The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

45 Minutos

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Fui a mais uma conferência Personal Views na Esad de Matosinhos. Cheguei uma hora antes, mas já havia fila: umas quarenta pessoas amontoadas junto à porta do auditório, a maioria de pé, uns poucos em cadeiras de plástico roubadas à esplanada do bar da escola, onde mais alguns tomavam café, olhando de vez em quando para a fila que aumentava. Era cada vez mais óbvio que a sala ia encher, como tinha acontecido com quase todas as Personal Views deste ano (mesmo a do relativamente desconhecido William Owen esteve quase cheia).

Grupos de pessoas conversavam, comprimindo-se cada vez mais em direcção à porta. Havia gente preocupada com a conferência de Stefan Sagmeister no dia seguinte na Casa da Música. Será que era preciso reservar bilhete, apesar da entrada ser livre? Ninguém sabia. Alguém sugeria que se telefonasse a alguém que conhecia alguém na bilheteira. Entretanto, chegava o organizador das Personal Views, o designer Andrew Howard, seguido por Erik Spiekermann, o orador, e – inesperadamente – por Stefan Sagmeister, vestido com uma espécie de casaco de peles, apesar do calor. A conferência começava com bastante atraso. Consegui entrar quase à justa.

Spiekermann foi um orador divertido, com uma cadência de quase duas piadas por frase e um inglês muito fluente, conforme ele próprio avisou no começo. Informou que iria dar a conferência em quarenta e cinco minutos, mas a coisa resvalou para uma hora e pouco, com apenas uma pergunta final da audiência.

Apresentou um design meticuloso e eficiente, produzido e consumido industrialmente. O seu processo de criação de fontes foi uma novidade para mim: desenhava apenas alguns caracteres e depois um designer especializado (não apanhei o nome) criava o resto dos glifos. Ironizou que praticamente todo o design público alemão era feito por ele – dados os exemplos, não sei se era realmente ironia.

Por vezes, o discurso foi ambíguo. Disse que os consumidores não eram burros, passivos e distraídos, mas assumiu que ninguém estaria atento numa conferência com mais de quarenta e cinco minutos – a maioria da audiência tinha esperado mais que isso – ou leria um texto grande, sem saber à partida a sua extensão. O discurso foi mais interessante quando descreveu a forma como tomava decisões em termos gráficos, mas resvalava demasiado depressa em direcção a anedotas de cliente e a generalidades sobre a personalidade do designer.

Há dois ou três anos, uma conferência de design não esgotaria uma sala tão pequena. Agora, oradores relativamente menos conhecidos do que Spiekermann enchiam-na. Também começava a ser evidente que muitas das caras que se repetiam na audiência – alguns de Coimbra, outros de Lisboa ou mesmo de Faro – não vinham ver um designer específico, mas vinham pelo próprio evento, para ver outros designers, para conversar à porta com velhos conhecidos, ou para pedir um autógrafo ao convidado. Aparentemente, a sucessão de nomes mais ou menos sonantes das conferências da Esad ia revelando o animal mais raro e furtivo do design português: um público regular.

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Filed under: Cliente, Conferências, Crítica, Design, Fontes, Tipografia

3 Responses

  1. […] A conferência foi espectacular, apesar da fraca adesão do público (qualquer parcialidade é pura coincidência…). Será que as pessoas estavam com medo de não ter lugar? Será que não conheciam Unger (o que é estranho porque o Blauvelt é ainda mais desconhecido…) Ou ainda, será que o Design Tipográfico não gera assim tanto interesse? (O que é ainda mais estranho, visto que, histórica e metodologicamente, está no cerne da actividade da prática e do ensino de Design de Comunicação). Há dois ou três anos, uma conferência de design não esgotaria uma sala tão pequena. Agora, oradores relativamente menos conhecidos do que Spiekermann enchiam-na. The Ressabiator […]

  2. […] A conferência foi espectacular, apesar da fraca adesão do público (qualquer parcialidade é pura coincidência…). Será que as pessoas estavam com medo de não ter lugar? Será que não conheciam Unger (o que é estranho porque o Blauvelt é ainda mais desconhecido…) Ou ainda, será que o Design Tipográfico não gera assim tanto interesse? (O que é ainda mais estranho, visto que, histórica e metodologicamente, está no cerne da actividade da prática e do ensino de Design de Comunicação). Há dois ou três anos, uma conferência de design não esgotaria uma sala tão pequena. Agora, oradores relativamente menos conhecidos do que Spiekermann enchiam-na. The Ressabiator […]

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