The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Sistema Métrico

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Eram quase dez da manhã quando entrei na estação de Metro dos Combatentes, no Porto. Desci as escadas rolantes e reparei que as duas máquinas de validar os bilhetes tinham as luzes vermelhas. Fui às máquinas da outra entrada – a mesma coisa. A estação devia estar fora de serviço. Olhei à volta para ver se algo ou alguém me podiam dizer o que se passava – nada. Decidi ir a pé até ao Marquês. Estava quase atrasado para uma reunião e se a estação do Marquês também estivesse fora de serviço pelo menos podia apanhar um táxi.

Quinze minutos depois, no Marquês, não havia táxis à vista. Entrei na estação de Metro. As máquinas também estavam vermelhas. O que se estava a passar!? Vi dois tipos a subir a escada rolante com um ar bem disposto. “A estação está fora de serviço?”, perguntei. Olharam para mim, sérios por um momento. Um deles deu-me uma palmadinha no ombro, “Não se preocupe. A estação está a funcionar”. Depois, piscou-me o olho e acrescentou “E pode andar de Metro à borla!” Pronto, pensei, atingimos um nível Ballardiano, Mad Maxiano de desorganização social e colapso tecnológico, e agora é o salve-se quem puder.

Não muito convencido, desci as escadas rolantes até ao cais e só lá entendi o que se passava: nos monitores electrónicos onde é anunciada a chegada dos comboios estava escrito “Dia Europeu Sem Carros. Transportes Gratuitos.” Num bom exemplo de informação e design nos transportes públicos, tinha sido preciso andar mais de um quilómetro e descer três andares abaixo da superfície para descobrir que podia andar sem pagar no Metro.

Nesse dia à tarde, já toda a gente sabia, e a estação da Trindade parecia uma versão terceira idade do Metro de Tóquio, com seguranças a impedirem os velhotes de serem empurrados para a linha pela multidão. Pelos vistos, o trânsito no centro nem sequer tinha sido cortado. A única diferença eram os transportes públicos gratuitos a contribuírem para o congestionamento total. Era a conclusão previsível de um Dia Sem Carros organizado por Rui Rio, o Michel Vaillant dos autarcas europeus.

Esta história, passada há quase dois anos, descreve uma ocasião rara, mas ainda assim simbólica. Precisamente no dia em que deviam afirmar-se como uma alternativa ao automóvel, os transportes públicos davam mais uma vez a sensação de serem projectados e administrados por pessoas que preferem andar de carro.

É claro que o Metro é uma bênção para as pessoas que, como eu, não têm a carta. No entanto, há também um conjunto de pormenores irritantes que tornam o seu uso difícil quer para viajantes ocasionais, quer para as pessoas que o usam diariamente. Por exemplo, em termos de usabilidade, o Cartão Andante é “cego”. Olhando para ele, é impossível saber se está carregado, quanto tempo falta para expirar uma viagem, ou qual a sua validade em termos de zonas, sem recorrer ás máquinas do Metro. Às vezes, é preciso sair de casa com um autêntico maço de Andantes, para saber se algum tem viagens. Por outro lado, já me aconteceu descer até à plataforma e não me lembrar se validei ou não o cartão. Nas estações subterrâneas isso implica subir dois ou três andares ou arriscar uma multa, só porque não há validadores perto das plataformas.

Do lado da arquitectura, também há problemas. Embora muitas estações de metro sejam formalmente simétricas, a sua circulação é frequentemente assimétrica, havendo apenas duas escadas rolantes – uma ascendente e outra descendente – em extremos opostos da plataforma. Alguém com problemas motores pode ser forçado a percorrer toda a extensão da plataforma para chegar à escada ou ao elevador. De qualquer das formas, como é frequente as escadas rolantes estarem em manutenção, é bastante comum ser obrigado a trepar a pé até à superfície.

Há muitas outras questões, que seria bastante fácil resolver recorrendo apenas ao design. Os diagramas e os mapas nas estações são muito intrincados, fornecendo demasiada informação para ser decifrada entre viagens de metro. Há mapas que acumulam a informação do metro, a informação das zonas, a informação dos autocarros, os monumentos, as ruas, etc. – tudo num código tonal berrante, mas pouco contrastado. Pelo contrário, podia haver mais informação do lado de fora das estações, indicando se a circulação está atrasada ou mesmo interrompida antes de se gastar um bilhete. Para quem vem da rua, é difícil por vezes localizar as estações de Metro recorrendo aos marcos de sinalização, que são demasiado discretos.

Em 1931, quando Harry Beck desenhou o diagrama do Metro de Londres, inspirando-se num circuito eléctrico, estava a criar o logótipo perfeito para os transportes urbanos. O seu mapa dava a entender que a distância entre estações era uniforme, e que a própria geografia podia ser suavemente neutralizada. De facto, o seu diagrama não era só funcional, mas ideológico – não visava apenas informar as pessoas, mas transformá-las momentaneamente em electricidade, em informação. Mas, como o Metro do Porto demonstra quotidianamente, isto é apenas uma ilusão frágil que só pode ser mantida com muito esforço, perícia e design.

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Filed under: Arquitectura, Crítica, Cultura, Design, , , , ,

6 Responses

  1. “(…)os transportes públicos davam mais uma vez a sensação de serem projectados e administrados por pessoas que preferem andar de carro.” e está tudo dito. Não existe essa cultura e ainda parece haver elitismo na escolha dos transportes por parte dos governantes, que desconhecem a realidade, como escadas rolantes paradas em várias estações…

    Só um reparo: HENRY Beck 😉

  2. Hum, tinha tanta certeza que apenas confirmei o nome do sr. designer depois do meu reparo. Desconhecia o seu “aka”, o nome pelo qual é conhecido. Henry ou Harry, a mensagem passou 🙂

  3. Hugo diz:

    Ai este nosso metro…

  4. luix diz:

    caro ressabiator,
    já que falou em metro….será que alguém pode me explicar porque é que algumas estações pura e simplesmente não tem qualquer sinalética a informar que aquilo não é um buraco nem um mictório público??? (ex: estação são bento)
    será que acabou a verba?…ou será birra dos arquitectos…

    mário,… parabéns pelo blog…sou leitor assíduo…e sempre que posso espalho o link…

    um abraço,
    luix (trindade)

  5. Hirudroid diz:

    “Rui Rio, o Michel Vaillant dos autarcas europeus”
    Ver animação neste link:
    http://hirudroid.blogspot.com/2008/09/wii-porto-mega-eventos.html

  6. ana pais diz:

    🙂 eu nem acho que os mapas estejam assim tão maus, pelo menos das linhas do metro, dentro do próprio metro.
    Quanto ao resto, concordo que tudo seja muito confuso.

    Nesse dia que se andou de graça, senti-me na obrigação de ajudar um casal que estava a tentar comprar o bilhete para esse dia, e como não havia informação noutras línguas ou até mesmo em pt mas em locais de destaque, muita gente deve ter perdido imenso tempo a tentar comprar o andante.

    Lá tive eu de me desenrascar a falar francês para dizer que não precisavam de pagar. Eles ficaram contentes e eu também. Mas nem sempre temos esta ajuda.

    Imagino o que seria de mim no metro de paris sem sinalização em condições. Aliás, ainda assim me perco. Acredito que seja difícil criar um sistema que funcione…

    espero que melhore!!

    os meus cumprimentos professor!

    ana pais

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