The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Dois Empregos (ou mais)

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Como se avalia o sucesso profissional de um designer? Talvez um designer bem sucedido deva poder viver bem do seu salário, sem precisar de um segundo emprego, por exemplo. Mas será que é mesmo assim? Muitos dos designers mais conhecidos acumulam a sua prática profissional comercial com o ensino e, de maneira geral, isso até é visto como um reconhecimento do seu mérito enquanto designers. É uma situação tão natural que muitos não vêem o ensino como um segundo emprego, mas como uma extensão da sua prática profissional normal.

Mas o duplo emprego também se tornou comum entre os jovens designers, embora com um carácter distinto. Há uns três anos, por exemplo, um amigo meu trabalhava das nove às sete num atelier de design de grandes dimensões, quase uma agência. Fora de horas e aos fins de semana, ainda conseguia manter inúmeros projectos editoriais independentes e auto-financiados. Mais recentemente, outro amigo meu recém-formado trabalha num hostel, o que lhe permite manter uma base financeira sólida para manter quer projectos independentes – neste momento, comissaria uma exposição de design no estrangeiro –, quer trabalhos comerciais – faz book design para uma editora portuguesa muito conhecida.

Este género de situação é consequência directa dos cortes estatais nas áreas da cultura e do ensino superior público. As universidades repõem parte do dinheiro que precisam para funcionar aceitando cada vez mais alunos. Estes são lançados num mercado cultural cada vez menos apoiado pelo Estado. Sobrevivem e financiam os seus projectos com a ajuda de empregos que podem não ter nada a ver com a sua área de estudos ou mesmo de interesse. De certa maneira, o seu tempo livre torna-se a sua verdadeira carreira, enquanto o emprego diurno é apenas uma forma de a financiar – cada pessoa é o seu próprio subsídio, o seu próprio patrocinador.

A profissionalização dos tempos livres explica um aparente paradoxo: como é que numa cidade como o Porto, onde é palpável o desinvestimento nacional e municipal na cultura, há cada vez mais cultura alternativa, desde a fieira de lojas alternativas da Rua do Almada e da Miguel Bombarda, até publicações e exposições independentes, passando por espaços mantidos em prédios desocupados, com o acordo dos proprietários.

Com pouco dinheiro público, consegue-se uma cena cultural fervilhante e, à primeira vista, a abundância levaria à conclusão que o modelo funciona bem. No entanto, o sistema assenta num mal-entendido: muitos destes jovens artistas acreditam que, se conseguirem manter um trabalho de qualidade, conseguirão eventualmente ser apoiados, quer pelo Estado, quer por instituições privadas. Mas em geral, o apoio – se e quando aparece – traduz-se mais em branding do que em dinheiro – o artista fornece a sua obra, o mais auto-financiada possível; a instituição empresta ao artista a visibilidade e a imagem de marca institucional.

É cada vez mais comum – e os designers são um bom exemplo – dizer-se que as preocupações éticas, politicas e mesmo públicas deveriam ser deixadas para os tempos livres. Porém, o sistema do “auto-financiamento cultural” assenta na profissionalização – talvez até privatização – dos tempos livres dos trabalhadores culturais. Se, à primeira vista, as comunidades fervilhantes de artistas e designers são indício de um espaço público saudável, olhando melhor vemos que na verdade aquilo se trata de um mercado agressivo, competitivo – mas essencialmente conservador – de empresas de uma pessoa só. Por outras, palavras, não se trata de uma esfera pública, mas de apenas mais outro mercado. De certa maneira, este modelo limita-se a emprestar uma aura romântica à precariedade laboral e à demissão do Estado da tarefa de manter uma esfera pública saudável e livre de interesses privados que a possam comprometer.

Filed under: Arte, Crítica, Cultura, Design, Economia, Ensino, Exposições, Política, , , , , ,

15 Responses

  1. Anónimo diz:

    Não concordo com a desculpalização dos candidatos aos cursos universitários. Deve ser estimulado o pensamento crítico e a decisão informada. Claro que a maior parte das vezes temos como resposta – “esta é a minha vocação, não quero fazer outra coisa”. O mercado, não o estado, não tem capacidade (interesse) para absorver tantos designers. É a sociedade em que vivemos.

  2. Influenciada pelas nossas conversas vou piscando os olhos a esta situação que, embora possas não concordar, é mais evidente nos artistas plásticos e menos nos designers, uma vez que são estes o grande motor da cena independente da cidade. (Embora, a dada altura não entenda se estás a falar de artistas ou de designers!)

    Por outro lado e na mesma piscadela que falava à pouco, voltamos a não concordar neste aspecto – a cultura alternativa, publicações e exposições independentes, performances ao virar da esquina, enfim, um roda viva de acontecimentos, motivada e sustentada pelos próprios artistas, já não está no ponto em que estava. O que se assiste no momento presente (e o fim de semana das inaugurações foi exemplar neste aspecto), é que são as empresas privadas que estão a ganhar terreno. O que me parece é que a sequência de causa-efeito não me parece correcta: quando desaparece o investimento público, o privado que se auto-apoia/sustenta (a comunidade alternativa), por alguma razão também sai de cena e aparecem as empresas que ganham terreno, principalmente no espaço público o que cria logo à partida a ilusão que o seu impacto é maior.

    Possivelmente os artistas identificam-se e sentem-se mais motivados com as manifestações culturais significativamente mais arriscadas, logo de outro nível cultural, normalmente tornadas possíveis com os apoios estatais de governos para aí virados, que com esta fanfarra apoiada pelos whiskies e mealheiros.
    Daí, os artistas, em geral, se sentirem abatidos pela situação presente, ao que assistem invadir as mesmas ruas onde se juntavam cada vez que acontecia aparecer um novo projecto ou uma nova emoção. Por isso, não confundir, alhos com bugalhos. Muito, mas mau ruído, é o que é!

    bjs

  3. De facto, o exemplo dos efeitos negativos da privatização do tempo livre é mais visível nos artistas, talvez porque, no caso dos designers, o trabalho realizado fora do expediente tende a ser realizado sem ter qualquer tipo de lucro em vista e, não há um mercado ou uma carreira organizados em torno dele, como no caso dos artistas. Talvez seja importante fazer uma distinção entre designers que trabalham profissionalmente para o mercado cultural e designers que o fazem nos seus tempos livres, como “designers-autores”. No caso destes últimos, o esquema de que falo parece-me aplicável, enquanto nos primeiros, não.

    No entanto, parece-me que falamos da mesma situação embora em fases diferentes do processo, quando falas de:

    quando desaparece o investimento público, o privado que se auto-apoia/sustenta (a comunidade alternativa), por alguma razão também sai de cena e aparecem as empresas que ganham terreno, principalmente no espaço público o que cria logo à partida a ilusão que o seu impacto é maior.

    Isso acontece por causa do fim das expectativas de que falo no post, quando digo que:

    o apoio – se e quando aparece – traduz-se mais em branding do que em dinheiro – o artista fornece a sua obra, o mais auto-financiada possível; a instituição empresta ao artista a visibilidade e a imagem de marca institucional.

  4. Pela minha convivência muito directa com ambas as áreas, e com os seus intervenientes, não entendo claramente as possíveis convergências e divergências a que te referes entre os artistas e designers. Como também não sei se faz sentido fazer um combinado das duas áreas para falar dos efeitos da privatização.
    Será que a tua análise não está a recair apenas sobre o designer-autor? Este poderá ser o mais próximo de ser um designer-artista e assim, percebe-se a partilha dos possíveis problemas gerados pela privatização e etc. No entanto, este não é representativo dos designers. Assim à primeira vista, e fazendo uso do senso comum, o mais natural é resultar daqui, da privatização de tudo e mais alguma coisa, mais trabalho e emprego. Até para os designers que se direccionaram para a área cultural – se bem me lembro, para além de ser um trabalho mais bem pago, não há tantos atrasos como havia quando as Câmaras demoravam anos a pagar um trabalho pontual.
    Mas voltando ao designer-autor, com projectos pessoais fora do expediente, e em comparação com os seus colegas artistas, a tua análise sobre a sua actividade parece-me pouco realista (e talvez inocente). Sem ter em vista o lucro, um mercado e uma carreira organizada? Está frio, mas trabalhar para aquecer não me convence!

  5. Será que a tua análise não está a recair apenas sobre o designer-autor?

    Foi o que eu disse no comentário anterior, embora pensando melhor, se possa especular que o design-para-a-cultura e o design-autor estão ligados, conforme afirmo mais abaixo.

    com projectos pessoais fora do expediente, e em comparação com os seus colegas artistas, a tua análise sobre a sua actividade parece-me pouco realista (e talvez inocente). Sem ter em vista o lucro, um mercado e uma carreira organizada?

    Embora aqui em Portugal, o design de autor seja uma cena emergente e fraca, boa parte dos designers internacionalmente mais conhecidos têm trabalho dentro deste género – Bruce Mau, Neville Brody, Dave Eggers, Stuart Bailey, etc.

    Muitos destes designers trabalham para o mercado cultural, além de desenvolverem os seus projectos enquanto designers-autores. As duas coisas estão evidentemente ligadas, até porque o trabalho de auto-edição, e de auto-comissariado serve também de promoção aos designers dentro e fora da sua disciplina. Não se trata de um modelo tão ritualizado e codificado como o das artes, mas existe e tem a tendência para aumentar.

    Se não é um mercado para os produtos (e para os próprios artistas enquanto produtos e empresários), como no caso das artes, acaba por ser um mercado de promoção para os próprios designers, que lhes permite estabelecerem-se no vantajoso mercado da cultura.

    Também serve para exprimir ideias ou críticas quer sobre o design, quer sobre a sociedade em geral, quer sobre o próprio designer enquanto individuo (isto não pertence nem ao mercado nem à carreira, embora possa ser vendido, como tudo na vida).

    As ligações entre design-autor e design-trabalhador-cultural são lucrativas, mas complexas, e este post, usando o exemplo dos artistas, tenta reflectir sobre os perigos e preconceitos dessas ligações.

    Tenho a convicção que o design de autor, precisamente por não ter uma intenção comercial ou carreiristica imediata permite um pensamento crítico que um trabalho comercial não permite.

    No entanto, existe o perigo de o design ser usado acriticamente como uma arte light, mais ligada à cenografia de eventos patrocinados, que como uma forma de promover uma esfera pública.

    Nesse aspecto, o perigo de isolar o design-de-autor em relação ao design-como-serviço-cultural contribui para a erosão da esfera pública. Aqui, os designers estão sujeitos às mesmas pressões e perigos que os artistas.

    Acreditar que os designers são inocentes por acreditarem numa esfera pública, porque seria mais lucrativo e mais vantajoso economicamente trabalharem apenas como um serviço, é exactamente a mesma coisa que acreditar que os artistas são inocentes por acreditarem que existe a possibilidade de trabalharem para além da carreira ou das vendas.

  6. (continuando o comentário anterior)

    A questão principal do texto é que o trabalho “inocente” e realizado fora de horas dá bastante a ganhar ao Estado, à Cidade, às Instituições Privadas, etc. ilibando-os quase totalmente de responsabilidades financeiras para com os artistas e produtores culturais em geral.

    Este processo não se limita apenas aos artistas, mas estende-se a todo o género de produtores culturais. Não se limita também ao Porto, ou mesmo a Portugal, e neste momento é a regra em todas as economias neo-liberais.

    Vejo o caso dos artistas independentes do Porto como apenas um exemplo de uma situação mais global, interessando-me apenas pelo género de ilações que se podem retirar dele e aplicar ao caso do design. O âmbito deste texto, necessariamente curto, é esse.

    No fim de contas, se não é palpável no meu texto uma grande distinção entre artistas e designers, é porque, neste âmbito, a diferença não me parece relevante.

    (Quanto às relações profissionais entre design e cultura, já falei disso em mais textos (aqui, aqui e aqui), tencionando voltar a elas no futuro.)

  7. picnic diz:

    “Possivelmente os artistas identificam-se e sentem-se mais motivados com as manifestações culturais significativamente mais arriscadas, logo de outro nível cultural, normalmente tornadas possíveis com os apoios estatais de governos para aí virados, que com esta fanfarra apoiada pelos whiskies e mealheiros.”

    Só não percebo é porque esses tais artistas de “outro nível cultural” andam todos pela Miguel Bombarda a arrastar-se pelas esquinas de copo na mão.

  8. Acreditar que os designers são inocentes por acreditarem numa esfera pública, porque seria mais lucrativo e mais vantajoso economicamente trabalharem apenas como um serviço, é exactamente a mesma coisa que acreditar que os artistas são inocentes por acreditarem que existe a possibilidade de trabalharem para além da carreira ou das vendas.

    Esclarecendo a definição de esfera pública: acredito que a esfera pública deve proteger e incentivar todas as opiniões, independentemente de serem populares ou lucrativas. Por esta razão, esfera pública e mercado devem permanecer distintos, mesmo que os dois tratem de coisas que podem ser vendidas. No caso do mercado, isso é inevitável; no caso da esfera pública, o valor económico é secundário, e deve permanecer o mais irrelevante possível – apenas mais uma coisa a ser discutida, entre outras, e não a base de tudo.

    (Devido à tendência actual para se pensar na sociedade unicamente em termos de mercado, os apelos à manutenção de áreas não-comerciais tendem a ser vistos como irrealistas, ou simplesmente como mais uma desculpa para vender encapotadamente qualquer coisa.

    Justificar que as injustiças da sociedade capitalista são inevitáveis, e que é inútil criticá-las, porque toda a gente acaba sempre por vender ou comprar qualquer coisa é uma falácia. Assenta numa falsa escolha entre, por um lado, aceitar cegamente tudo o que o capitalismo tem de bom ou de mau e, por outro, simplesmente morrer à fome, sem nunca tocar em dinheiro, mercadoria ou negócio. Existem mais opções, vários modelos de mercado, que podem conviver melhor ou pior com uma esfera pública.)

  9. […] assim criticamente à sociabilização profissionalizada da cena. Este texto foi escrito antes de Dois Empregos (ou mais) e faz parte de um conjunto textos dedicados às condições de produção da cultura independente. […]

  10. […] cena alternativa do Porto foi vingando (as razões para isso são tratadas com mais pormenor aqui e aqui), mas, como seria de esperar, os seus protagonistas não sentem demasiada gratidão em relação ao […]

  11. […] com outros. Um que tratava das características formais destas duas gerações de designers; este, este e este, que tratavam das condições económicas da cena independente do Porto e de como […]

  12. […] me entusiasmou. Se os cortes afligem é porque, tal como já tinha escrito há uns tempos (aqui e aqui), o estado prefere dar dinheiro a grandes instituições do que a artistas independentes. As […]

  13. rui diz:

    O estado está a cortar em tudo… apenas restam os privados e mesmo esses, na maioria das vezes, apenas emprestam a sua página principal do site para colocar um banner, ou o seu logo para ser colocado em galerias, mas investir tem cabido ao designer, ou mesmo ao artista plástico.

    Tive sorte uma vez em que entreguei todos os meus quadros a uma galerista que os expôs sem cobrar dinheiro nenhum pela exposição ou aluguer da galeria. Consegui vender todos os quadros, entregando uma pequena percentagem (15%) das vendas à galeria.

    Acho que foi muita sorte, pois raramente encontramos uma galeria disposta a “emprestar” o seu espaço (sem cobrar). Mas acho que foi um bom negócio tanto para mim como para a galerista! 🙂

  14. […] –, tudo em nome de uma suposta informalidade que seria mais produtiva, mais alegre. Em algumas ocupações, a carreira inteira ocupa os tempos livres, ficando o emprego reservado à recolha de fundos. Num […]

  15. […] a altura em que escrevo para aqui. Podem encontrar alguns exemplos do que penso sobre o assunto aqui, aqui e aqui, quase tudo pré-crise. Agora, esta reflexão só se tornou mais urgente. E não basta […]

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