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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Abril é Evolução

A supressão minimalista, quase tipográfica, de apenas uma letra vem inverter todo o sentido de um acontecimento histórico. É um trocadilho muito “design” (entenda-se “sofisticado” ou simplesmente “publicitário”). É o tipo de recontextualização que os designers e os copywriters gostam de engendrar. Neste caso, só chateia porque estamos a falar de coisas sérias ou (pelo menos) políticas.

O próprio design é o tema deste cartaz, poder-se-ia até argumentar. A fonte, arredondada e user-friendly, anunciaria facilmente um banco ou um telemóvel e não podia ser mais diferente das agressivas Univers Black Condensed da Revolução original. A imagem do cravo, repetida em quatro combinações cromáticas, é uma citação explícita das serigrafias de Andy Warhol, que por sua vez referenciam (e legitimam) a própria repetição industrial do design, elevando-a ao estatuto de arte. Até a composição do cartaz lembra um logotipo, com duas frases curtas e compactas alinhadas à direita pela imagem quadrada dos cravos. Nos anúncios televisivos, as estatísticas que pretendem ironizar o pessimismo português parecem tarifários de uma operadora telefónica. Toda esta coerência gráfica acaba por conseguir a proeza de recriar uma revolução como uma linha de produtos ou mesmo um estilo de vida, promovido através do testemunho de jovens empreendedores, bem sucedidos, artistas, etc.

Os criadores da campanha “Abril é Evolução” dirão que esta é apenas uma actualização necessária da imagem da Revolução dos Cravos para que uma geração nova a entenda. Mas uma mudança de imagem nunca é apenas uma mudança de imagem. Os designers e os copywriters sabem que um rebranding bem sucedido não é um acto neutro de actualização. Através de uma reinterpretação, uma situação popularmente positiva, que se tornou obsoleta e incómoda, pode ser reclamada por um novo status quo. Efectivamente, mesmo um olhar superficial sobre esta campanha percebe que não se trata de uma actualização ou rejuvenescimento, mas de uma verdadeira inversão ideológica através de um acto de design.

Talvez o design tenha sido a consequência derradeira destes trinta anos e este cartaz acabe por ser a própria mensagem que quer transmitir. Até a Revolução pode ser reduzida a merchandising.

Filed under: Cartaz, Cultura, Design, História, Logos, Política, Publicidade

One Response

  1. […] é Evolução”, acompanhado por quatro cravos arranjados numa composição à Warhol. Na altura, escrevi sobre o assunto, argumentando que a campanha era um rebranding “brando” da revolução; quatro […]

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