The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Interacção Melancólica

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Já faz dez anos que vi pela primeira vez um número da Acme Novelty Library de Chris Ware. Lembro-me que cada página tinha dezenas de quadradinhos cheios de animais estilo desenho animado. O design lembrava as revistas e jornais densamente ornamentados do início do século XX. Na altura não comprei, embora me tenha ficado na memória. Não o fiz talvez por excesso de design – porque se pareciam mais com objectos do que com histórias. Ainda hoje sinto isso, mas com o tempo aprendi que os comics de Chris Ware se instalam precisamente numa ambiguidade entre objecto e narrativa.

Além das histórias de bd propriamente ditas, cada álbum de Ware está recheado de anúncios irónicos a produtos inexistentes e de objectos para recortar e montar. Estes últimos atingem por vezes uma elaboração maníaca: pequenas bibliotecas com pequenos livros que podem ser realmente ser lidos (imagem abaixo); panoramas articulados; robôs e naves espaciais; quartos mobilados; máquinas para ver filmes de animação, etc. Estes são objectos irónicos, na fronteira entre o design gráfico e outra coisa qualquer. Podem ser construídos, mas é mais provável que fiquemos simplesmente a olhar para eles, desejando ter tempo para os montar, embasbacados pela sua complexidade.

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De certa forma, parecem dizer que devemos pensar bem antes de interagir com eles. Sabemos que desvendar as suas instruções, recortá-los e colá-los, é uma tarefa bem mais complexa do que usá-los. Finalmente, estes objectos acabam por fazer muito pouco. Parecem brinquedos mas, no fundo, são tudo menos isso. Demonstram uma interacção perversa e dolorosa, que maltrata o próprio leitor – é preciso uma estranha dose de optimismo para montar um visionador de animação de papel para depois assistirmos a uma batata antropomórfica a arrancar os seus próprios olhos com uma tesoura; ou para montar a cabeça mecânica do gato Sparky, que depois chora a sua “falecida avó que não voltará a ver”; ou o boneco animado do rato bicéfalo Quimby que lamenta a morte de uma das suas cabeças.

Esta sensação de interacção melancólica transcende os próprios livros. Ware também produz uma estranha panóplia de objectos periféricos, que por vezes utilizam os próprios álbuns de bd como peças. Alguns são meramente lúdicos, como a máquina que troca uma chave de casa inserida numa ranhura por um pequeno álbum de banda-desenhada; outros são realmente funcionais, como o expositor de cartão da Acme Novelty Library, que conta a história da linha de montagem onde os álbuns são fabricados (ratinhos esticam os quadradinhos como se fossem telas, para depois lhes prenderem os cadáveres de outros ratinhos fuzilados para o efeito).

Todos os aparelhos de Chris Ware encerram estes pequenos actos de crueldade. Tal como uma bd contam histórias. Aproveitam a interacção desajeitada e inocente do gadget e do brinquedo de feira, tornando-a trágica e auto-consciente.

É possível encontrar imagens dos brinquedos de Chris Ware neste site. “Interacção Melancólica” foi publicado numa forma ligeiramente diferente na revista Dif.

Filed under: Banda Desenhada, Crítica, Cultura, Design, Publicações, , , ,

2 Responses

  1. Já por várias vezes tinha pensado “para quando um texto sobre Chris Ware no The Ressabiator?” ou algo como “será que Mário Moura curte Ware?”. Ei-lo, ainda que superficial e centrando-se nos gadgets paralelos às BD propriamente ditas. Talvez um dia surja um outro texto sobre a estrutura narrativa das suas histórias e sobre os loops e flahshbacks gráficos constantes nas suas páginas. Uma página de Ware é um manancial de informação gráfica, um tratado de traço e cor. Ware faz-me lembrar melancolicamente a obra gráfica de João Abel Manta (onde, creio, tudo começou para mim) e o trabalho gráfico dos holandeses EGBG relativamente à maneira como encaram a narrativa e a descarregam no suporte.

    Confesso-me desde já (como se fosse preciso…) fã incondicional de Ware. Colecciono a ACME Novelty Library e tenho mesmo um macrocéfalo Jimmy Corrigan na minha prateleira das BDs. Abençoado Ware!

  2. pedromarquesdg diz:

    Sem dúvida: o Ware e o Manta têm muito em comum no grafismo e numa certa mordacidsde e violência emotiva muito contida. Manta que, sendo este país o que é, anda mais esquecido do que devia…

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