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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

As Duas Interdisciplinaridades

A ideia de interdisciplinaridade dá a entender não uma “coisa”, mas uma relação entre “coisas”. Pretende ser uma oportunidade para ultrapassar fronteiras e limitações disciplinares, aproveitando conceitos e recursos de outras áreas, conotando flexibilidade e mobilidade, por oposição a rigidez e estabilidade. Mas, se parece realmente opor-se à ordem estabelecida, pode também ser apenas um nome mais informal, mais “sexy”, para um poder que se procura sobrepor a tudo e a todos, minimizando as regras dos outros e ocultando as suas próprias.

O design acaba por ser um bom exemplo das contradições implícitas do conceito de interdisciplinaridade. Por um lado, o termo é usado para classificar as áreas mais periféricas, mais “esquisitas” – os designers que também são DJs, VJs, que se dedicam à música, à literatura, à arte, etc. –, por outro, já há quem defenda que o próprio design é interdisciplinar por natureza, porque lida regularmente com clientes das mais diversas áreas.

No primeiro caso, a interdisciplinaridade parece servir para nomear actividades realizadas nos tempos livres, sem cliente, ou intenções económicas, demasiado irregulares para serem incluídas de forma permanente na área disciplinar do design. No entanto, há tantos designers a pôr música, a fazer VJing ou a editar as suas próprias publicações que é justo interrogarmo-nos se a interdisciplinaridade não será apenas uma forma de enfatizar a excentricidade de práticas relativamente corriqueiras e, por outro, uma forma de evitar que o design “clássico” se divida em várias especializações.

Isto traz-nos de volta ao segundo caso, a ideia de que o design é interdisciplinar porque lida com pessoas, temas e necessidades vindos de outras áreas disciplinares – por outras palavras, a crença de que um designer com uma formação geral consegue trabalhar para todo o género de clientes sem ter de se especializar. Porém, se a especialização em determinados temas, clientes, ou modos de exercer fosse levada a sério pelas instituições de ensino, pela teoria, pela critica e pelos próprios designers, chegar-se-ia facilmente à conclusão que há especializações que compensam mais do que outras – ou seja, que há designs de primeira e designs de segunda.

É claro que na “vida real” há realmente especialização, e há quem ganhe ou perca com isso, mas a ideia da interdisciplinaridade fundamental do design esconde essas diferenças contribuindo para a coesão disciplinar do design, dando a entender que um empresário do design tem as mesmas qualidades que um freelancer, que alguém que trabalha para a cultura tem as mesmas aptidões de alguém que trabalha para a indústria, a economia, a agricultura, etc.

No fundo, a interdisciplinaridade é um mito, não no sentido de não existir, mas no de ser uma narrativa que permite explicar uma contradição que, apesar de tudo, é produtiva, e portanto não pode ser descartada facilmente.

Filed under: Cliente, Crítica, Cultura, Design, , , ,

6 Responses

  1. Anónimo diz:

    especializar a interdisciplinaridade? este último é um termo que veio associado ao projecto pós-moderno e que como outros, globalização, por exemplo, foi aplicado até à exaustão. Concordo contigo quando dizes que a especialização na realidade não cessa, mas é um alívio recorrer a outros saberes sem que para isso tenhas de ser um poeta ou um erudito!

    Não estou a restringir a interdisciplinaridade ao design, mas a todas as áreas de produção e investigação criativa. Digo criativa por existirem outras um pouco esquisitas nesta interdisciplinaridade, coisas como: “psicologia da arte”, “arte-terapia”, etc.

    Teremos de especificar um campo de interesse dessa interdisciplinaridade, avançaria com este quadro, repito, “produção e investigação criativa”, sendo que em qualquer processo de investigação o termo deixa de ser mito, passa a prática.

  2. No texto, não falei da interdisciplinaridade como o recurso a conhecimentos de outras áreas, uma coisa bastante quotidiana e inevitável. Parece-me impossível exercer qualquer género de actividade ou investigação sem recorrer a conhecimento de outras áreas.

    Referia-me à reclamação do termo “interdisciplinaridade” por áreas bastante identificáveis, que na verdade não se situam entre disciplinas, mas que acabam por ser em si mesmas disciplinas, com pouca vontade ou capacidade para se definirem. Ao reclamarem um estatuto interdisciplinar podem manter-se confortavelmente à parte; ou então, podem tentar assumir uma posição de gestão em relação a outras disciplinas. No fundo, o texto trata das vantagens e das desvantagens de evitar a definição.

    Penso que ao definir um campo de interesse para uma interdisciplinaridade, ela acabaria por se definir, tornando-se num campo disciplinar, acabando por se tornar numa especialização. Deixaria de ser espaço negativo, para se definir como uma figura.

    Usei a palavra “mito” num sentido próximo do da antropologia estruturalista. Não como algo que não existe, mas como algo que é produtivo, porque consegue “explicar” uma contradição. Neste aspecto, o mito não se opõe à prática, antes pelo contrário.

  3. Anónimo diz:

    Esclarecido.

    Mas o quadro que dei é em si interdisciplinar, julgo que se tornaria impossível de disciplinar.
    E tem a ver, de facto, com a prática de investigação e produção e provavelmente mais próximo da segunda interdisciplinaridade.

  4. Marcelo Carvalho diz:

    parece-me ridículo julgarmos algo como impossível.

    se a tarefa principal de um designer gráfico é resolver problemas através de soluções gráficas, não me parece assim tão impossível haver alguém capaz de estudar esta área, escolher e justificar outras áreas de interesse para um designer gráfico. No fundo alguém que encontra-se uma solução para esta “contradição”, solução esta que não precisa de ser necessariamente gráfica.

    Por outro lado o seu quadro parece pouco interdisciplinar, porque parte já como um quadro circunscrito a novas disciplinas.

  5. […] As duas interdisciplinidades by Mario Moura : The ressabiator […]

  6. […] como com indisciplina, pura e simples – pessoalmente, sempre preferi a segunda e desconfiei da […]

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