The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Somos os Maiores

Há uns tempos, ouvi dizer que um concurso de design premiava os membros do seu próprio júri. Recebi os mails, discuti o assunto no café e nas aulas. Fiquei sem saber a conclusão do caso. Feitas as contas, parece-me uma boa parábola sobre o estado do design gráfico nacional. Não conseguindo ver um palmo à frente do próprio nariz, dedicamo-nos – inocentemente ou não – a pregar medalhas no próprio traseiro. O design gráfico nacional é mesmo assim: cada designer fechado no seu cantinho, desconhecendo tudo o que se passa fora da sua rua, mas conhecendo – paradoxalmente – tudo o que se passa “lá fora”. Por cá, um quilometro até podiam ser mil e o design português permanece num nível estritamente local, quase de bairro, excepto três ou quatro nomes com “provas dadas”.

Ora isso das provas dadas pode até nem ser um elogio. “Provas dadas” significa valor seguro, acima de escrutínio – que nem precisa de se esforçar. O território das “provas dadas” costuma ser o território da complacência, onde reinam códigos de silêncio que só são interrompidos pelo som frequente das palmadinhas nas costas e pela dupla adjectivação auto-elogiosa.

É claro que há sempre designers que querem mais do que isso. Fazem sempre mais e, se possível, melhor. Fazem-no há anos, por vezes há décadas. A sua melhor recompensa seria uma avaliação feita pela melhor bitola possível; o maior elogio que se lhes poderia fazer seria levá-los a sério; tentar entendê-los; testá-los e pô-los à prova. Comentá-los. No entanto, graças à complacência e conservadorismo gerais, tentar ser excelente e discutir a excelência no contexto do design português é o equivalente a fazer trainspotting em Inglaterra ou ser fã do Caminho das Estrelas nos Estados Unidos- uma coisa que até é fixe aos dezoito mas que aos trinta já parece mal.

Nestas circunstâncias, reconhecer um exemplo de bom design pode ser difícil. Há quem fale de legibilidade, clareza, vernizes, prémios e idas à gráfica. Prefiro pôr as coisas de uma maneira mais directa: o bom design é como um murro no estômago. É um grande ponto de interrogação a acusar-nos de não nos termos lembrado daquilo antes, de não estarmos em casa a trabalhar sem dormir nem comer desde a semana passada. O bom design é humilhante – no melhor sentido do termo. E melhor ainda: não fica limitado a esse primeiro momento. O bom design sobrevive. Sobretudo quando tem gente que o debata, que o compare, que o pese, que o defenda e o ataque.

Portanto, o meu conselho a toda a gente é: quando virem bom design, tentem registá-lo, tentem escrever sobre ele. Não tenham medo de o pôr em causa – se for mesmo bom ele aguenta. E lembrem-se: não há pré-requisitos para ter uma opinião. Não esperem trinta anos para fazer um juízo crítico – só vão ganhar prática a ficar calados. Ter opinião implica que haja alguém que não concorde connosco. Habituem-se a isso. Não tenham medo de dizer as coisas óbvias – em Portugal, até isso costuma ficar por dizer.

Agora – por favor – não percam tempo. O design não dura muito se ninguém lhe pegar.

Filed under: Ética, Crítica, Cultura, Design, Política

17 Responses

  1. João da Concorrência diz:

    Isto dói muito na barriga?
    Olha lá: Há festa na província!

  2. João da Concorrência diz:

    Isto dói muito na barriga?
    Olha lá: Há festa na província!

  3. Vasco Pulido Valente diz:

    Olá, será que alguém me podia explicar qual o interesse do Design? O que é que vos faz gostar desta actividade? Eu olho aqui para as capas dos livros e questiono-me porquê este entusiasmo todo por conjugações habilidosas de tipografia, formas, cores etc. Não consigo perceber mas gostava.

    Obrigado

  4. Anonymous diz:

    ressabiator: és um fixola 😀
    subscrevo inteiramente.
    contra os barões, criticar, criticar!! construtivamente, claro. mas que se agitem as cabeçinhas, antes de ganhem gorgulho (era mofo, mas lembrei-me primeiro de gorgulho e achei mais giro).

  5. Anonymous diz:

    Isto é uma aula on-line?
    Quem é que pediu conselhos a este senhor? Ou porque é que este senhor se sente na “bondade” de dar conselhos?

    Sr. Pulido Valente:
    Pode explicar o interesse das intrigas políticas? Escapa-me o entusiasmo em seguir aqueles que não conseguimos ser, depois de poucos dias na Assembleia. Olho aqui para as páginas dos jornais… não consigo perceber, mas gostava.

  6. Vasco Pulido Valente diz:

    O interesse das intrigas políticas. Uma citação de um conhecido filme norte-americano resolve facilmente a questão.

    “the horror, the horror”.

    Agora meus senhores, aguardo pacientemente as vossas explicações.

  7. Anonymous diz:

    Este senhor sente-se na bondade de dar conselhos porque lhe apetece. Se os recebes ou não é contigo (tão simples quanto isso)!

  8. Anonymous diz:

    O interesse do design. Uma citação de um conhecido filme norte-americano resolve facilmente a questão.

    “The stuff that dreams are made of.”

    Já os designers… Nada que uma citação de outro conhecido filme norte-americano não resolva.

    “I am big! It’s the pictures that got small.”

    JRF

  9. paulo plus diz:

    POEMA EM LINHA RECTA
    Álvaro de Campos

    Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
    Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

    E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
    Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
    Indesculpavelmente sujo,
    Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

    Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
    Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
    Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
    Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
    Que quando não tenha calado, tenho sido mais ridículo ainda;

    Eu que tenho sido cómico às criadas de hotel,
    Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
    Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
    Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenha agachado,
    Para fora da possibilidade do soco;
    Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
    Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

    Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
    Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
    Nunca foi senão príncipe . todos eles príncipes na vida…

    Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
    Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
    Que, contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
    Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
    Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

    Ò príncipes, meus irmãos,
    Arre estou farto de semideuses!
    Onde é que há gente no mundo?

    Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

    Poderão as mulheres não os terem amado,
    Podem ter sido traídos . mas ridículos nunca!
    E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
    Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
    Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
    Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

  10. glauconhttp://glauconlab.blogspot.com/ diz:

    o interesse do design, gráfico neste caso, é similar ao uso do adjectivo do verbo ou da metáfora na língua. liga os elementos visuais da composição.
    a estética, naturalmente, é discutível.

  11. glaucon diz:

    o interesse do design, gráfico neste caso, é similar ao uso do adjectivo do verbo ou da metáfora na língua. liga os elementos visuais da composição.
    a estética, naturalmente, é discutível.

  12. Pedro C. Monteirohttp://pcortesaomonteiro@lis.ulusiada.pt diz:

    Caro Ressabiator,

    Há já uns tempos que ando para fazer isto: dar-lhe os parabéns pelo blog e dizer-lha que há mais quem esteja com atenção e quem sinta a mesma necessidade de reflexão. Estes comentários em (curto-)circuito fechado parecem provar isso mesmo…
    Gostei bastante da entrevista à NADA, particularmente – já que estamos nos equívocos – da relação que estabelece entre o bom-gosto como “qualidade” das pessoas e do design como “qualidade” dos objectos.
    Um abraço,

    pcm

    PS – Só não percebo é porque é que nesta página de comentários me aparece tudo em japonês. Espero que isto chegue direito.

  13. Pedro C. Monteiro diz:

    Caro Ressabiator,

    Há já uns tempos que ando para fazer isto: dar-lhe os parabéns pelo blog e dizer-lha que há mais quem esteja com atenção e quem sinta a mesma necessidade de reflexão. Estes comentários em (curto-)circuito fechado parecem provar isso mesmo…
    Gostei bastante da entrevista à NADA, particularmente – já que estamos nos equívocos – da relação que estabelece entre o bom-gosto como “qualidade” das pessoas e do design como “qualidade” dos objectos.
    Um abraço,

    pcm

    PS – Só não percebo é porque é que nesta página de comentários me aparece tudo em japonês. Espero que isto chegue direito.

  14. Pedro C. Monteiro diz:

    Adenda:

    A redacção anterior não foi muito feliz: o que os comentários “em (curto-)circuito fechado” provam é a necessidade de haver mais debate e reflexão. Precisamente o contrário da permanente preocupação com os umbigos, que alguns deles parecem revelar.
    E, obviamente, era “-lhe” e não “-lha”.

    pcm

  15. glauconlabhttp://whatisdesign.blogspot.com/ diz:

    e eu queria reforçar o que os post anteriores diz. o ressabiator faz falta, pena é que não tenha actualizações mais próximas umas das outras.

  16. glauconlab diz:

    e eu queria reforçar o que os post anteriores diz. o ressabiator faz falta, pena é que não tenha actualizações mais próximas umas das outras.

  17. musqueteira diz:

    Viva The Ressabiator,
    “Ficam coisas para dizer…”só para quem… não as diz! Isso do Design tem muito o que se lhe diga…nos anos 89/90…a maior parte das pessoas perguntavam para é que isso do Design servia…e, não foi à muito tempo!O que é preciso mesmo…neste País…não é criticar tudo e todos…mas sim Fazer…Realizar…Concluir…Produzir!

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