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Se não podes pô-los a pensar uma vez, podes pô-los a pensar duas vezes

O Orçamento

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A diferença entre orçamento e salário é bastante simples: orçamento é a totalidade do que é cobrado por um trabalho; salário é a porção desse orçamento que alguém recebe por fazer esse trabalho. Se esquecermos os custos materiais de produção, orçamento e salário só coincidem num caso: quando se trabalha sozinho. Em todos os outros, o orçamento é sempre diferente do salário e, desejavelmente, maior do que ele. A diferença entre orçamento e salário é portanto o lucro, que tradicionalmente reverte a favor dos donos da empresa.

Ora uma das coisas que me incomoda mais nas conversas sobre design é a maneira recorrente como se fala quase sempre de orçamento e só muito raramente de salário. Falar de orçamento enfatiza a ideia de empresa acima da ideia de trabalhador, e beneficia implicitamente a primeira. No entanto, a palavra “orçamento” parece ser a designação genérica para tudo aquilo que tem a ver com dinheiro na vida de um designer.

A coisa começa nas escolas de design, onde é comum chamar-se às disciplinas de gestão as “cadeiras de orçamento” e aqui a intenção até nem é má: dar aos alunos os meios para exercerem a sua profissão com independência. Mas, ao educá-los para pensar apenas em termos de orçamentos, parte-se do principio que todos os designers vão ser empresários, quer a título individual, quer como empregadores de outros designers, descurando a probabilidade bastante grande de virem a exercer design ao serviço de uma empresa.

Essencialmente, falar só de orçamentos promove a ideia do designer individualista que, ou trabalha sozinho, ou é dono duma empresa cujos empregados são, mais do que meros assalariados, aprendizes. Ou seja, que a sua relação com a empresa tem menos a ver com dinheiro do que com aprendizagem. Quando souberem o suficiente, irão ganhar o seu dinheiro em outro lado, como designers freelancers ou como donos das suas próprias empresas.

Por outras palavras, os designers estão mais preparados para pensarem em si mesmos como empresas do que como trabalhadores e, como tal, desconhecem quase totalmente que os direitos do trabalho também se aplicam a eles. Só um designer acreditaria, por exemplo, que poder escrever “designer” num recibo verde é uma promoção social, quando é um símbolo bastante evidente de precariedade. (Aqui está mais uma prova de como os designers se vêem a si mesmos como solitários: é inconcebível que alguém acredite que trabalhar a recibos verdes para uma empresa promove alguém ou a sua profissão.)

Filed under: Crítica, Cultura, Design, Economia, Ensino,

7 Responses

  1. Márinho diz:

    os verdes até são azuis, q raio de designer chama “verde” a algo azul? daltónicos dum corno

  2. fx diz:

    Ainda gostava de saber é porque é que lhes deram o nome de recibos verdes…O que foi escrito aqui não podia ser mais verdade, ainda mais porque em empresas orçamento não é, definitivamente, igual a salário – então quanto mais baixo estivermos na “cadeia alimentar”, mais sentimos essa diferença. No caso dos freelancers ainda poderíamos pensar que orçamento e salários são mais similares, até ao momento em que nos apercebemos dos custos reais da nossa independência.

  3. Ricardo Moura diz:

    Quase no final do ano passado é que pude colocar a designação “designer” no recibo verde e saber qual o CIRS (não sei o que isso significa…) desta profissão: 1336. Confesso que fiquei muito feliz nesse dia 12 de Outubro, nessa repartição de finanças, ao saber da existência da profissão “designer” nas finanças. Quase que dei um beijinho à funcionária, tal era a comoção. Era tão recente, que o tal número e designação estavam escritos ainda “à mão” na folhinha fotocopiada de fotocopia de fotocopia de fotocopia… Deambulei pelas ruas muito feliz, com um sorriso de orelha a orelha, a pensar: já não sou um “outros prestadores de serviços”, sou um “designer”!
    Portanto, ainda há coisas fixes a acontecerem… embora, no essencial, continua tudo na mesma.

  4. Horácio Marques diz:

    Olá!

    O CIRS é o acrónimo de CÓDIGO DO IMPOSTO SOBRE OS RENDIMENTOS DE PESSOAS SINGULARES… acho bem que, como designers, também saibamos estas coisas pois nunca se sabe se será, um dia, a própria tutela (neste caso a Direcção-Geral dos Impostos) a ser o nosso cliente… no que se refere a design claro :—)

    Uma outra coisa: se os designers fossem mais unidos em torno de, pelo menos, uma ideia comum de profissão, tudo isto seria mais fácil já que os “sindicatos” (nem que sejam “só” verdadeiras uniões, de várias pessoas, em torno de interesses comuns), apesar de se terem de adaptar às transformações do mundo actual, ainda são uma força, um “lobby” útil, perante a tutela e o “lobbies” tanto de clientes como de empregadores.

    Façamos uma reflexão a sério e tomemos atitudes… se possível urgentemente!

  5. VS diz:

    fx, são chamados recibos verdes porque antes desta versão eram efectivamente recibos de cor verde. Penso que se os começarem a chamar recibos cinzentos, tomam uma dimensão menos cor-de-rosa. 🙂

  6. Eu trabalho como freelancer, logo presto serviços para várias empresas (uma ocupa-me a maior parte do tempo, claro). Não vejo mal nisso, muito pelo contrário! Podemos pedir pagamentos de acordo com a nossa própria tabela, o que quer dizer que podemos ganhar o mesmo que uma empresa cobraria pelos trabalhos! Depois, o facto de pagarmos taxas várias… isso é verdade: compra-se um PC, paga-se 50 e tal euros de taxa por aquisição de produto informático… Bem, a segurança social (190€ por mês) + os 20 % dos ganhos pagos às finanças…
    Mas também há benefícios! Ainda no outro dia fui a uma loja de telemoveis comprar uma placa de internet movel e ao apresentar os meus recibos a placa de net foi “oferecida” em troca de um contracto de 2 anos com a operadora! Tendo em conta que a placa custava pouco mais de 90 euros… Acho até bastante bem! Além disso, por trabalhar por conta própria ainda tenho um pagamento de internet a custos muito mais baixos do que para clientes comuns!
    Além disso, ainda conseguimos ter de volta o IRS e o próprio IVA!! E o IVA, teoricamente, acaba por ser um acrescento aos nossos lucros!

    🙂

  7. […] se falava de economia no design, usava-se sobretudo a palavra “orçamento”. Tal como já referi em outro texto, um orçamento é aquilo que uma empresa, individual ou colectiva, apresenta a um cliente; porquê […]

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