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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Uma Questão de Educação

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Há alguns anos concorri a um emprego onde pediam um licenciado em design de comunicação, alguém que soubesse trabalhar em FreeHand, Photoshop, QuarkXpress e Director. Eu já tinha experiência nessas áreas e acabei por ser contratado como técnico de design na Faculdade de Belas Artes do Porto. Durante o período em que ocupei o cargo aprendi muitas coisas sobre design, coisas que, muitas vezes, contradiziam aquilo que tinha aprendido naquela mesma escola. Uma dessas contradições tinha a ver com um dos gritos de guerra mais famosos do design gráfico: “É preciso educar o cliente.”

Esta frase era dita regularmente nas aulas e nas conferências a que ia assistindo durante e depois do curso. O seu sentido era simples e óbvio: o designer devia ensinar o cliente a compreender a actividade do designer. Na prática isto significava que o cliente devia aprender que só o designer entendia o design; que só o designer se podia ocupar de todas as tarefas ligadas ao design (especialmente as de gestão); que, em resumo, o design era exclusivamente para os designers. O cliente podia dar educadamente a sua opinião, e o designer podia – e devia – demonstrar-lhe, com abundantes exemplos, que essa opinião estava errada. Era também comum acrescentar-se que os designers deviam dar ao cliente aquilo que ele não sabia que queria. Assumia-se com tudo isto que o cliente era estranho à disciplina do design – um leigo – só tomando contacto com o design enquanto serviço contratado.

No meu emprego como técnico estes ensinamentos não me serviam de muito. Trabalhando numa escola de design , os meus clientes eram os alunos e os professores. No entanto, muitos dos meus trabalhos eram versões em ambiente escolar de trabalhos de atelier (cartazes, aplicações interactivas, desdobráveis, etc.) Devido à imagem do designer típico, que me foi transmitida enquanto aluno, era-me difícil entender aquilo que eu próprio fazia como design. A maioria dos meus clientes via-me como um funcionário, um técnico informático e, verdade seja dita, eu não discordaria. Só recentemente, ao reler o anúncio de emprego a que concorri, reparei que era praticamente igual ao anúncio típico para contratar um designer para um atelier ou empresa.

Apesar de todas estas incompreensões tive acesso a uma visão rara da vida na escola: a maneira como os alunos faziam realmente os trabalhos – longe da memória descritiva, dos professores e do paleio da apresentação; as pressas e as emoções de última hora; a forma como aquilo que os professores pediam era realmente interpretado e cumprido.

Lembro-me de um caso em particular que pode servir de exemplo nesta discussão sobre “educar o cliente”: uma aluna veio pedir-me uma aplicação em Flash ou Director para passar imagens num projector durante uma apresentação. Era a antevéspera da entrega. Quando lhe comecei a explicar como podia fazer o slide-show, ela interrompeu-me e disse que eu não estava a entender: não queria que eu a ensinasse a fazer o trabalho, queria que eu fizesse o trabalho. Já que toda a gente estava a apresentar trabalhos interactivos nesse ano, ela também queria qualquer coisa do género. Neste caso, a educação do cliente tinha falhado completamente (não lhe fiz o trabalho), e demonstra também a maneira como muitos designers lidam com outros designers (é difícil educar o cliente quando ele também é um designer).

A maioria das vezes, a expressão “educar o cliente” limita-se a ser uma metáfora, bem intencionada, mas ainda assim uma metáfora. “Educar” significa desfazer e corrigir as ideias pré-concebidas do cliente. Por vezes, a intenção é ligeiramente diferente e a “educação” é mais “tradicional”, mais dura e paternalista. Tal como um pai a um filho metediço, o designer está a dizer ao cliente que não se meta naquilo que não entende. Em qualquer dos casos, costuma ser uma afirmação retórica, sem efeitos duradouros, tanto no cliente como no designer.

No entanto, existem alturas em que a educação do cliente é sincera e bem-intencionada. Num artigo da revista Print, a designer Ellen Lupton conta como um dia a sua irmã gémea lhe pediu para paginar um trabalho académico volumoso. Este género de trabalho, mesmo quando é pago, costuma ser ingrato (quem já trabalhou numa dissertação conhece bem a situação). Depois de algumas tentativas, Lupton acabou por decidir que a melhor solução era ensinar à irmã rudimentos de paginação, a usar o Adobe InDesign, ajudando-a depois pontualmente. Esta abordagem levou as duas irmãs a criarem um site onde ajudam não-designers a terem acesso aos processos e tecnologias do design gráfico.

Esta é uma ideia polémica – o que é compreensível. Depois de pagar um curso, comprar um computador, bibliografia, e tudo o mais, a ideia que qualquer pessoa pode fazer design parece bastante subversiva para a maioria dos designers licenciados. Há até quem diga que devia ser ilegal. Boa parte da conversa sobre a profissionalização do design assenta no imperativo de que só os designers podem fazer design. Subentende-se que o design é de utilidade universal – toda a gente precisa dele, toda a gente o entende; no entanto, não deve ser acessível a toda a gente. Nem toda a gente o pode praticar, apesar das tecnologias do design serem de venda livre, desde os computadores às gráficas.

Normalmente, neste ponto é costume comparar-se o design à medicina – “Só os médicos podem exercer medicina, logo só os designers podem exercer design”. A resposta do costume – que também é a que vou dar aqui – é que as duas profissões têm responsabilidades bem distintas. É preferível comparar o design à literatura: um uso especializado de uma linguagem comum. Limitar o design aos designers não passa de uma ambição corporativa mal disfarçada, que ignora como o design vai buscar muita da sua inspiração aos designs “alternativos” (ao contrário da medicina, por exemplo, que só o faz muito cautelosamente).

Estas ambições corporativas são também conservadoras. Procuram manter o design protegido das mudanças – e das responsabilidades – impostas a partir de fora. Mas a grande pergunta é esta: como é que uma actividade chamada “design de comunicação” pode deixar a maioria das pessoas de fora?

A legitimidade acaba por revelar-se um mecanismo de exclusão: o público é deliberadamente afastado dos mecanismos intelectuais do design. Pode reagir ao design, mas não lhe pode responder; deve permanecer um receptor passivo do processo do design. Esta passividade pode ser bastante frustrante porque a própria sociedade de consumo estimula a ideia de um consumo criativo, activo, onde os consumidores vêm a participação dos processos de design como um prémio, como um produto em si.

No entanto, muitos designers acham que nem sempre o público deve entender como o design é feito (num debate da APD no Museu Soares dos Reis, um dos oradores disse-o). Mesmo em profissões que só podem ser exercidas por profissionais credenciados, como a medicina e a advocacia, a prática da profissão é considerada de tal maneira interessante pelo grande público que justifica a produção de inúmeras séries de ficção relativamente realistas sobre o assunto – para não falar de documentários, filmes e livros. Poder-se-ia contra-argumentar afirmando que o design não é tão interessante como a medicina ou a advocacia ou a física nuclear, mas, se nos concursos de televisão mais antigos se ofereciam apenas produtos, hoje em dia oferece-se cada vez mais o próprio processo de design como prémio. De uma forma quase tresloucada, as pessoas querem ver a sua vida remodelada ao vivo, as suas casas redecoradas, os seus carros, cozinhas e vidas transformados. Pode ser que a única coisa que separa o público do seu interesse pelo design sejam os próprios designers.

Filed under: Cliente, Design, Ensino

2 Responses

  1. Horroriza-me sempre a ideia de que “qualquer um pode fazer design”, talvez porque sempre que vejo coisas feitas por quem não tem formação elas são más. A verdade é que qualquer um pode fazer design pois qualquer um tem ou deveria ter direito e acesso às ferramentas necessárias para tal prática.

    Sempre fui muito crítico para quem faz design sem saber o que faz, mas a verdade é que também já vi coisas más feitas por quem deveria saber o que faz.

    Ao comparares o design à literatura, acrescentaste o “pedacinho assim” que me faltava para chegar à “prateleira mais alta” onde estava guardada a “batedeira” que vai “misturar” a ideia de que “qualquer pessoa tem direito a fazer design” com a ideia de que “só os designers é que podem fazer design”. Desta mistura saiu uma nova reflexão.

    Tal como na literatura, onde nem todos os que sabem escrever são escritores, também no design nem todos os que fazem design são designers. Até aqui nada de novo, mas vamos continuar a desenvolver esta ideia e analisar o seguinte: existem muitos escritores que não têm formação em letras, assim como existem muitos (a maioria) indivíduos formados em letras que não são escritores. É uma ideia consensual o que acabei de afirmar e poderia aqui justificar com exemplos concretos que no entanto considero prescindíveis. Vejamos se é também consensual a próxima e lógica ideia, comparativa.

    Um indivíduo não tem necessariamente que ser formado em design para fazer design e direi até, bom design. Também o facto de alguém ser formado em design, não quer dizer necessariamente que tem que ser ou exercer a profissão de designer. Também para estes casos acho prescindíveis exemplos.

    Existe no entanto uma divergência muito grande entre literatura e design. Esta reside no facto de todos os indivíduos por lei, terem uma formação mínima obrigatória de 9 anos, ao longo dos quais aprendem língua portuguesa lida, escrita e falada. É verdade que desde o jardim infantil, todos têm expressão plástica, mas esta não é dada por pessoas formadas na matéria.

    Chegado ao segundo ciclo de escolaridade, pode acontecer que na disciplina de EVT, o aluno tenha alguém com conhecimentos, digamos agora, visuais.

    Só a partir do 7º ano de escolaridade é que o aluno tem realmente alguém formado em matérias capazes de lhe transmitir conhecimento visual. Na verdade, se for essa a escolha do aluno e porque a disciplina de Educação Visual é de cariz opcional no 9º ano, a formação visual de um indivíduo pode ser só de dois anos de escolaridade, sendo que, a carga horária nesses dois anos é de 90 minutos semanais. Tudo isto, serve para concluir que é mais difícil qualquer um ser designer do que ser escritor.

    Concluo que sim, que qualquer um tem o direito a fazer design, mas nem todos conseguem fazer bom design, estando na linha da frente, daqueles que fazem bom design, como me parece óbvio, os formados em design. Resta-me dizer que este post é colocado por alguém cuja formação não é em design, se é que esta informação é relevante.

    SpiSan

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