liberdade de Pressão

Nos últimos anos, tornou-se comum ver uma livraria carismática fechar, apenas para, uns meses e umas tantas obras depois, reabrir como bar ou restaurante, mantendo algumas das prateleiras originais e meia dúzia de livros na montra, e chamando-se, com ironia cuidadosa, “Livraria”. Às vezes, dá também a sensação que aconteceu o mesmo com a nossa Justiça, que encerrou para obras, reabrindo como outra coisa qualquer, embora mantendo com ironia o nome de “Justiça”.

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Ajuda Internacional

Hoje, a ver a RTP informação numa televisão sem som, aparece-me o Paulo Portas, com uma legenda do género: Ministro dos Negócios Estrangeiros apela a ajudas internacionais para ajudar população carenciada (não tomei nota portanto é apenas uma citação aproximada). Pensei: lá está o homem a dedicar-se ao assistencialismo internacional, provavelmente a pensar nas próximas eleições, mas pode ser que alguém que precise ainda tire algum alívio disto e que lá fora comecem a ver como a coisa está realmente mal. Só nessa altura é que reparei na legenda principal: “Situação na Síria”,

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O Estigma

Ainda a propósito das declarações do Primeiro Ministro sobre o desemprego não ser um estigma mas uma oportunidade. Tendo em conta a quantidade de desemprego jovem, deveria ter acrescentado talvez que deveria ser também uma formação – afinal, sabe-se que o desemprego ou o emprego precário durante longos períodos, especialmente em começo de carreira, tende a ser realmente um estigma, na medida em que, estatisticamente, acaba por definir uma carreira igualmente precária e insegura. Empregos estáveis ensinam a estabilidade; a precariedade ensina a precariedade. Mesmo no caso dos mais velhos, é esse o caso.

Assim, para que as declarações do Primeiro Ministro fossem mais do que platitudes, seriam precisas medidas concretas no sentido de tornar esse desemprego numa oportunidade.

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Governar pelo exemplo

Pelas declarações do Primeiro Ministro confirma-se mais uma vez que a) não percebe nada de desemprego b) não percebe nada de emprego. Devia voltar à sua zona de conforto discursiva, que consiste em declarar pesarosamente a sua compreensão pelos sacrifícios que os portugueses passam. Ao menos, isso teria um efeito semelhante ao daquele quadro onde a legenda da imagem de um cachimbo declara que aquilo não é um cachimbo.

Dizer que o desemprego é uma oportunidade é dizer que os desempregados portugueses, 15% da população, estão desempregados pela sua própria falta de imaginação e não pela falta de investimento, de emprego e de uma estratégia para a criação de emprego. A coisa ainda fica mais ofensiva quando se sabe que, para estes 15% por cento de desempregados, conta apenas quem está à procura activamente de emprego.

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Os Efeitos do Desemprego na Procura, Explicados às Criancinhas

Desta vez, o Tio Patinhas encontra um moinho mágico que produz em massa tudo o que quiser, sem parar, até lhe pedir para produzir outra coisa. Depois de produzir dinheiro, ouro e jóias, Patinhas decide despedir todos os trabalhadores das suas fábricas substituindo-os pelo moinho. Mais uma vez Donald demonstra saber um pouco mais de macroeconomia do que o tio e percebe de imediato o problema. Patinhas ainda tenta o Assistencialismo, oferecendo os desperdícios de produção, neste caso sopa, aos desempregados, sem grande sucesso. No final, os sobrinhos pedem ao moinho para produzir sal e atiram-no ao mar. Se até um Pato consegue perceber isto, porque não um Coelho?

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Design: Identidade e Instituição

É habitual proclamar-se o design como uma actividade universal, praticada desde a autora dos tempos, sempre que alguém concebe um instrumento, uma casa ou a configuração precisa de uma mensagem, mas este chavão esbarra de frente com o modo como o design é realmente praticado. Por exemplo, apesar da suposta universalidade, assenta num treino particular, ensinado em universidades. Por vezes, defende-se mesmo que só pode ser exercido por profissionais credenciados, mas credenciados a fazer o quê, exactamente? A tal actividade universal, que já é praticada desde a aurora dos tempos, muito tempo antes de haver cursos que a ensinam ou uma palavra para a nomear?

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A Crise Explicada às Criancinhas

Obviamente, o Tio Patinhas representa o Passos, o Gaspar, os Bancos e a Senhora Merkel. Afinal a sua estratégia é preferir arranjar maneira de ganhar um bilhão em vez de gastar cem cruzeiros a pagar a um vidraceiro, assegurando-lhe um emprego. Durante, o resto da historia Patinhas tenta (em vão) arranjar o dinheiro com a ajuda de uma civilização de patos minúsculos extra-terrestres (o que só reforça a analogia). A cara do Donald representa a minha própria sempre que abro o jornal pela manhã.

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Despromoção

Assim, e de acordo com o Público, Soares dos Santos distancia-se da promoção dos seus próprios supermercados, argumenta que lhe saiu caro e desconhece haverem queixas de produtores a quem está a ser apresentada a factura da brincadeira. Entretanto, já se provou que houve realmente dumping – que SdS também admite ser possível mas apenas por engano. Tudo isto dá a entender demasiado desconhecimento ou, mais provavelmente, muita cara de pau.

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O Canário

Tem-se falado muito do papel que o design poderá ter nesta crise, no sentido em que ajudará talvez a resolvê-la, mas acredito cada vez mais que será ao contrário: que a crise ajudará talvez a resolver o design.

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A Indústria do Desemprego II

Ainda de acordo com Gaspar, o tal desemprego inesperado deve-se aos “elementos de rigidez no mercado de trabalho que se acumularam ao longo dos anos [e que] terão tornado a situação de ajustamento mais difícil num cenário económico particularmente exigente”. Não é explícito mas calculo que essa rigidez sejam os direitos adquiridos resolvidos pela recente “flexibilização” do mercado de trabalho – que se pode resumir em ter tornado mais fáceis e baratos os despedimentos. O argumento usado até agora é que era a tal rigidez que criava o desemprego. Entretanto foi eliminada, e o desemprego continua a crescer. Em vez de tirar a conclusão lógica (que não é essa a causa), Gaspar diz que ainda são os vestígios da dificuldade de despedir que estão a provocar o desemprego. É um argumento que vale a pena ser repetido: que se fosse mais fácil ainda desempregar, o desemprego desceria. É claro que pode haver outra causa, por exemplo o facto de haver cada vez mais gente desempregada, que gasta cada vez menos dinheiro no que quer que seja, faz com que as empresas e o comércio tenham menos a quem vender, e acabem por ter que despedir ou simplesmente falir, piorando cada vez mais a situação. Não adianta ser fácil despedir, se ninguém contrata.

(Já que não é possível desvalorizar o Euro, resta-nos talvez a possibilidade de desvalorizar a própria Alemanha. Porque não exportar Gaspar para lá, já que gostam tanto dele? Em dois tempos punha aquilo tudo ao nosso nível.)

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A Indústria do Desemprego

Do Público:

“A evolução do desemprego é uma grande preocupação e tem revelado padrões de comportamento diferentes do que seria sugerido pela experiencia histórica”, afirmou Vítor Gaspar, salientando que o nível de desemprego registado é substancialmente superior ao expectável dado o nível de actividade económica.

Mais uma vez é bastante evidente que, em termos de emprego, o modelo económico usado pelo governo não funciona ou, na pior das hipóteses, para além de provocar o desemprego em massa, depende disso para funcionar.

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A lei do mais frique

Pelos vistos, o Ministério Público sugeriu que os três homens detidos durante o despejo da Fontinha fossem condenados a cumprir trabalho comunitário. Não se pode dizer que a sentença seja dura, apenas que parece um bocadito injusta, talvez até absurda. Nem sei se consigo resumir: propôs-se aplicar uma pena de trabalho comunitário a gente que se recusou abandonar um projecto de trabalho comunitário que, apesar de louvável, foi um erro porque estava no caminho de outro projecto comunitário.

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Irresponsabilidade

Do Público:

“As imagens de carrinhos a abarrotar de compras, discussões e confusões que levaram a PSP a intervir – 50 ocorrências registadas, segundo a Lusa – não impressionaram a empresa cotada, com lucros de 340 milhões de euros em 2011. O dono do Pingo Doce recusa as críticas de falta de planeamento e sublinha que a confusão instalada em algumas das lojas era ‘expectável’, tendo em conta a concentração maciça de pessoas. Em média, os clientes compraram muito mais do que habitualmente, procurando os bens de primeira necessidade e os não perecíveis. ‘O balanço é positivo, considerando-se a acção como conseguida’, diz fonte oficial.”

Se calhar é só impressão minha, mas esta fonte do Pingo Doce considerou mesmo “discussões e confusões que levaram a PSP a intervir – 50 ocorrências registadas” como “expectáveis”, que é quase como quem diz “premeditadas”.

(e este, para efeitos de contabilidade, é o post nº 800)

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Argumentos a 50% de desconto

Uma das linhas de defesa dos nossos ultraliberais a propósito do Pingo Doce é “Qual é o problema? Afinal a Ryan Air, a Ikea e até a Feira do Livro têm promoções com 50% de desconto ou mais e ninguém se queixa.” As situações não são evidentemente comparáveis.

Em primeiro lugar, porque num Pingo Doce compram-se sobretudo produtos de primeira necessidade – ao contrário de uma viagem de avião, de uma peça de mobília ou de um livro. Depois, porque não se tratou de um desconto num determinado produto mas um desconto generalizado – tanto era aplicado a fruta como a electrodomésticos como a livros. Não é possível portanto comparar todas estas situações apenas porque têm escrito em algum lado 50% de desconto.

Mas não se pode compará-las sobretudo pelos seus custos para a sociedade. Leia o resto deste artigo »

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Mário Moura

Escrevo regularmente sobre design há cerca de oito anos.

Já escrevi para as revistas Unidade, [up] arte, Insi(s)tu, Quadrado, Margens & Confluências, Slang, Dif, Satélite Internacional, Ar Líquido, Mono, para o blogue inglês Limited Language e para os jornais Público e i. Escrevi uma introdução para uma monografia sobre os Barbara Says, editada em França, pela Pyramid. Publiquei o livro Design em Tempos de Crise, editado pela Braço de Ferro, uma antologia de textos sobre política e design.

Participei em conferências sobre design nas Belas Artes do Porto, nas Belas Artes de Lisboa, na Esad das Caldas da Rainha, na Esad de Matosinhos, na Experimenta Design e no ciclo Ag – Prata.

Dou aulas de História e Crítica do Design e de disciplinas relacionadas com teoria da imagem, tipografia e book design nas Belas Artes do Porto.

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Trabalho a Sério
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Liberal, irreal, social
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