Abril 30, 2009 • 12:05 am

Pela quinta vez, o Typographica publica a sua lista das melhores fontes do ano, o equivalente online aos Óscares da tipografia. A escolha de 2008 inclui quarenta tipos, aos quais se juntam cerca de noventa menções honrosas, o que até pode parecer muito, mas dos milhares – milhões? – que são produzidos cada ano, nem é uma selecção demasiado generosa. Para os organizadores, a quantidade de contemplados, maior do que o costume, corresponde a um aumento na qualidade da criação tipográfica actual – segundo eles, uma autêntica Idade de Ouro.
Tal como em outros anos, a lista reflecte também o bom nível da criação tipográfica nacional, com a presença do habitual Dino dos Santos com a Glosa, e a estreia de Rui Abreu com a Orbe.
Neste último caso, põe-se, no entanto, uma questão curiosa, que indicia problemas maiores dentro do modo como os designers se relacionam com a teoria, a crítica e mesmo a escrita em geral.
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Junho 20, 2008 • 12:06 am

Como seria de esperar, Fringe, a nova série de J.J. Abrams, o criador de Lost, é uma mistura de policial, ficção científica, teoria de conspiração, com agentes do FBI, um desastre de avião, braços cibernéticos e drogas psicadélicas à mistura, tudo num raio de acção que vai desde Harvard até Bagdad. Mas, mesmo no universo bastante previsível das séries de acção americanas, a avalanche de bizarrias até poderia parecer banal, se Fringe não tivesse também as legendas mais estranhas que vi nos últimos tempos.
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“…E para que serve um livro, pensou Alice, sem figuras ou diálogos.” Esta é uma frase que muitos ilustradores gostam de citar. Como quase todas as frases amplamente citadas, pertence ao primeiro parágrafo de um livro; neste caso, Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll.
Se perguntarem a um ilustrador se já leu a Alice, é provável que ele responda: “Qual delas?”, referindo-se a cada uma das versões ilustradas que surgiram ao longo dos anos. Há Alices Arte Nova, Alices Manga, Alices adultas, Alices para adultos, Alices infantis, Alices Politicas (uma em que o Humpty Dumpty tinha a cara de Richard Nixon), etc. O próprio Carroll ilustrou um primeiro manuscrito parcial, chamado The Adventures of Alice Underground, como oferta a Alice Lidell, a criança que inspirou a personagem. Contudo, para os puristas, os verdadeiros fanáticos, só existe a versão de John Tenniel, autor dos desenhos da primeira edição, em 1865.
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Quando uma espécie que se julgava extinta há muito, por vezes só conhecida através de fósseis, aparece viva e de boa saúde, há duas explicações possíveis. A primeira – e mais simples – é que a espécie nunca esteve realmente morta; evitou sensatamente os seres humanos, talvez durante milénios, acabando no final por ser “apanhada” – a estas espécies, porque voltaram de entre os mortos, chama-se espécies Lázaro. A segunda explicação é mais complicada, mas também mais interessante: pode não se tratar de uma única espécie, mas de duas espécies distintas: uma realmente extinta e outra que se tornou, por coincidência evolutiva, semelhante à primeira – estas são as espécies Elvis, porque tal como o Rei, estão sempre a ser vistas em todo o lado, embora estejam – realmente, definitivamente – mortas.
Por um lado, isto lembra-me vagamente o enredo do filme de Christopher Nolan, The Prestige (não vou estragar o fim, mas envolve duplos e ilusionistas); por outro, lembra-me também a relação entre design gráfico e tipografia: o design assume-se como um descendente actual da tipografia, dando a entender uma linhagem ininterrupta desde Gutenberg até ao design mais recente. Mas será que a coisa é assim tão simples? Será o design um Lázaro da tipografia? Ou simplesmente um Elvis?
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Novembro 4, 2007 • 2:19 am

Tanto o design, como o sexo, como a violência podem ser “gráficos”. Há poucas ocasiões em que os três usos se misturam e os livros de Alfred Bester são uma delas. A sua obra pertence a um género de ficção científica – que fica a dever muito pouco à ciência – chamado space-opera. Nestas histórias, as pessoas teletransportam-se, sofrem mutações sem grandes explicações e os enredos dão mais reviravoltas do que seria possível em escritores mais sérios. Mas aquilo que se perde em coerência é ganho a dobrar em energia, e cada um dos livros de Bester é uma viagem de montanha russa seguida de um murro no estômago.
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Outubro 19, 2007 • 2:37 am

Em 1883, os editores londrinos Field & Tuer, da Leadenhalle Presse, publicaram um panfleto, assinado por um tal James Millington, propondo uma alteração radical ao acto de ler. Na sociedade moderna, argumentava ele, somos obrigados a ler em condições muito pouco favoráveis – em comboios em movimento, com pouca luz, apressadamente, etc.
A solução seria optimizar a direcção de leitura: ao lermos apenas da esquerda para a direita, desperdiçamos o tempo e o esforço de deslocar os olhos para o começo da linha seguinte; lendo alternadamente da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, o problema ficaria resolvido. Evidentemente, a ideia não pegou e, hoje em dia, pouca gente se lembra de James Millington e de Are we to read backwards? or, What is the best print for the eyes?
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Setembro 25, 2007 • 12:35 pm

Por vezes, encontramos expressões familiares em situações inesperadas. Em Gödel Escher Bach – An Eternal Golden Braid, de Douglas Hofstadter, um livro complexo sobre – resumindo muito – matemática, lógica, ciências cognitivas, filosofia, entre outras coisas, aparece a certa altura aquilo a que o autor chama “operações tipográficas.” Não se trata porém da mesma coisa que um designer faria, mas de operações matemáticas. Quando fala de “operações tipográficas”, Hofstadter quer dizer operações em que se manipulam símbolos matemáticos sobre o papel, sem saber exactamente o que significam – ou seja, conhecendo pouco mais do que o seu aspecto e a sua posição na página.
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Setembro 1, 2007 • 1:19 pm

Quando estudei design, ensinaram-me a classificar a identidade gráfica de instituições e empresas, dividindo-a em marcas, logótipos e logomarcas. As marcas designavam identidades constituídas apenas por uma imagem, geralmente um desenho de tons planos e um número limitado de cores; os logótipos designavam texto, com o nome da empresa, instituição, pessoa, slogan ou evento a apresentar; as logomarcas juntavam imagem e texto. Desta forma, o sistema procurava fazer uma distinção entre identidade gráfica baseada em imagem e identidade gráfica baseada em texto.
A razão que me levou a desconfiar dele foi o conceito de “brand”, que se tornaria determinante na linguagem empresarial a partir dos anos 80. Se tinha a sua origem na identidade gráfica das empresas, agora a parte era usada para designar o todo, e “brand” tinha passado a ser a identidade da empresa em geral – que podia incluir mobiliário de escritório, fontes, cores, arquitectura, música, texto, uma mascote ou mesmo um porta-voz. Com esta mudança de sentido, começou a vulgarizar-se o uso da palavra “logo”, abreviatura de “logotype”, para designar a identidade gráfica.
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Agosto 10, 2007 • 12:51 pm

Embora aprecie os textos de Rui Tavares, confesso que só comprei O Arquitecto, uma edição da Tinta da China, pela capa e pelo design do seu interior, da autoria de Vera Tavares. Folheei-o para trás e para a frente, apreciando os pormenores gráficos, acabando por o deixar pousado sobre a gaveta da mesinha de cabeceira, no meio das canetas, dos CDs, das aspirinas, das revistas e do resto, à espera de oportunidade para escrever sobre ele.
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No centro do palco, iluminado por um foco, Scott Mcloud segura uma placa dizendo “Imagens estáticas justapostas em sequência deliberada”. Anteriormente, já tinha proposto outras definições de Bd, que a audiência tinha considerado inadequadas. Esta era apenas a última versão:
— Que tal está agora?
— Então e as palavras? — pergunta alguém na plateia.
— Oh, não tem que conter palavras para ser uma Bd.
— Não, não. Com essa definição também se pode descrever palavras, não é??
— Hã?
— As letras são imagens estáticas, certo? Quando são compostas numa sequência deliberada, umas a seguir às outras, chamamos-lhes “palavras”.
Scott McLoud, Understanding Comics.
Durante muito tempo considerou-se a Bd como uma literatura para iletrados, um cinema dos pobres, e isto não era apenas a versão popular dos acontecimentos, mas igualmente a posição académica que analisava uma banda-desenhada em termos de escalas de planos como se fosse o storyboard de um filme. No seu livro Understanding Comics, Scott McLoud formalizou uma noção que todos os verdadeiros criadores e apreciadores de Bd já conheciam de forma instintiva: a Bd não é uma mera cópia ou adaptação estática e infantilizada de outra coisa qualquer; ela é interessante precisamente por ser uma sucessão de desenhos e de palavras acompanhados por um leque específico de símbolos gráficos (balões, quadradinhos, legendas, etc).
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