The Ressabiator

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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

Os Três Taxistas

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Há uns anos, fui a Lisboa participar numa reunião no Ministério da Ciência e Tecnologia, um palacete reconvertido à burocracia, e apropriadamente localizado atrás do Jardim Zoológico. A agenda era a aplicação do processo de Bolonha ao design e estavam representadas cerca de vinte das trinta escolas privadas ou públicas onde é ensinado design em Portugal.

A certa altura, por qualquer razão, discutiu-se os diferentes usos da palavra “Design”, as possíveis maneiras de os regular e, inevitavelmente, quem é que podia praticar e ensinar legitimamente o design. Lembro-me de ter dito que, se o design era realmente uma coisa importante para a sociedade em geral, a sociedade em geral iria falar sobre ele, e seria difícil regular isso. No fundo, o design é uma linguagem universal, de que os designers seriam apenas utilizadores especializados. Alguém, interpretando mal o que eu estava a dizer, discordou, dizendo que o design não era universal porque em África não havia design. Tentei responder que era universal porque o acesso não era, à partida, restrito, mas a reunião terminou ali mesmo e o esclarecimento ficou por fazer. Saí do palacete a rir-me daquilo tudo e apanhei um táxi para a Baixa.

O taxista perguntou-me se tinha preferência no trajecto. Eu disse-lhe que não. Embora tivesse nascido em Lisboa, já mal conhecia aquilo. Disse-lhe que ainda me lembrava do aeroporto como uma antena de radar vermelha a rodar no meio de um descampado. Ele riu-se, e disse que isso já tinha sido há muito tempo. Fomos falando (quando vou a Lisboa, é comum meter conversa com os taxistas, talvez por não usarem muito palavras como “foda-se”, “caralho”, etc.) Acabou por me perguntar o que eu tinha vindo fazer a Lisboa. Uma reunião sobre o ensino de design em Portugal, respondi, com algum receio que ele torcesse o nariz à palavra. Mais uma vez riu-se e disse que sabia muito bem o que era o design. O filho dele tinha estudado no Iade. Acabámos a viagem trocando e comentando definições possíveis de design. Saí na Baixa, bastante bem disposto, acabando por decidir ficar mais um dia em Lisboa.

Nesse dia à noite, fiquei de me encontrar com amigos num café do Bairro Alto. Não conhecia o sítio e apanhei um táxi. Perguntei ao taxista se conhecia o café. Ele disse-me que conhecia a rua, mas não o café. Trabalhava no turno da noite e, embora gostasse muito de sair, não tinha tempo para isso. Ser taxista era um emprego exigente mas o emprego anterior tinha sido bem pior; nunca tinha tempo para nada. Perguntei-lhe qual era esse emprego. Ah! Você nunca ia adivinhar, disse, eu imprimia coisas sobre papel. Você trabalhava numa tipografia, exclamei. Acabámos a viagem a falar de impressoras Heidelberg.

No dia seguinte, depois de ter tido duas conversas sobre design com taxistas no espaço de doze horas, estava quase convencido a mudar-me para Lisboa, mas apanhei um táxi para apanhar o comboio em Santa Apolónia. Desta vez, o taxista era uma versão paranóica do Travis Bickle. Guiava um Mercedes a cair de velho, com o tablier inteiramente colado com fita cola transparente. Aparentemente, este era um carro emprestado. Tinham-lhe roubado o táxi e de vez em quando abrandava para olhar melhor para outros táxis, pensando que podiam ser o dele.

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Filed under: Cultura, Design, Ensino

10 Responses

  1. Que história deliciosa. Conversar sobre design com um taxista é de fato uma oportunidade rara. Apesar do termo ser relativamente popular, são poucos aqueles que têm uma compreensão do design que não se reduza ao estilo, ao exercício formal/estético.

    Tenho acompanhado alguns blogs portugueses sobre design, com muito gosto. Muitas afinidades com o que ocorre no Brasil.

  2. Tiago Cruz diz:

    Em primeiro lugar, gostaria de comentar a expressão “o design não é universal porque em Africa não há design”. hmmm… Alguém concorda comigo quando digo que o design sempre existiu? Na minha perspectiva, a partir do momento em que o Homem primitivo começa a trabalhar uma pedra com o intuito de utilizá-la para rasgar peles, está a aplicar princípios de design. O intuito deste senhor é criar um objecto útil e usável. Posteriormente com o aparecimento de novas técnicas e ferramentas, este objecto é trabalhado tendo em conta um outro item: a experiência de utilização (até que ponto é agradável utilizá-lo?). Ou seja, design há em todo o lado. Mas existem pessoas especializadas na prática das várias disciplinas do design.

    Em segundo lugar, gostaria de comentar a questão da regulamentação do design apesar de não ter uma posição concreta (e estável) sobre o assunto. As questões que levanto quando penso nisto são: Não seria importante uniformizar a prática do design? Não em termos de estilos (logicamente) mas em termos de qualidade? Não seria importante promover as várias disciplinas do design de uma forma mais disciplinada e organizada? A existência deste orgão não iria promover e incentivar/motivar novos designers? No sentido de se fazer design com melhor qualidade? Por outro lado, quem é que decide o que tem qualidade e o que não tem? Que critérios são utilizados no processo de avaliação de determinado projecto de design?

    Existem muitos designers que acham que a avaliação de um projecto de design é sempre algo extremamente subjectivo… não acho. Vejo montes de coisas com as quais não me identifico, que não são “a minha onda”, mas reconheço-lhes a qualidade. Falando em webdesign, é perfeitamente possível avaliar a qualidade de um determinado website submetendo-o a uma série de testes de usabilidade (heurísticas, Patterns, entre outros), sem nos intrometermos nos estilos ou em diferentes linguagens. Essencialmente avaliar-se-ia a utilidade, a eficácia, a eficiência, a fácil aprendizagem, a fácil memorização e a segurança de um determinado produto/serviço de design.

    Desculpem a extensão dos comentários… mesmo procurando resumir e organizar o que pretendo dizer fico sempre com a sensação de que ficam coisas por dizer…

  3. diogo diz:

    Este post deixou-me bem disposto! (tirando a estranha afirmação de que não havia design em África)

  4. o ano novo diz:

    gostei muito do post, está bestial! parabéns, e bom ano.

  5. […] texto foi colocado como comentário ao post “Os Três Taxistas” no blog “The Ressabiator”, de Mário Moura. comment feed | 0 comments 0 comments […]

  6. Luis diz:

    Eu já estive em africa e cacei um designer…é a prova como lá à design sim senhor.

    Isto da internet é mesmo giro…por acaso, a passear por ai encontrei este blog e este post em concreto que me deu ganas de escrever.

    (Não me parecendo ser o seu caso) mas a ideia que temos dos outros, dos conhecimentos dos outros e das experiências que tiveram às vezes indiciam um certo preconceito, um esteriótipo e que no meu entender não se adequa ao principio do design e de ser designer. Nos tempos que correm não devemos considerar que os outros não sabem, ou não conhecem a palavra design e muito menos o conceito. (afinal design é: “isto..é isto, isto têm design…”).

    Faria sentido à uns 20 anos atrás mas hoje em dia está em todo o lado. O caso do Design Gráfico é uma interessante forma de promovê-lo. Não existe niguem que não tenha uma opinião ou que ainda não o tenha feito. Até a minha avó fez outro dia uns cartões de natal muito bonitos e que as amigas gostaram muito, disse-me muito orgulhosa mostrando-os como os fez. Existem taxistas ou senhoras da peixaria que sabem mais de design gráfico do que muitos dos “profissionais”. Apenas mais uma história: uma senhora, florista, estava com muitas rosas no dia dos namorados e não as conseguia vender todas (pensou ela). Foi buscar uma folha laranja fluorescente (mui bela por sinal), e escreveu com letra bonita: “Rosas, 25€”. Vendeu-as todas…Podemos perguntar se isto é design, se ouve aqui um processo criativo, etc…Vendeu as rosas e era esse o objectivo, promoveu o seu produto e isso é que interessa. Explicar a esta senhora o quê… ela é muito boa naquilo que faz.
    Avaliação do design: rápido, eficiente, baixo custo e com resultados.
    (custos: folha laranja – 0,20€
    muitos anos a escrever com aquela letrinha bonita – sem preço)

    O design está em todo o lado mas só após a revolução industrial, antes disso não era design. O conceito só faz sentido a partir do momento em que temos sociedades industrializadas e altamente consumistas onde estratégias sejam delineadas para “oferecer a cliente o melhor produto”, no fundo, VENDER. (o design está apenas nisto por acrescimo…é um apêndice…mas um bonito apêndice… com design)
    As coisas têm nomes e chamar a Deus o designer do universo acho que é um pouco demais. O homem a fazer uma concha com a mão para beber àgua não me parece que seja design, é esperto.
    O styling, o kitch o que vier não são mais do que nomes. Chamaram ao “Design”, design mas o seu conceito mudou nos ultimos 100 anos. Chamam-lhe a mesma coisa mas não o é. O design da Bauhaus é diferente do design italiano dos anos 50 e do americano e do portugues e de todas as formas e maneiras que os produtos tiveram para chegar ao cliente. Até o mau design é design. A pergunta está mal feita de raiz: “O que é o design?”.

  7. Luis diz:

    Tinha mais para dizer mas vou criar o meu blog para não encher este de comentários. Mas antes…

    No séc XIX, numa epoca em que a produção de padrões e de tecidos se tornou industrializada, a palavra design passou a fazer sentido. Eram necessários “desenhos” para que as maquinas os repetissem e daí virá o nome. O conceito é outra coisa. Como se percebe, o conceito muda como mudam os tempos e os paises. O que é aqui design pode não ser em outro sitio…em Africa por exemplo.

  8. […] texto foi colocado como comentário ao post “Os Três Taxistas” no blog “The Ressabiator”, de Mário […]

  9. […] uns anos assisti a uma reunião no Ministério da Ciência e Tecnologia onde se reuniam cerca de vinte dos trinta e tal cursos que […]

  10. […] terceira conversa sobre design com um taxista (o quarto taxista do título pode ser compreendido aqui). Nunca lhe disse o que fazia. Foi ele que começou a conversa quando lhe disse que íamos para as […]

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