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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Design enquanto Negociação

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It is well enough understood that design is a socially negotiated discipline, and there are telling respects in which design questions are political questions. [Norman Potter, What is a Designer]

A proposta era simples: fazer três cartazes sobre um tema à escolha – neste caso, uma série de filmes –, e a coisa estava a correr bem. O aluno tinha-me mostrado o trabalho na véspera da entrega e eu fiquei entusiasmado. Eram cartazes elegantes, económicos; apenas o nome do filme e uma imagem vectorial, quase abstracta. Mas, no dia da avaliação, o coração caiu-me aos pés. De um dia para o outro, tinham-se enchido com os nomes do realizador, do produtor, dos actores, e o trabalho tinha piorado consideravelmente. Perguntei-lhe porque tinha posto aqueles nomes todos. Respondeu-me que o tinha feito porque o cliente tinha pedido. Lembrei-lhe que aquilo era um trabalho de escola. O cliente, neste caso, não existia.

Esta história demonstra bem como, desde muito cedo, os designers são treinados para só exercerem o design ao serviço de um cliente. Ou seja, mesmo que não haja dinheiro envolvido, devem enquadrar as sua actividade em termos de relações comerciais com clientes, reais ou imaginários. Por um lado, isso é compreensível: pensar em alguém como um “cliente” já ajuda a contratualizar de alguma maneira essa relação, ajudando a promover o design como uma actividade responsável e distinguindo-o do simples diletantismo.

Mas será que pensar no design apenas em termos das relações entre designers e clientes não é também uma limitação? Será que trabalhar para o Estado, ou para um fim público, por exemplo, deve ser encarado como uma relação com um cliente? Será que isso não dá a entender, de alguma forma, que o Estado é uma empresa? Por outro lado, será que se pode falar de “cliente” quando se trabalha numa firma de design ou numa agência de publicidade de grandes dimensões, situações em que pode ser muito raro lidar directamente com clientes?

Talvez fosse mais vantajoso substituir a ideia de cliente por uma ideia de negociação ou de argumentação mais genérica, que não tenha como único modelo a troca comercial, e que permitisse discutir também um trabalho em termos culturais, sociais, éticos e políticos.

Porém, um dos chavões mais comuns das aulas de design é a ideia de que o bom design deve valer por si só – ou seja, que o trabalho finalizado é mais importante que a sua discussão. Por um lado, isto significa que um trabalho deve funcionar sozinho, sem ter ao lado o seu criador para o explicar. Por outro lado, dá a entender que, depois de feito, um trabalho de design já não precisa de ser discutido.

Mas a ideia de que o bom design é indiscutível não é, pura e simplesmente, verdade. Muito daquilo que os designers consideram como o melhor design, só o é porque consegue sustentar uma discussão alargada – porque é o tema de criticas, de investigações académicas, de debate público. Por outras palavras, a capacidade de argumentação não se deve limitar à fase de concepção do trabalho, mas deve ser usada activamente sempre que possível – antes, durante, depois e além do trabalho –, e é uma das chaves para um design mais aberto e mais responsável.

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Filed under: Ética, Cliente, Crítica, Cultura, Design, Ensino, Política, , ,

7 Responses

  1. Tiago diz:

    Quando criamos um determinado produto/serviço este terá que ser útil, usável e de utilização agradável e significativa. Como tal, exercer design será sempre um processo de negociação entre todas as partes envolvidas no projecto (designer, cliente e público-alvo) com o intuito de satisfazer uma série de necessidades e requisitos de negócio, de produto e de público-alvo. E para satisfazer esta lista de necessidades é inevitável todo o processo de negociação entre as três partes envolvidas.

    Sem dúvida que depois de finalizados o produto/serviço deverá valer por si só. Ou melhor, deverá funcionar por si só… pensem, por exemplo, em dispositivos interactivos que por serem mal concebidos levam a situações catastróficas. Pode ser uma mensagem mal comunicada, logo mal entendida, pode ser um aparelho que avaria porque não comunica o seu funcionamento de forma adequada. Diria que a discussão não termina depois de concluido o processo. Diria mesmo que a discussão é interminável. Mesmo depois de finalizado um determinado produto/serviço, a discussão continuará sobre as consequências desse produto/serviço, o que funciona, o que não funciona, o que poderá ser melhorado, entre outras questões. E esta discussão continua entre os três vértices do triângulo (público-alvo, cliente e designer).

    Será correcto ensinar os designers a exercerem design ao serviço de um cliente? Ou será mais correcto ensinar os designers a exercerem design ao serviço não só de um cliente, mas também, a provavelmente mais importante, ao serviço de um público-alvo..?

  2. marrucho diz:

    Eu vou usar essa da “ideia de negociação ou de argumentação mais genérica, que não tenha como único modelo a troca comercial, e que permitisse discutir também um trabalho em termos culturais, sociais, éticos e políticos” cada vez que alguém me disser, mas o cliente é que paga por isso tem sempre razão. Infelizmente, a quantidade de clientes adeptos da auto-fuck é assustadora. Acho que descobriste o que pode ser uma das causas mais directas para os sucessivos falhanços de tantas PME’s!

  3. […] texto foi colocado como comentário ao post “O Design enquanto Negociação” no blog “The Ressabiator”, de Mário Moura. comment feed | 0 comments 0 […]

  4. Antes de mais os meus sinceros parabéns pelo vosso Blog.
    Usei um texto vosso (o mapa enquanto logo – excelente por sinal) no blog da minha empresa.
    Caso se torne uma situação incómoda digam-me alguma coisa que retirarei (vem mencionada a fonte no fim do artigo).

  5. Não há problema algum. Aliás, obrigado pela preferência.

  6. diogo diz:

    Lembro-me de um professor na FBAUP nos ter dito: “se me conseguirem enganar, têm boa nota… quer dizer que também vão conseguir enganar os clientes”.

    É claro que não foste tu Mário, não te assustes!

  7. […] texto foi colocado como comentário ao post “O Design enquanto Negociação” no blog “The Ressabiator”, de Mário Moura. comment feed | 0 comments […]

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