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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Design e Civilização

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Quando comecei a ler The Fall of Rome and the End of Civilization, não esperava encontrar nada que tivesse a ver com design, antes pelo contrário. Contava com um livro calmo, o mesmo género de entretenimento vagamente educativo que passa a toda a hora no Canal História. No entanto, a forma como a sua tese central é defendida tem tudo a ver com design.

Para a maioria das pessoas, o fim do Império Romano foi o resultado de uma invasão bárbara que atiraria o Ocidente para uma idade das trevas que duraria quase um milénio. No entanto, nos últimos anos tem-se popularizado a teoria oposta, de que o Império acabou de morte natural, corroído internamente pela decadência, limitando-se os invasores a tomar o poder de forma mais ou menos pacífica. Em The Fall of Rome, o arqueólogo Bryan Ward-Perkins põe em causa esta teoria de forma muito convincente, demonstrando que o fim do império romano não foi uma decadência gradual, mas um evento catastrófico, que destruiria em pouco tempo as infra-estruturas sociais, culturais e económicas.

Para Ward-Perkins o império romano pode distinguir-se da idade média através da qualidade e complexidade da produção e distribuição industrial. O exemplo principal é a cerâmica: enquanto um rei medieval era enterrado com um conjunto limitado de peças de olaria de baixa qualidade, produzidas localmente, uma família de camponeses romana tinha acesso a uma grande variedade de peças distintas, extremamente leves e duráveis, feitas em grandes centros de produção, por vezes a centenas de quilómetros de distância. A produção era de tal maneira intensa que daria origem em Roma a uma colina de 50 metros de altura inteiramente feita de cacos de ânforas importadas de Espanha, o Monte Testaccio (ver imagem).
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De maneira mais concisa, Ward-Perkins fala também da arquitectura, comparando o tamanho e a complexidade de templos, palácios e quintas romanas e medievais, mas a parte mais interessante – pelo menos para um designer gráfico – fala de grafittis e de lettering, referindo a existência de profissionais especializados em desenhar anúncios políticos e comerciais.

No fundo, para Ward-Perkins, o design é um indicio seguro de civilização, e pergunto-me se este género de análise, centrada essencialmente no design e na produção industrial, não será também um indicador das preocupações da nossa própria época. Duvido que no século XIX, ou mesmo em meados do século XX, se avaliasse uma sociedade pela quantidade de design produzido, preferindo indicadores como a literatura, a arte e a tecnologia. De certa maneira, o design dos romanos foi invisível, até nós próprios nos interessarmos tanto por design.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, História, Publicações, , , , , ,

One Response

  1. Dumitru Tira diz:

    Interessante, eu sempre pensei que o Império Romano caiu porque atingiu o máximo que podia aintingir, um pouco como as estrelas de cinema/musica de hoje em dia, chegam a um determinado ponto alto e depois, apartir de ai, é sempre a cair.

    Vou perguntar a minha professora de Historia e Cultura das Artes sobre esta questão, de certeza que ela tem qualquer coisa de interessante para me dizer.

    Nice blog by the way 😀

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