The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

A Cultura em Versão Demo

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O primeiro Photoshop que usei foi o 1.0.7, que corria num Macintosh IIfx na velha sala de computadores das Belas Artes. Com a ajuda de um colega mais experiente, digitalizei uma fotografia a 150 dpi, uma tarefa que levou pouco mais de meia hora, gasta sobretudo em tempo de espera. Atrás de mim, uma fila de cinco ou seis colegas olhava com desconfiança para a barra de progresso que se tinha imobilizado há alguns minutos. Os mais fatalistas opinavam de vez em quando que o computador tinha “crashado”, embora tudo tenha acabado por correr bem.

Pouco tempo depois, a escola comprava seis computadores mais pequenos, Macintosh LC, que corriam o Photoshop 2.5, que parecia estonteantemente mais sofisticado, rápido e menos pixilado que a versão 1.0.7. Desde essa altura, habituei-me ao ciclo sazonal de desejo dos designers, aguardando com ansiedade o próximo modelo de Mac, o próximo modelo de Photoshop, o próximo modelo de Freehand, o próximo modelo de Quark, o próximo modelo de InDesign, e por aí adiante. Desde esse primeiro momento, habituei-me a pensar na prática do design um pouco como uma colecção de acessórios de marca, renovados a cada estação.

Não era uma coisa nova: já desde a escola primária que os professores aconselhavam rotineiramente produtos de marca, compassos Kern, borrachas e canetas Rotring, lápis Caran D’Ache, papel Canson ou Fabriano. Porém, o que distingue os produtos informáticos é a sua complexidade: uma ferramenta informática automatiza e compacta um conjunto de tarefas e conhecimentos, transformando-os efectivamente numa mercadoria. Enquanto um lápis raramente é mais do que um acessório, uma ferramenta como o Indesign, o Photoshop, ou o Illustrator é muitas vezes o tema central de uma disciplina ou curso.

Como é evidente, isto é vantajoso para os fabricantes: um profissional treinado na escola para usar uma só ferramenta, encarando-a como parte fundamental da sua identidade profissional – e mesmo pessoal –, é o cliente de sonho; consome uma marca da mesma maneira que come, dorme ou trabalha. Desta maneira, as aulas acabam por transformar-se em tutoriais de uma ferramenta de marca qualquer e a escola numa espécie de “cultura em versão demo”.

Contudo, é importante acreditar que esta situação não é inevitável. É preciso enfatizar que os programas ensinados na escola são apenas exemplos, e não obrigações. Mais importante do que aprender a usar uma ferramenta, é aprender a tomar decisões informadas sobre qual a melhor ferramenta para cada situação e sobretudo para cada orçamento. Afinal, em muitos casos o designer não se limita a usar profissionalmente uma ferramenta, mas ajuda também empresas ou clientes a decidir quais as ferramentas que é mais vantajoso adquirir.

Costuma-se argumentar que não há tempo ou meios na escola para ensinar mais do que uma ferramenta com um mínimo de rigor e portanto mais vale ensinar a ferramenta mais usada no “mundo real”. No entanto, pode-se argumentar também que uma ferramenta domina o mercado precisamente porque é ensinada na escola. Assim, se decisões tomadas ao nível da escola afectam directamente o mercado, mais urgente se torna tomar essas decisões de forma consciente, ensinando, por sua vez, os nossos alunos a tomá-las também.

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Filed under: Ética, Cliente, Computador, Cultura, Design, Economia, Ensino, , , ,

6 Responses

  1. Dumitru Tira diz:

    “um pouco como uma colecção de acessórios de marca, renovados a cada estação.”, LOL, gostei desta!

    Há 2 anos atrás, quando estava no 10º ano de Artes, na nossa escola estivemos a dar Paintshop Pro para a “parte gráfica”(que era terrível :S), eu já usava o Photoshop desde a versão 7, quando me meteram trabalhar no Paintshop não sabia por onde começar :O

    Agora, é melhor dar a uma empresa trabalhar com GIMP(gratuito) de que com um Photoshopzinho que custa quase o mesmo que um computador novo :O

    “mais vale ensinar a ferramenta que mais usada no “mundo real””, não quer dizer que Office seja melhor que iWork(não resisti por o mac-fanatismo de parte :S)

  2. Tiago diz:

    Ao passar os olhos pela News Feed do ComputerLove reparei que, de todos os post colocados nesse dia, apenas aqueles relativos ao lançamento de novos produtos informáticos tinham sido comentados – chegando por vezes aos 70 comentários em poucas horas no caso de um novo produto da Apple. Visto que nesse dia, qualquer dos outros posts tinha (na minha humilde opinião) muito mais interesse e possibilidades de discussão que qualquer nova adição à milhentas ferramentas do Photoshop, pensei em deixar um comentário em que referia a forma como os designer parecem ser cada vez mais escravos das ferramentas ao invés de utilizadores – perdendo mais tempo a experimentar as mesmas do que a criar algo inovador com elas – mas acabei por me retrair, com medo de ser mais uma vez apelidado de “crítico e gajo que só sabe falar e não faz nada”.

    Estando neste momento a trabalhar em Londres, onde as agências não trabalham com software pirateado, dou por mim a utilizar software open source ou amador para aquelas pequenas tarefas para as quais não compsensa a aquisição de pacotes profissionais. Muitos destes softwares têm capacidades muito mais abrangentes que as utilizadas pela grande maioria dos designers e a transição de um software para outro não é um fosso muito largo – as funções são muitas vezes idênticas.

    Sendo Portugal um país em que muitos dos alunos (e mesmo profissionais) mal têm dinheiro para comprar um computador de marca branca comprado às peças, não percebo porque é que se insiste tanto em aprender apenas os produtos standard, em versão pirateada de preferência, sob desculpa de que não há tempo para aprender todas as ferramentas, quando todos os anos sai uma versão novo do Photoshop e anda tudo a explorar os painéis e os filtros de novo. Se calhar gostamos mais de formar técnicos Adobe® que Designers…

    E acabo de fazer mais um comentário a um post sobre software… 🙂

  3. Nicolau diz:

    Sim, não seria nada má ideia, antes de começar aulas sobre um software, alertar para o seu preço e disparar algumas aplicações alternativas.
    É assumido desde o príncipio que aquele é que é ‘o software’, que ele é gratuito, e que nem vale a pena espreitar os outros. Estou seguro que ninguém da minha turma de 4º ano conhece aplicações opensource alternativas à Adobe e que, pelos vistos, há algumas que permitem fazer a maioria das coisas. Eu não conheço.

  4. Hugo diz:

    A escola deve adoptar as aplicações que sejam as mais utilizadas (e porque não dizê-lo as melhores) em cada domínio.
    Assim, o aluno fica apto de conhecimentos técnicos bastante fortes, permitindo que possa aplicar toda a sua criatividade. Esta última dificilmente se poderá aprender.

  5. Olá Ressabiator. Parabéns por mais um post pertinente. Permite-me acrescentar umas poucas palavras às tuas ideias.
    Alterar as regras do mercado para tornar justo o acesso à cultur é tarefa árdua mas possível… Educar pessoas capazes de dominar certas ferramentas, da Adobe por exemplo, pode ser vantajoso desde que a escola e as pessoas que lá entram e que de lá se vão, recebam a justa compensação. Acho ligeiramente rídiculo que uma instituição como uma Univerisdade pague a marcas para as promover. Se em vez disso exigissem algo em troca: o próprio software, licensas temporárias para estudantes, estágios curriculares remunerados, apoio técnico, dinheiro para se investir na investigação em freeware… sei lá…
    Compete às escolas inverter a hierarquia destas coisas. Não acho que todos os designers devam ser programadores e por isso não posso defender aquela coisa do “do your own software”, mas uns protocolos com outras faculdades podiam ajudar a aumentar o leque de opções e quem sabe criar alguma riqueza. Colocar alunos de design e designers como consultores para alunos de programação e programadores podia ser porveitoso.
    Podia haver também qualquer tipo de medida que obrigue os produtores de software pago que abusam do poder que têm no mercado a desenvolverem plataformas alternativas…
    Ainda assim, em capitalismo liberal, culpa do fraco avanço do freeware não pode ser imputada às empresas privadas. As instituições públicas financiadas para desenvolver a cultura e a sociedade bem que podem começar a pensar em agir nesse sentido!
    Causas não faltam… A acção é que demora sempre um pouco.

  6. é por estas razões que, de uns 5 anos para cá, utilizo apenas software livre – substitui Photoshop por Gimp, Freehand/Illustrator por Inkscape, Fontographer/Fontlab por Fontforge, QuarkXPress/PageMaker/InDesign por Scribus, Autocad por DraftSight (que não é bem livre, mas é freeware, e roda bem no Linux), Maya/3dMax por Blender, MacOS-X/Windows por Linux, etc. – e pelos vistos não sou só eu – progressivamente começam a aparecer profissionais apenas a utilizar e trabalhos de qualidade (alguns a serem premiados) exclusivamente feitos com software livre – e já agora, não consigo deixar de partilhar alguns links que possam ser de vosso interesse também: – http://libregraphicsworld.org/http://www.libregraphicsmeeting.org/http://ospublish.constantvzw.org/

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