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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Mitologia do Design Gráfico: A Memória Descritiva

Até o nome engana: dá a sensação que vamos ficar a saber como aquilo tudo foi feito. Em vez disso, somos besuntados com uma mistura de discurso de presidente de junta de freguesia com Matilde Rosa Araújo e Eduardo Prado Coelho.

Apesar de tudo, existe uma certa ironia involuntária e inocente que as memórias descritivas partilham com outros géneros literários semelhantes, como a Declaração de Rendimentos e o Curriculum Vitae. As melhores Memórias Descritivas são como um strip-tease epistemológico. Manipulam o leitor, acenando-lhe com a promessa de que tudo vai ficar mais simples. A obra torna-se um mero isco, um anzol, que conduz o leitor às subtilezas bizantinas da Mente do Designer.

O leitor olha para a peça de Design propriamente dita e até acha piada. Pensa que “entende” a coisa. Depois pega na Memória Descritiva e começa a ler: uma introdução concisa data a origem e importância remota do projecto nos frescos de Pompeia e no Big Bang, com notas de rodapé que insinuam como podia ter evitado a extinção dos dinossauros, a revista Xis e o Paulo Portas. Atordoado com as possibilidades, o leitor fica ainda a saber que é possível usar na mesma frase “sinergia”, “prótese”, “articulação”, “actual”, “conceptual”, “Primavera”, “alteridade” e uma quantidade indeterminada de advérbios de modo. Nas cinco páginas seguintes, Gilles Deleuze é citado para afirmar que “o homem tenta dominar a Natureza”; Foucault e Umberto Eco contrapõem, respectivamente, que “homem prevenido vale por dois” e que “no Inverno costuma chover”. Esta abundância de referências começa a dar a sensação precipitada que o autor é um presunçoso “name-dropper”, citando por tudo e por nada, mas nas últimas duas linhas o leitor envergonha-se das suas suspeições ao saber que o projecto é na verdade uma descontextualização “site-specific” de uma “banheira comprada na Vandôma”.

Concluindo (agora a sério): a maioria das pessoas pensa que qualquer desastre é válido e até interessante se tiver uma memória descritiva ao lado. Por exemplo:

Professor (apontando para o projecto): …é claro que se isto for posto em prática, noventa por cento da vida na Terra vai desaparecer.
Aluno (confiante): Eu sei, mas está tudo explicado na Memória Descritiva.

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Filed under: Design, Ensino, Linguagem

2 Responses

  1. A memória descritiva de um projecto coloca à prova o poder persuasivo da ingénua capacidade que um designer tem argumentar, ensaiando as virtudes de marketeer inerentes (riso). Muitas vezes é o que salva um projecto, n’est-ce pas? 🙂

  2. joana diz:

    como se faz uma memoria descritiva? eu tenho para fazer mas diz para eu procurar e apresentar propostas?? COMO SE FAZ??

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