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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Sim, mas é mesmo universal?

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Em 1931, um jovem neuropsicólogo russo chamado Aleksander Romanovitch Luria viajava em direcção às então repúblicas soviéticas do Uzbequistão e do Quirguistão. Na sua bagagem levava um conjunto de cartões impressos com quadrados, círculos e triângulos, bem como desenhos simplificados de utensílios de lavoura e veículos rurais. Por sugestão do seu professor e amigo, o psicólogo Lev Vigotsky, tinha concebido um conjunto de experiências, entrevistas e observações, a realizar entre as comunidades rurais da Ásia Central. O objectivo era averiguar a forma como a cultura, a linguagem, e até a própria consciência se reestruturavam com a alfabetização. Embora os resultados só fossem publicados em 1974, mais de quarenta anos depois, a experiência de Luria iria contribuir para pôr em causa a crença, central durante o modernismo, na universalidade das formas geométricas regulares.

Ironicamente, enquanto Luria entrevistava aldeões perplexos em casas de chá da Ásia Central, o modernismo atingia o seu auge na Europa. Na Bauhaus de Dessau, Herbert Bayer construía um alfabeto a que chamou optimisticamente Universal, confundindo talvez estandardização com universalidade. Em Viena, Otto e Marie Neurath, desenvolviam o Isotype, uma linguagem gráfica simples e sistemática para criar diagramas estatísticos e informativos acessíveis, e que seria o antepassado distante das sinaléticas urbanas actuais. Por detrás disto tudo, pairava a crença numa linguagem gráfica universal que não só permitiria comunicar com pessoas que falavam outras línguas, mas minimizaria também a exclusão social das populações iletradas.

Muitas das tentativas de produzir uma linguagem – ou pelo menos uma sinalética – universal tinham como público-alvo os mesmos camponeses semi-analfabetos a que Luria mostrava cartões com formas geométricas. Curiosamente, verificou que só os que já sabiam ler identificavam um quadrado como sendo um quadrado; os outros diziam que era “como a sua mesa”, “o poço da sua aldeia”, ou “o quintal do vizinho”, identificando a forma geométrica com objectos ou situações concretas. Quando lhes era pedido que identificassem o item a mais dentro de uma série de utensílios de lavoura – martelo, serra, tronco, machado –, eles só o conseguiam fazer construindo narrativas em torno deles – “São todos parecidos. A serra corta o tronco e o machado parte-o em pedaços pequenos. Se tiver que deixar um de fora, é o machado. Não faz um trabalho tão bom como a serra.” Tinham também bastante dificuldade em perceber problemas lógicos ou matemáticos, tendo a tendência para os interpretar literalmente. A um silogismo como “No Norte, onde neva muito, todos os ursos são brancos. Novaya Zembla é no Norte e lá há sempre neve. De que cor são os ursos em Novaya Zembla?”, um camponês respondeu que não sabia, já tinha visto ursos pretos, nunca tinha visto outros.

A experiência de Luria aparece descrita com bastante pormenor em Orality and Literacy, um livro de Walter J. Ong que trata da maneira como a escrita reestrutura a consciência. Uma das conclusões de Ong é que a necessidade de pensar em categorias abstractas depende de um contexto onde a escrita já está de alguma forma presente. Pelo contrário, os camponeses de Luria exibiam as características do que Ong chamava a mentalidade oral. Numa sociedade oral, a linguagem trata principalmente com situações específicas e locais; só com a escrita é que começam a aparecer generalizações como “quadrado” ou “humanidade”. Aliás, num contexto oral, a linguagem é entendida como uma acção, e não como um objecto. Depois da escrita, e sobretudo da imprensa, a linguagem é retirada de um contexto específico, transformando aquilo que era um gesto físico num objecto, e finalmente numa mercadoria. O mesmo processo leva a que o ouvinte se transforme em leitor, isolando-se de um contexto social imediato e individualizando-se, de certa forma pensando em si mesmo em termos abstractos. Por outras palavras, os processos cognitivos têm fundamentos sociais e culturais.

Ironicamente – e esta é uma das consequências do trabalho de Luria e de Ong – se durante o modernismo se acreditava, com algum paternalismo, que as imagens deviam ser deixadas para os analfabetos, que só conseguiam perceber “bonecos” – como a bd ou o cinema – actualmente já se tem dito, também com algum paternalismo, que falta “literacia visual” entre essas mesmas classes. Ou seja, que é preciso aprender a ler imagens, tal como é preciso aprender a linguagem escrita.

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