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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

História (Muito Abreviada) do Design

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Poder-se-ia traçar uma história do design gráfico português como uma lenta disputa territorial entre formas e conteúdos, entre design e linguagem.

Nos posters de Francisco Providência, ou nos de João Machado, por exemplo, há uma separação clara entre texto e imagem, entre título e ilustração, com raras e tímidas interacções. Cada elemento ocupa o seu lugar numa hierarquia gráfica bem definida, que corresponde também a uma separação técnica de responsabilidades, típica da era pré-computador.

Nessa altura, a ilustração era feita por um ilustrador, a fotografia por um fotógrafo, o design e a tipografia maquetizados por um designer, que supervisionava também a concretização final do processo na gráfica, onde a tipografia era composta, as gralhas revistas, as ilustrações e fotografias reproduzidas, e o objecto final impresso.

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Durante a década de noventa, esta divisão industrial de trabalho acabou por se condensar na figura solitária do designer e do seu fiel Macintosh, mas a separação formal entre forma e conteúdo manteve-se, mais como um imperativo moral do que por necessidade técnica. Mas, para a geração formada durante a década de noventa, parecia cada vez mais artificial e, no trabalho de João Faria, por exemplo, a fotografia, a ilustração, o texto e todos os elementos de um cartaz começaram a aglomerar-se por vezes num só objecto complexo ocupando o centro do poster, demonstrando um controle mais completo sobre a maneira como a forma e conteúdo se relacionam (ver imagem acima).

Entretanto, os próprios limites da língua iam sendo testados pelos designers, revelando a natureza gráfica de muitas regras gramaticais e ortográficas – como a obrigação de colocar títulos em maiúsculas, ou de não os hifenizar (já falámos disso aqui).

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Mais recentemente, começaram a aparecer designers que acrescentam conteúdos ao trabalho, escrevendo textos que se juntam ao texto fornecido pelo cliente. Nos cartazes de João Marrucho para uma festa no bar Passos Manuel, por exemplo, é anunciado que o próprio designer vai lá estar com os amigos para assistir ao espectáculo anunciado (exemplo acima).

Nenhum destes modos de fazer design substituiu os anteriores, mas coexiste com eles num ecossistema cada vez mais complexo e especializado. O mesmo designer pode oscilar entre modos, escolhendo o mais adequado para cada cliente ou ocasião. João Marrucho pode realizar um flyer para a sua editora musical, respeitando uma separação hierárquica estrita entre forma e conteúdo (ver imagem abaixo), ou pode usar criativamente uma limitação técnica, como no caso de um poster para a programação mensal do bar Passos Manuel, concebido de modo a poder ser dividido em quatro flyers distintos (a imagem que começa este post).

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É costume associar-se uma ambiguidade entre forma e conteúdo ao “design de autor”, produzido fora de obrigações comerciais, mas diferentes modos de resolver a oposição forma/conteúdo podem indicar diferentes temas, produtos ou contextos.

O catálogo típico de Serralves, por exemplo, tem as suas hierarquias bem marcadas: os textos de introdução aparecem no início, por vezes impressos num papel diferente do resto; os trabalhos são reproduzidos a cores, em papel couché, cercados uma margem branca, sem redimensionamento ou corte, acompanhados por uma legenda discreta e organizados de modo neutro, alfabeticamente ou cronologicamente. Esta disposição reforça a ideia de hierarquia, e corresponde também a uma separação de tarefas bem definida na execução do trabalho gráfico, editorial e curatorial.

Por outro lado, o design do catálogo de uma exposição alternativa, como a do Salão Olímpico, da autoria de Pedro Nora, segue uma estratégia diferente, menos hierarquizada, mas mais narrativa. Os textos, os trabalhos e a documentação sucedem-se de forma narrativa, sem hierarquia fixa – uma entrevista pode seguir-se a uma apresentação de fotografias de inaugurações, que pode vir depois da reprodução integral de um fanzine, ou dos trabalhos de uma determinada exposição ou artista. A diversidade dos elementos e estratégias é uniformizada pela reprodução a preto e branco, sobre papel uncoated, que contribui também para enfatizar o catálogo enquanto objecto.

Por isto tudo se vê que a relação entre forma e conteúdo não é historicamente estável, mas muda ao longo do tempo, ecoando diferentes técnicas, diferentes necessidades económicas e mesmo diferentes modos de vida.

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Filed under: Arte, Autoria, Cartaz, Cliente, Crítica, Cultura, Design, Exposições, História, Linguagem, Publicações, , , , ,

4 Responses

  1. O Livro: acho que os editores do objecto do Salão Olímpico não lhe chamam sequer catálogo, é um livro e não uma mera listagem de exposições ou artistas. Claro que não tem a narrativa duma banal ficção porque precisou de responder às exigências dum contexto muito específico mas para mim é mesmo o melhor livro da década. Tanto os editores como o designer fizeram um óptimo trabalho e merecem as maiores felicitações.

  2. Uma clarificação: Um destes meus catazes (“Hoje, eu a Silvina, o Xico, o Bino e o Sctoch vamos ao Passsos ver a Radio Crónica) veio no seguimento de um conjunto de afixações públicas feitas em locais escolhidos a dedo. Na altura, locais próximos da Faculdade de Belas-Artes e em espaços da própria Faculdade, que era onde trabalhávamos. Começou em 2003 quando depois de sair de uma aula de desenho do Pedro Maia e do Paulo Almeida, afixei um cartaz feito à mão (com um desenho copiado do João Marçal, cheio de facas espetadas, escrito: “Então o Electronicat esteve no Porto e ninguém me disse nada? “) na montra do Café Belas Artes. Depois disso, houve mais gente a colocar cartazes sem cliente, feitos na primeira pessoa, e nesta série das saídas à noite, lembro que o Albino dos Bolos Quentes, também contribuiu com pelo menos um. Ainda hoje o mesmo espírito se encontra por lá, no cartaz do Sérgio (também dos Bolos Quentes) que anuncia em discurso directo que o “-Agora o Belas tem net?!”.

  3. […] texto faz conjunto com outros. Um que tratava das características formais destas duas gerações de designers; este, este e este, […]

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