The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Três Pontos

Nos últimos meses tenho passado pela FNAC com um único propósito: ver se a última DotDotDot já chegou. Na quinta-feira passada fui recompensado: estava lá o número sete. Apesar da conta bancária quase vazia, comprei-a imediatamente. Desde então tenho-me dedicado a estudar as suas subtilezas e a provocar a inveja dos amigos menos afortunados (entretanto já esgotou).

A capa tem desenhada uma espiral a preto sobre papel creme (descobri que foi pintada à mão com tinta da china; era possível ver a sobreposição das pinceladas e as bolhas de secagem nas áreas mais densas). Apropriadamente, a contracapa tem escrito, em letras vermelhas, utilitárias e muito grandes: “God is in the Footnotes (pay no more than 10 euros)”.

A revistita nem sempre me motivou estas ânsias: a primeira vez que a vi (foi o número quatro) pareceu-me mal paginada, mal impressa, naquele papel “reciclado” que ocupa a parte de baixo das tabelas de preços das gráficas. Parecia um livro da catequese. Tinha mau aspecto. Na altura, cheguei a chamar-lhe “Fanhoso-Chique”. Poderia ser confundida com uma revista cultural portuguesa da altura em que não havia dinheiro para imprimir revistas culturais em Portugal. Estou a falar nos primeiros números da Bíblia, da Número, da Nu, etc.

Mas, apesar de todos estes defeitos aparentes, comprei-a. Gostaria de dizer que o fiz por ter “compreendido” a coisa à primeira — uma espécie de acto de fé. Infelizmente, comprei-a apenas por ser barata; só depois é que fui iluminado.

Esta é uma revista holandesa, escrita em Inglês por um conjunto internacional de críticos e designers. Trata de todo o tipo de assuntos que possam interessar remotamente a um designer gráfico, desde a tipografia Suiça de Rudolph de Harak, até testes russos de Sinestesia (pessoas que ouvem cores e cheiram sons) passando pela escola de taxistas de Londres (tudo exemplos do número seis, o primeiro impresso a cores).

Os temas parecem desconexos, mas são tratados com um rigor e uma profundidade comoventes. Designers conhecidos são analisados da mesma maneira que placas de monumentos, gestos obscenos, guias para observadores de pássaros e exposições de arte.

A diferença entre a DotDotDot e o resto da imprensa especializada internacional é que não fala de designers, apenas de Design, visto como uma actividade ao alcance de todos, popular, mas também exótica e inesperada que aparece nos sítios mais estranhos.

O design gráfico passou a ser uma ocupação tão democrática como escrever ou desenhar. Seria ingénuo continuar a pensar que só pessoas com um diploma a poderiam exercer legitimamente. Naturalmente, a crítica do design gráfico teria que acomodar esta mudança abandonando a sua natureza normativa e moralista (“não se deve usar Times corpo 12”, “deve-se educar o cliente”), tornando-se mais humilde, observadora e abrangente. Os críticos da DotDotDot compreenderam que, neste momento, qualquer pessoa que tenha um computador pode fazer design gráfico. Esta é a verdade pura e simples.

Filed under: Cultura, Design, Publicações, Tipografia

20 Responses

  1. Anonymous diz:

    Tr~es pontos vai ser o que apanhas nessa testa, quando me cruzar contigo na Fnac do Matosinhos. Um aviso do Designer Revoltado.

  2. Anonymous diz:

    já à algum tempo que me delicio com as descrições e a escrita deste blog. muito obrigada. a minha relação com a dotdotdot passa por uma sensação semelhante, quando a vi pela primeira vez estranhei (e ainda estranho) as escolhas tipográficas, o arranjo pouco cuidado (será?) e a abordagem. agradeço a análise tão esclarecida, de facto, alargou-me os meus tão curtos horizontes.

  3. Anonymous diz:

    Aquilo que me parece, é que lhe falta explicar a diferença entre mass media e self media, aí é que está a explicação para isso de qualquer um ser designer.

  4. Anonymous diz:

    Caro Ressabiator,

    umas linhas rápidas, se me permites – os chamados “two cents” para a conversa…
    O comentário que é feito à DotDotDot faz todo sentido.
    Sendo o Design algo a encarar com naturalidade, acho feliz a análise que fazes à DDD com expressões como rigor, humildade e abrangência.
    Registo, nesta nossa realidade à beira mar plantada, algumas fugas para a frente no que toca ao rigor, fuga muitas vezes fruto de umas distorcidas noções de abrangência!

    Espero mais tarde voltar com uma opinião ao teu trabalho, assim como ao DesignerX. Elogios mas também algumas alfinetadas, pode ser?

    1 abraço. M

  5. Anonymous diz:

    “Os críticos da DotDotDot compreenderam que, neste momento, qualquer pessoa que tenha um computador pode fazer design gráfico. Esta é a verdade pura e simples.”

    Tanto tu como a dotdotdot estão errados e num é por ser a dotdotdot o dizer que vai passar a estar certo é tão estupido como dizer qualquer um que tenha um computador pode ser arquitecto… autocad / computador / fazer desenhos de casas no computador / uau sou arquitecto… desconfia antes das coisas simples. Já nem falo da legitimidade de exercer uma profissão. Agora fazer design pode à vontade… também posso comprar uma bata branca e brincar aos médicos mas só em casa.

    O que os criticos da dotdotdot deveriam compreender é que já vai sendo tempo da profissão ser regulamentada, porque a javardice é total e os computadores são muitos.

    Quanto às viagens perdidas á Fnac podes sempre assinar a revista ou ir à Fnac Gaia que tem lá.

  6. Anonymous diz:

    Eu acho que comparar o design à medicina ou à arquitectura é um pouco tendencioso.
    Programas como o word, o corel e o photoshop permitem a qualquer um fazer um design mínimo razoável. Ainda não há nenhum programa de computador que permita operar pessoas com um clique do rato (quanto à arquitectura, qualquer trolha que se preze constrói a sua própria casa). No dia em que o design depender apenas de proteção legal para ser legítimo ou existir, estamos tramados. De certa maneira, um designer dizer que só os designers podem fazer design, é como um aluno de letras dizer que só os escritores podem escrever.
    (tem piada, a maioria dos designers que acham que a sua profissão é sagrada e depende de muito estudo escrevem num português … “criativo”)

  7. Anonymous diz:

    sinceramente somos pagos para “desenhar” não para escrever os Lusíadas 2.

  8. Anonymous diz:

    Valha-me nossa senhora: word // corel / design razoavel // programa pa operar pessoas // outro que num escreve os lusiadas, como se ninguém percebe-se isso, a sério? // trolhas arquitectos.

  9. Anonymous diz:

    ainda bem que há tanta gente a defender os médicos, num país em que 100% cento das pessoas se auto-medicam.

  10. Anonymous diz:

    A SAÚDE é o bem mais precioso que temos. Estamos portanto interessados em mantê-lo.

    Assim sendo, temos que esforçar-nos constantemente por manter um estilo de vida saudável.

    Ninguém está contudo livre de problemas de saúde. Há pequenos problemas que são inevitáveis e que têm de ser aceites como factos da vida. Poderão ser difíceis de evitar, mas podem ser melhorados e muitas vezes suprimidos através da auto-medicação.

    O QUE É A AUTO-MEDICAÇÃO?
    O uso de medicamentos disponíveis sem receita médica é hoje geralmente aceite como parte integrante do sistema de saúde. Vai ao encontro do desejo crescente de cada indivíduo de assumir a responsabilidade pela sua própria saúde. Quando praticada correctamente, a auto-medicação pode também contribuir para aliviar financeiramente os sistemas de saúde pública.

    A classe médica reconhece que:

    1. A auto-medicação é o uso pelos pacientes de medicamentos não sujeitos a prescrição médica destinados ao tratamento de sintomas e doenças sem gravidade.
    2. O paciente assume plenamente a responsabilidade pelo seu tratamento. É pois importante que leia atentamente o folheto acompanhativo do medicamento ou o seu rótulo.
    3. Os médicos e os farmacêuticos desempenham um importante papel de assistência, aconselhamento e informação aos pacientes no que respeita à auto-medicação e ao uso racional de medicamentos. Os laboratórios farmacêuticos os principais fornecedores de informação sobre os medicamentos.
    4. O período durante o qual um paciente se pode auto-medicar variará consoante as circunstâncias, mas não deve normalmente ir além de três a sete dias.
    5. Todos os medicamentos, incluíndo os de auto-medicação, são fabricados segundo as mesmas normas UE de segurança, qualidade e eficácia.
    6. A auto-medicação é desaconselhável e dever-se-à consultar o médico nos seguintes casos:
    * se os sintomas persistirem;
    * se os sintomas piorarem ou se o paciente tiver uma recaída;
    * se o paciente tiver dores agudas;
    * se o paciente tiver tentado ou um ou mais remédios sem sucesso;
    * se surgirem efeitos não desejados;
    * se o paciente estiver persuadido da gravidade dos seus sintomas;
    * se o paciente tiver problemas psicológicos, tais como ansiedade(1), inquietação(2), depressão(3), letargia(4), agitação(5) ou hiper-excitabilidade(6).
    7. Particular atenção deve ser prestada aquando da administração em caso de gravidez ou de aleitação, assim como a bebés ou crianças.

    NA PRÁTICA…
    As doenças de menor gravidade que podem ser tratadas por meio da auto-medicação são, por exemplo:

    * constipações e gripes;
    * tosse;
    * dores de garganta;
    * infecção recorrente das narinas (incluindo a febre dos fenos);
    * úlceras da boca;
    * digestão incompleta ou difícil (incluindo azia);
    * fezes pouco frequentes e difíceis;
    * vómitos, diarreia;
    * «pilhas» (hemorróidas);
    * queimadura solares;
    * verrugas;
    * dores ligeiras a moderadas, tais como enxaquecas e dores musculares;
    * problemas ligeiros a moderados da pele, como por exemplo feridas, picadas de insectos, eczema, etc.

  11. Anonymous diz:

    Nunca mais me vou conseguir automedicar com o mesmo sentido de risco e impunidade que tinha dantes. Parece o código da estrada 😦

  12. Anonymous diz:

    Moral da história… ninguém está aqui a defender que é preciso um designer de cada vez que se escreve o destinatário na carta que se vai mandar para a avó. Mas daí a achar que não é preciso ser designer e ponto final porque agora temos software com função “design” – está mal, até porque esse software não existe como não existe um que opere, basta olhar para o país para perceber isso. Se calhar é por ser tão simples nestes dias armar ao designer que agora mais que nunca é preciso criar regras. É que dantes para tocar guitarra era preciso unhas mas agora é um facto que qualquer trolha com um corel pirata apresenta orçamentos abaixo de tudo que é razoavel, e mesmo assim vive feliz com a sua miseravel existencia. Afinal ele tem um corel e um word num pagou nem um nem outro também não paga impostos nem empregados, resumindo produz m-e-r-d-a e ajuda a que o pais seja a m-e-r-d-a- que se vê. A Holanda e Portugal estão a anos luz um do outro nesta area – não existe comparação possivel.

  13. Anonymous diz:

    depois de ler a maior parte destes comentários, chego a pensar que o nome deste blog não podia ser mais apropriado. longa vida ao ressabiator.

    um abraço
    luís

  14. Anonymous diz:

    Ressabiator…a ler revistas dessas e a defender ideias dessas, por esta altura já deves compreender porque é que tens o “trabalho que tens”.

    um abraço…
    da terra dos patos e dos gatos

  15. […] enquanto o seu currículo era projectado em loop no ecrã atrás dele: co-editor da revista Dot Dot Dot, fundador da editora e “livraria ocasional” Dexter Sinister, designer de revistas, autor de […]

  16. […] que o entusiasmo que tenho por estas revistas não seria possível dez anos atrás. Ainda me lembro da má impressão que me deixaram os primeiros números da Dot Dot Dot, por me parecerem publicações feitas num […]

  17. luix diz:

    …só pra lembrar que um dos nomes do design dos anos 90 – David Carson – não era oficialmente designer…

    luix.

    • Na minha humilde opinião, é-se designer porque se faz design, com tudo o que isso implica.

      Nos países onde se fala inglês, às vezes nos currículos diz-se que fulano de tal foi treinado como um designer, o que implica que a formação não determina totalmente aquilo que ele é.

  18. […] que o entusiasmo que tenho por estas revistas não seria possível dez anos atrás. Ainda me lembro da má impressão que me deixaram os primeiros números da Dot Dot Dot, por me parecerem publicações feitas num […]

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