The Ressabiator

Ícone

Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Nada

revista_nada__1.jpg

Quando vejo uma boa peça de design gráfico pela primeira vez, sem aviso, numa livraria ou nas mãos de alguém, a sensação é sempre a de uma inevitabilidade que, por alguma razão, se manteve inesperada até àquele preciso momento. Como não pensei naquilo antes? Porque não estive a em casa a trabalhar dia e noite para fazer uma coisa assim? Foi o que senti quando vi, numa tabacaria, a capa do primeiro número da revista Nada.

Sobre a fotografia de cores saturadas de uma praia cheia de gente – talvez um postal antigo ou uma velha fotografia de família – pairava a palavra “Nada”, em letras avermelhadas, sólidas, mas ainda assim finas como o papel. A perspectiva cavaleira das letras – um alfabeto da Bauhaus de 1930 (ver imagem abaixo) – conseguia, de alguma forma, deslocar aquela fotografia para um plano mais abstracto, mais utópico. Porém, o sentido da palavra parecia negar tudo aquilo – quer a solidez, quer a utopia, quer até a multidão da praia e o seu dia de Verão.

alfabeto_bauhaus.jpg

No fundo, a relação entre aquele título e aquela imagem era uma versão económica do quadro de Magritte sobre um cachimbo, e o arranjo dos elementos sobre a capa sublinhava a ambiguidade: a imagem, ocupando apenas a porção superior da capa, reforçava a sua relação com o título; as letras não pareciam estar tanto sobre a imagem, como dentro dela, rodeadas por ela, indecisas entre ser uma coisa naquela imagem, ou uma palavra naquela capa.

Em todas as capas da Nada, a geometria das letras viria a aparecer incluída ou numa paisagem insólita (animais a construírem uma nave espacial, uma cidade feita de arranha-céus de todo o mundo, o cenário de uma luta entre escavadoras Disney, um bando de pássaros sobre um céu azul); ou então sobre um objecto (um velho livro ou um leque). Uma única vez, no segundo número, a própria capa aparece como a imagem de um objecto – o título e os conteúdos da página de um livro, numa homenagem, reconhecida na ficha técnica, à capa que Chip Kidd fez para o livro The Information, de Martin Amis.

revista_nada__2.jpg

Lembro-me, ao ver aquele primeiro número, de ter pensado como seria difícil fazer uma segunda capa para aquela revista. No entanto, ao longo de – até agora – nove números, a ambiguidade que me tinha agradado naquela primeira capa foi sempre recuperada e fortalecida de forma inteligente e inspirada. Por tudo isto, o design das capas da Nada, da autoria de Manuel Granja, tem sido um dos projectos mais consistentes e elegantes do design editorial português dos últimos anos.

Filed under: Apropriação, Crítica, Design, Publicações, ,

6 Responses

  1. Manuel Granja diz:

    Obrigado pelo post. Foste muito generoso. Vou tentar não ficar corado quando te vir.
    um abraço,
    granja

  2. Sem dúvida alguma! A revista “Nada” é do melhor que para aí anda, graficamente falando. Quanto aos conteúdos, bem, resta dizer que foi lá que descobri um tal de Mário Moura… Não sendo um leitor assíduo da revista, devo-lhe tal descoberta e não há número que não folheie com a tal sensação de que “tem sido um dos projectos mais consistentes e elegantes do design editorial português dos últimos anos”.

  3. Concordo inteiramente com o post. 🙂 os meus parabéns ao Manuel Granja pelo excelente trabalho.

  4. Granja, eu acho que já te tinha dito que gostava imenso das tuas opções gráficas para a Nada. Mas mais te digo, é daquelas coisas que não me apetece sequer detectar se tem momentos piores: se um número está mais fraco que o outro, se a capa x está mais conseguida que a y!
    Só consigo ver a Nada como um todo com uma excelente qualidade resultante do empenho de todas as partes que para ela contribuem.

    Ressabiator, obrigada pelo anúncio da Braço de Ferro (Arte & Design). É assim que nós andamos (PN & IC), em constante luta de forças musculadas para conseguir fazer o melhor.

    Cumprimentos

  5. bingalada diz:

    Se houvesse uma revista chamada Tudo ia ter muita luta! Bem haja

  6. […] do editor: Manuel Granja é designer e editor, entre outras coisas da Revista Nada. Este é o primeiro texto em mais de uma década de um convidado. A primeira versão foi-me […]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Arquivos

Arquivos

Categorias

%d bloggers like this: