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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

“Operações Tipográficas”

Por vezes, encontramos expressões familiares em situações inesperadas. Em Gödel Escher Bach – An Eternal Golden Braid, de Douglas Hofstadter, um livro complexo sobre – resumindo muito – matemática, lógica, ciências cognitivas, filosofia, entre outras coisas, aparece a certa altura aquilo a que o autor chama “operações tipográficas.” Não se trata porém da mesma coisa que um designer faria, mas de operações matemáticas. Quando fala de “operações tipográficas”, Hofstadter quer dizer operações em que se manipulam símbolos matemáticos sobre o papel, sem saber exactamente o que significam – ou seja, conhecendo pouco mais do que o seu aspecto e a sua posição na página.

Na verdade, o processo é em tudo semelhante ao que é ensinado na escola primária, quando aprendemos a reconhecer símbolos como 1 , 2 , 3 , 0 , +, – , : , X, e a fazer operações simples e mecânicas com eles que, pelo menos numa primeira fase, não implicam demasiado pensamento. Só precisamos de saber somar números de 0 a 9, saber a tabuada, saber colocar os números sobre o papel de uma determinada maneira, e efectuar operações simples sobre eles até alcançarmos o resultado procurado. Para somar, subtrair, dividir e multiplicar não é preciso saber muito mais do que isto.

O segredo da numeração árabe em relação a sistemas anteriores, aquilo que permite usá-lo para “mecanizar” cálculos relativamente complexos, é a colocação dos algarismos sobre a página, como demonstram expressões como “um zero à esquerda.” Dependendo da sua posição, o algarismo 1 pode significar “um”, “dez”, “cem” ou “mil”.

Os algarismos árabes implicam uma espacialização da página que, em sistemas anteriores, não existia. No sistema Babilónio, por exemplo, os problemas matemáticos eram descritos e resolvidos através de adivinhas escritas, como “Quatro é o comprimento e cinco é a diagonal. Qual é a largura?” Actualmente, escrever-se-ia apenas “x² = 5² – 4²”. Como diz Leonard Mlodinow no livro Euclid’s Window, de onde este exemplo foi retirado, “a desvantagem da resolução retórica de problemas não é a mais óbvia – a sua falta de concisão – mas o facto da prosa não poder ser manipulada como uma equação, e das regras da álgebra não poderem ser aplicadas facilmente.”

Embora se fale muito dos gráficos cartesianos como uma inspiração para o uso modernista da grelha e do espaço negativo, a verdade é que a numeração árabe – juntamente com o papel quadriculado que tanto jeito faz – é o antepassado mais provável do poster suíço. Tal como a tipografia num poster suíço, no sistema árabe, os algarismos são todos iguais e só significam coisas diferentes pela sua posição relativa sobre o papel.

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Filed under: Cartaz, Cultura, Design, História, Linguagem, Tipografia, , , ,

One Response

  1. Anónimo diz:

    O exemplo alternativo é o sistema de numeração romano, onde o valor do símbolo não depende da posição ocupada. Por exemplo, V é sempre 5 quer em VI, quer em IV.

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