The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Montanha

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Depois de meses de expectativas altas alimentadas pela mediatização do processo, com perfis e entrevistas distribuídas pelo Expresso, Público, DN, JN, era mais ou menos inevitável que a nova identidade da Casa da Música fosse para muitos uma desilusão. O próprio Sagmeister apareceu defensivo em palco, menos eloquente do que na Exd 2005, aparentemente surpreendido por grande parte da sua audiência ser constituída por designers. Começou por se dirigir a eles, desvalorizando a objecção previsível de que deveria ter sido um designer português a fazer aquele trabalho.

De qualquer das formas, é uma objecção que nunca fez sentido. O design é uma actividade historicamente cosmopolita, exercida muitas vezes por pessoas bem longe do sítio em que nasceram: Ladislav Sutnar, Alexei Brodovitch, Jan Tschichold ou Rudy VanderLans (Émigrè é um dos melhores títulos para uma revista de design). Por outro lado, nunca houve falta de designers portugueses a trabalhar para a Casa da Música: pelo menos cinco firmas, a maioria delas ao mesmo tempo, numa salgalhada gráfica que, pelo menos, representava bem a indefinição administrativa da instituição. Não havia muitas maneiras airosas de sair da situação: manter uma das firmas seria prolongar simbolicamente o imbróglio, hostilizando pelo caminho as firmas descartadas; um concurso de Design em Portugal acaba quase sempre em confusão e tornaria as funções de Guta Moura Guedes redundantes. Uma das maneira clássicas de resolver o problema seria contratar uma figura internacional de renome.

Com Stefan Sagmeister, apelava-se à mesma visibilidade cosmopolita que a arquitectura de Koolhaas. No entanto, apesar da lista impressionante de clientes, e da quantidade de trabalho estimulante produzido ao longo dos anos, quando me disseram que ia fazer a imagem da Casa da Música não me consegui recordar de nenhum exemplo de identidade institucional concebida por ele. Uma consulta ao livro Sagmeister – Made You Look revelou que os melhores exemplos do seu trabalho de identidade gráfica foram realizados para firmas pequenas (Frank’s Disaster Art), indivíduos (ele mesmo) ou eventos (a Bienal da AIGA em 1997). Para instituições maiores, o design em si era relativamente conservador (como a Kunsthalle Tirol ou a sala de concertos Ronacher), dependendo de uma direcção de arte excêntrica.

Para a Casa da Música, Sagmeister apresentou um programa de computador que gera logótipos para cada situação, usando como base versões simplificadas dos seis alçados e plantas do edifício. Durante a conferência, mostrou que a cor dos logótipos mudava automaticamente de acordo com as imagens usadas; mostrou uma versão 3D animada, usada em filmes e spots publicitários, que aparentemente pode reagir ao som; mostrou vários cartazes de concertos, eventos e serviços; mostrou uma variação do logótipo para o Remix Ensemble, usando a versão 3D como uma lente facetada. Sugeriu, numa inversão optimista, que o próprio edifício acabaria por ser o maior logótipo dentro do sistema de identidade. Segundo Sagmeister, o sistema permitia criar soluções únicas para cada público e para cada situação, mas apresentou-o como se fosse uma mera ferramenta digital, despersonalizando o processo e tirando ênfase às decisões dos designers – a fonte mono-espaçada da autoria do atelier Norm também não ajudava, acentuando o lado mecânico do processo. Porém, isto são problemas da apresentação em si; o sucesso da identidade vai acabar por depender de um art-directing bastante forte.

Na segunda parte, Sagmeister demonstrou que é sobretudo um designer de eventos e de objectos. Apresentou uma série de frases curtas, “Everything You Do Comes Back To You”, “Trying to Look Good Limits my Life”, “Everybody Thinks They are Right”, “Having Guts Always Works Out For Me”, escritas usando todo o tipo de materiais e situações. Por vezes, eram grandes produções (macacos insufláveis gigantes ou um zepellin com uma marioneta pendurada), outras eram construções precárias (palavras feitas de salsichas cortadas e das suas sombras, frases escritas com folhas de árvore na rede de uma vedação e panos esticados entre árvores que num determinado ângulo revelavam palavras), ou simulações em Photoshop (letras desenhadas por gotas de urina em suspensão ou em galhos de árvore). Sagmeister afirmou a certa altura que gostaria de nunca ficar mais de três dias num hotel de luxo. Se no primeiro dia o quarto parece perfeito, no segundo dia começam a aparecer defeitos e no terceiro mais valia já não estar lá – o que é uma boa descrição dos seus trabalhos mais mediáticos, grandes produções de lettering requintado mas de aparência transitória.

À saída, alguns designers com quem falei demonstravam alguma desilusão. Dada a mediatização do evento, estavam à espera de uma coisa mais excêntrica, talvez na linha do lettering orgânico mostrado na segunda parte. Esperava-se um sistema hiper-personalizado, que acabou por ser apresentado como se fosse uma ferramenta digital.

Mas feitas as contas, Sagmeister cumpriu aquilo para o qual foi contratado. Nunca antes um trabalho de design gráfico tinha sido tão mediatizado aqui em Portugal, o que só pode ser um bom estímulo para a profissão. Tal como já se referiu aqui, as instituições culturais como a Casa da Música ou estão em expansão permanente, procurando a todo o custo eventos que possam mediatizar, ou estão a falir. Sagmeister deu à Casa da Música muita da visibilidade que desesperadamente procura; como bónus, tirou-a da embrulhada gráfica em que estava metida, embora com uma solução por defeito. Na nova economia cultural, se uma montanha estiver cheia de bonitas florestas, estâncias de esqui glamorosas, lagos refrescantes e aldeias acolhedoras que interessa se eventualmente pariu um rato?

Filed under: Conferências, Crítica, Cultura, Design, Logos

One Response

  1. […] por mais de uma vez referi a história conturbada do design da Casa da Música. Porém, nos últimos tempos a coisa […]

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