The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Porque não é a teoria mais como a prática?

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Não me levem a mal, não é que não goste de fontes (antes pelo contrário), mas tenho por vezes a sensação que o interesse dos designers gráficos por elas é um sintoma da sua desconfiança por actividades teóricas em geral. De certa maneira, as fontes são teoria para quem não gosta de teorias.

Para criar uma fonte bem sucedida é preciso muito conhecimento da história da tipografia e, por vezes também uma quantidade razoável de pesquisa primária e secundária em arquivos, alfarrabistas, velhas gráficas, museus ou bibliotecas, mas toda esta investigação só é realmente respeitada porque consegue condensar-se num objecto funcional e vendável. Numa fonte bem feita, a história transforma-se em ferramenta, em mercadoria – embora seja capital largamente simbólico; se a maioria dos designers respeita uma boa fonte, poucos parecem dispostos a pagar por ela.

Parece-me também que a maior ambição de alguns designers é conseguir fazer da investigação teórica uma coisa tão funcional como uma fonte. Um bom exemplo desse género de ambição: num encontro de design a que assisti este ano, uma designer na plateia perguntou se não haveria alguma maneira de fazer contar o seu trabalho profissional como investigação científica equivalente a um mestrado ou doutoramento. A preocupação era pragmática: como conciliar o trabalho comercial de atelier, com a preparação de uma investigação de longo curso.

Mas, no fundo, a grande pergunta parece ser: porque não pode a teoria ser mais como a prática? Afinal, para muita gente, os designers a sério deviam limitar-se a ganhar humildemente o seu dinheiro no atelier, só raspando de leve com a academia quando ouvem o chamamento para partilhar o seu “saber de experiência feito” com os “putos” – é verdade, mesmo no ensino superior, há quem chame isso a um estudante –, embora naturalmente preferissem ensinar na “escola da vida”, idealmente contratando alunos como estagiários. Para quê teorias? A vida é que é.

O que me preocupa mais nisto tudo nem é o pragmatismo saloio. Esse é um mau hábito antigo que não se limita sequer ao design, aparecendo em todas as actividades ou épocas. O que me preocupa é que não se trata realmente de acusar a teoria de não ser suficientemente prática, mas de prescrever que ela não deve ser prática de todo. Pela minha experiência, e não falo apenas do ensino do design, sempre que se fala demasiado abertamente de salários e de direitos de trabalho na academia, as mesmas pessoas que falam da importância da “escola da vida” vêm logo acautelar que não é de bom tom falar dessas coisas mundanas nesses lugares do saber.

Pessoalmente, nunca acreditei que o papel do académico ou do intelectual seja o isolamento em relação ao chamado “mundo real” e, nesse aspecto, procuro seguir o exemplo de intelectuais públicos como Edward Said, autor de um dos melhores livros sobre o papel público do intelectual, Representações do Intelectual, das Edições Colibri; Susan Sontag, da qual destaco a colecção póstuma de ensaios, At The Same Time, que reúne um conjunto de ensaios extremamente críticos sobre a América de Bush, em particular a reacção ao 11 de Setembro; ou os autores do Design Observer, que nunca recearam intervir na vida pública, mesmo em áreas fora da sua área imediata de especialidade.

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Filed under: Crítica, Cultura, Design, Ensino, Fontes, História, Política, ,

2 Responses

  1. Caro Moura

    Comentário a este post na Desígnio, sob o título: Teoria e Prática e Design – outra vez [http://designio.com.sapo.pt/Editoria/Edt_22_TeorPraDsgn.htm].
    Espero que seja mais um contributo para esta discussão.

    abraço

  2. […] histórica e rigor conceptual. Infelizmente, acaba por ser também – tal como já defendi noutro texto – uma espécie de teoria para quem não gosta de teoria, uma maneira de transformar a teoria num […]

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