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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Concorrência

De acordo com o Dicionário Oxford, um cartel é o acordo de um conjunto de empresas do mesmo ramo para fixar o preço de um serviço ou produto, impedindo a concorrência livre e prejudicando clientes ou consumidores. Na maioria dos países com economia de mercado, incluindo Portugal, o cartel é ilegal.

É estranho portanto que no Público de 8 de Junho se noticie que a principal decisão do 1º Encontro de Empresas de Design seja a sugestão de um preço mínimo para o Design – estabelecendo de facto um cartel – através da criação de um acordo deontológico para combater a “prática generalizada no mundo do Design em Portugal [d]as empresas oferecerem o seu trabalho, apresentando propostas que não são remuneradas”. De acordo com os organizadores, “este tipo de concorrência leva a um grande grau de falências entre as empresas de design”, e, por outro lado, prejudica os clientes porque não garante que seja escolhido o melhor trabalho, mas o “mais barato ou o mais simples de fazer”.

Estes argumentos seriam convincentes se houvesse realmente em Portugal alguma forma de apurar a qualidade de um projecto de Design. “O melhor trabalho” acaba por não significar grande coisa. Talvez signifique trabalho feito pela empresa mais conhecida, por exemplo. Mas quem garante que a empresa com mais prémios, ou maior presença mediática, faz o melhor trabalho, se poucos designers portugueses diriam mal em público e on the record de um colega de profissão? Na prática, a única distinção qualitativa que se pode arrancar – a custo – de um designer português é entre design feito por profissionais e design feito por leigos – uma distinção completamente inútil quando se trata de decidir entre empresas de design.

Não havendo crítica aprofundada, nem qualquer género de avaliação pública de resultados formal ou informal, não faz a mínima diferença um cliente escolher entre um designer ou outro, excepto o preço. Quem contratar um designer caro pode gabar-se de ter comprado qualidade, quem contratar um designer barato pode gabar-se de ter poupado dinheiro.

Muitas empresas grandes de design podem dar-se ao luxo de fazer de vez em quando trabalhos de graça, principalmente porque contratam estagiários por pouco ou nenhum dinheiro. Se é escandaloso que um cliente peça a cinco empresas de design que apresentem propostas sem qualquer remuneração, decidindo depois qual delas contrata, é igualmente escandaloso que uma empresa de design contrate cinco estagiários, pagando-lhes pouco – ou mesmo nada – durante meses, para no final decidir contratá-los ou não – recebendo entretanto incentivos estatais para os contratar, no âmbito de programas de primeiro emprego. Espero sinceramente que os resultados deste 1º Encontro de Empresas de Design não se limitem ao velho “Trabalhar de graça é mau desde que não seja para mim.”

Mas, em termos legais, um acordo deontológico como o proposto só pode ser uma declaração de intenções, aconselhando os designers a não trabalharem de graça. Impor qualquer tipo de sanção disciplinar levaria muito provavelmente a uma investigação da Autoridade da Concorrência, como aconteceu recentemente, quando a Ordem dos Médicos tentou estabelecer um preço mínimo para os serviços médicos.

Filed under: Ética, Cliente, Crítica, Design, Economia, Política

10 Responses

  1. mcarvalhais diz:

    concordando em princípio, parece-me útil distinguir entre trabalho gratuito e trabalho especulativo… http://www.no-spec.com/articles/why-speculation-hurts/

  2. Distinguir entre os dois pode ser perverso. Impedir o trabalho especulativo salvaguardando o trabalho gratuito (voluntário), pode levar a situações de concorrência desigual. Por exemplo, uma empresa que emprega estagiários não remunerados é favorecida em detrimento de uma empresa que emprega estagiários remunerados, por exemplo.

    Talvez se pudesse distinguir entre trabalhos para empresas regulares e empresas sem fins lucrativos, por exemplo.

    Numa economia de mercado, penso que a decisão de fazer trabalho especulativo ou gratuito deve ficar ao critério de cada um. Em alternativa, poderia propor-se uma economia controlada, em que salários, preços de matéria-prima, e tudo o mais, seriam controlados centralmente, mas não sendo esse o caso, controlar parcialmente os preços, não garantindo um salário mínimo aos designers, por exemplo, vai levar sempre a mais concorrência desigual.

  3. anauel diz:

    Ontem, enquanto almoçava, li este artigo no Público. Acabei o artigo e pensei cá para comigo: «Será que o Mário Moura vai escrever sobre isto? Devia. E quando?». A resposta não tardou. E, como sempre, veio certeira e lúcida.

    Só não posso concordar com uma certa passagem – “Quem contratar um designer caro pode gabar-se de ter comprado qualidade, quem contratar um designer barato pode gabar-se de ter poupado dinheiro.” Se não é verdade a primeira asserção muito menos é a segunda. Um designer caro pode não ser capaz de produzir trabalho com qualidade; e um desgner barato pode, além de fazer poupar dinheiro, produzir trabalho com qualidade. A não ser que aquele “gabar-se” contivesse uma ironia que eu não vislumbrei… Aí tudo bem, mensagem recebida.

  4. Um designer caro pode não ser capaz de produzir trabalho com qualidade; e um desgner barato pode, além de fazer poupar dinheiro, produzir trabalho com qualidade.

    Concordo completamente, e fica aqui também confirmada a intenção irónica do “gabar-se”.

  5. freeza diz:

    “Se é escandaloso que um cliente peça a cinco empresas de design que apresentem propostas sem qualquer remuneração, decidindo depois qual delas contrata, é igualmente escandaloso que uma empresa de design contrate cinco estagiários, pagando-lhes pouco – ou mesmo nada – durante meses, para no final decidir contratá-los ou não – recebendo entretanto incentivos estatais para os contratar, no âmbito de programas de primeiro emprego.”

    Nem mais. Se houver custos reais para se executar o trabalho, ou seja pagar as pessoas, os orçamentos apresentados pelas empresas nunca podem ser tão abaixo do que é sustentável. E se o fizerem será uma decisão estratégica e não de rotina.

  6. joaobem diz:

    sendo novo por aqui, antes de começar gostaria de cumprimentar todos presentes na discussão, e agradecer o contributo deste blog para a critica do design no pais.

    Em relação ao post, tenho uma dúvida.

    Será que essas propostas gratuitas não leva a que a “qualidade” dos trabalhos seja nivelada por baixo. É que ultimamente temos sido presenteados com alguns trabalhos que me custa a acreditar que o seu processo criativo não seja “especulativo”.

  7. O que é exactamente um trabalho com “qualidade”?

    A consequência de relacionar o preço de um objecto com um conceito vago, relativo, que ninguém parece querer definir em público, é que o preço acaba por ser a única coisa que interessa. Portanto, criar um preço mínimo não implica um aumento de qualidade, antes pelo contrário. Leva as pessoas a pensar que caro é sinónimo de bom, e barato é igual a mau.

  8. jbem diz:

    Quando digo trabalho com “qualidade”, refiro-me ao processo de criação, ser um processo que envolva o cliente e o designer.

    Num regime de propostas gratuitas, essa envolvência parece-me quase impossível, dado serem várias empresas a apresentarem propostas e o cliente não as poderá acompanhar a todas, logo o trabalho será muito individualizado e no final o critério de escolha terá de ser o preço e se ficou “bonitinho” a funcionalidade fica em 2º plano.

    Quanto aos preços mínimos em serviços de design, concordo plenamente com o seu pensamento.

    Não existem dois trabalhos iguais, pelo que não poderá haver preços iguais. É subjectivo, dá trabalho mas cada trabalho terá um preço.

  9. […] post interessante sobre o assunto está disponível no blog The Ressabiator, que vale bem a pena uma […]

  10. […] de vida. A AND e a APD uniram os seus esforços para criá-la até 2012. Já escrevi uma vez ou duas sobre o assunto no passado e continuo a ser um dos designers que, de acordo com a notícia do […]

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