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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Duo Design

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No começo da década de noventa, quando era aluno dos primeiros anos do curso de design nas Belas Artes do Porto, nunca tinha muito dinheiro, mas preferia saltar uma ou duas refeições em vez de deixar escapar um livro mais tentador. Costumava percorrer as livrarias do Porto à procura de livros usados, sobretudo de banda desenhada e, às vezes, depois das aulas, ia à livraria Diário de Notícias, ao fundo da rua 31 de Janeiro, ver o expositor de fanzines. Pelos padrões actuais, eram objectos toscos, fotocopiados a preto e branco, escritos à mão ou à máquina – em geral, apenas um maço de folhas com dois ou três agrafes de lado. Os mais experimentais eram fotocopiados com tinta azul ou vermelha, sobre papel colorido ou reciclado.

Em 1992, encontrei lá um fanzine diferente dos outros. Era sobre banda desenhada, mas também falava de música e ecologia. A capa era a duas cores, o interior a preto e branco, composto num computador e impresso em offset. Na verdade, passaria perfeitamente por uma revista se não fosse o número seis, o último, dum fanzine chamado Epitáfio, até aí fotocopiado. Estava longe de ser perfeito, mas chamava a atenção, sobretudo porque, em termos de design, não se parecia com as revistas de banda desenhada típicas da altura, como a Selecções BD ou a LX Comics. Também não se parecia com o design que aprendíamos nas aulas, limpo, de tons planos, usando versões condensadas de fontes como a Bodoni ou a Futura, tal como os melhores exemplos de design nacional da altura, a revista Kapa, o jornal Público e o semanário Independente. O Epitáfio sugeria, de maneira evidente, mas difícil de definir, a Emigre de Rudy VanderLans, a Ray Gun de David Carson, ou as capas de disco da 4AD de Vaughan Oliver, tudo coisas a que não tínhamos acesso directo, mas que podíamos encontrar nos anuários Graphis da biblioteca da escola, ou nas revistas que os professores levavam para as aulas, como a recém-fundada Eye.

Meses depois, numa saída à noite na Ribeira, soube por alguém que a Epitáfio tinha acabado, mas iria ser substituída por uma nova revista de banda desenhada chamada Quadrado. O primeiro número tinha a data de Maio de 93, e era mais pequeno, mas também melhor produzido, que o Epitáfio. Tinha uma capa impressa a duas cores, e o interior era impresso num tom vermelho muito escuro sobre papel couché, para as banda desenhadas, e papel uncoated, para os textos. As opções tipográficas continuavam a ser influenciadas pela Emigre e pela Ray Gunleading e tracking variáveis, sobreposições de manchas de texto, tudo mais fluente que na Epitáfio. No editorial do segundo número, de Julho de 93, escrito pelo designer e co-editor José Rui Fernandes, as influências eram assumidas directamente:

Junho foi o mês em que aconteceu algo que praticamente mudou a vida das pessoas que mais directamente colaboraram no Quadrado: começou a ser distribuída em Portugal a muito esperada “bíblia da música e do estilo” – Ray Gun (quem quiser saber mais, leia a Emigre #24). Embora o número 6 tenha um artigo sobre a Vertigo, a Ray Gun não é de Banda Desenhada, mas é uma revista absolutamente impar no panorama mundial, tanto pelo conteúdo como pelo aspecto. O design é de David Carson (os surfistas conhecem-no – ou deviam – da extinta Beach Culture e Surfer), e os mais atentos, já notaram a sua influência no epitáfio #6 (pelo menos Dave McKean notou).

É difícil descrever como foi estimulante encontrar um texto português com estas referências. Se agora o design nacional ainda parece pouco disponível para falar sobre si mesmo, na altura era totalmente asfixiante. Nas fichas técnicas das revistas ainda era raro aparecer a palavra “designer” – na Kapa, por exemplo, apareciam “grafistas”. Na Quadrado, além dos designers, escritores e editores, eram também identificados o hardware, o software, as fontes e os seus designers, e, nos últimos números, até os tipos de papel. Foi uma das primeiras demonstrações conscientes em Portugal das possibilidades que os computadores pessoais iriam trazer à prática do design, permitindo um controle inédito sobre todo o processo gráfico, e que já era visível no trabalho de designers como Rudy VanderLans, David Carson, Ed Fella, Mr Keedy, entre outros.

Esse ambiente era palpável no sítio onde a Quadrado era produzida, a sede da Duo Design, na Senhora da Hora. No rés-do-chão era possível comprar banda desenhada americana, sobretudo os autores independentes que vinham ao Salão do Porto, como Seth, Adrian Tomine, Chester Brown, mas também fontes, vendidas ainda em disquete, e revistas Emigre – o José Rui deve ter sido das primeiras pessoas a distribuí-la em Portugal. No andar de cima, era o estúdio de design, onde na altura trabalhava o próprio José Rui, a Susana Paiva e o João Faria – que mais tarde sairia para formar a Drop. Além da Quadrado, a Duo Design realizava trabalho comercial para clientes como os GNR, os Blind Zero, a Câmara do Porto, a Porto Editora, entre muitos outros.

Durante quase toda a década de noventa, foi um sítio onde se podia falar sobre design e sobre banda desenhada no meio dos melhores exemplos do género. Com o tempo, a loja de banda desenhada mudaria para o centro comercial Brasília, onde ainda hoje funciona, com o nome de Mundo Fantasma. Actualmente, o José Rui Fernandes ainda edita e importa banda desenhada, embora se tenha afastado de um papel mais activo no mundo do design.

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Filed under: Banda Desenhada, Computador, Crítica, Design, História, Publicações, , , , ,

2 Responses

  1. Caro Mário, nunca tinha imaginado o que significava um texto destes para mim, até ler este.
    Das duas uma, ou consultaste “fontes” (passe a piada) muito bem informadas, ou na altura eras bem mais atento do que o que parecias.
    Há coisas que já nem me lembro… Falava de ecologia? Ainda bem que pelo menos nisso fui sendo coerente.
    Apenas duas minudências… Nas influências nítidas estava também o ubíquo Neville Brody (mais no João Faria); acho que na altura a Emigre e 4ad não apareciam na Graphis. Já quanto ao David Carson, tenho a certeza disso — era o pior possível para o design estabelecido e não tinha curso, mas mais tarde foi considerado “mestre tipógrafo” pela mesma revista. O Mundo lá vai dando as suas voltas.
    Não foi assim há tanto tempo, mas em termos tecnológicos e de design, deve ser o equivalente à revolução industrial e das máquinas a vapor. Conversar por fax com o Rudy Vanderlans ou trocar fanzines com o Mário Feliciano — pelo correio, não em PDF… Depois afastei-me e nunca conheci nem um, nem outro.
    Por um lado, tenho saudades desse tempo.

  2. Foi uma época marcante, que merece já há bastante tempo um artigo bem mais completo do que este.

    De facto, a 4AD não aparecia nos anuários da Graphis, mas vi-a pela primeira vez na Eye (um artigo sobre Russell Mills em 91 e outro sobre Vaughan Oliver em 93 – esta última foi a primeira revista de Design que comprei) e numa antologia de capas de discos (o meu primeiro livro de design), a Album Cover Album 6, editada pelo próprio Vaughan Oliver, pelo Storm Thorgerson e por Roger Dean. Deve ter sido a única vez que um livro do designer da 4AD apareceu com uma capa do designer dos Yes.

    A Emigre e a Beach Culture apareceram relativamente cedo nas Graphis. Lembro-me da turma se estar a babar para cima de trabalhos do David Carson e do Rudy Vanderlans, enquanto os professores nos tentavam mostrar trabalhos dos Pushpin.

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